                                OS TRS MOSQUETEIROS

                              Volume 1


                              ALEXANDRE DUMAS


                              Coleco Livros de Bolso - 398


                              Publicaes Europa Amrica




Romance histrico, Os Trs Mosqueteiros pertencem com efeito a esse gnero literrio que Walter Scott ps em moda por volta de 1820.
Dumas teceu as suas fices sobre uma trama do sculo xvii, misturando personagens reais das mais altamente colocadas com personagens imaginrias. A sua inspirao 
faz agir e falar Lus XIII e Richelieu, Ana de ustria e Buckingham, reviver toda uma poca em que se sucedem as aventuras dos seus heris, D'Artagnan, Athos, Porthos, 
Aramis e essa fascinante Milady,  volta da qual a aco se desenrola com inegvel poder dramtico.
Geraes de leitores foram subjugados por esta obra brilhante, cheia de movimento, de cor e de esprito. Hoje, passado mais de um sculo, o livro conserva toda a 
sua frescura.


Do mesmo autor, nesta coleco:


A TULIPA NEGRA
O CONDE DE MONTE-CRISTO


                              Ttulo Original: Les Trois Mosquetaires


                              Traduo de Adelino dos Santos Rodrigues


                              Os Trs Mosqueteiros


                              Alexandre Dumas


                              Direitos Reservados por
                              Publicaes Europa-Amrica Lda.

                              Apartado 8

                              2726 MEM MARTINS CODEX


                              PORTUGAL



        OS TRS MOSQUETEIROS


        PREFCIO


        EM QUE SE ESTABELECE QUE, APESAR DOS SEUS NOMES
EM OS E EM IS, OS HERIS DA HISTRIA QUE VAMOS TER A
HONRA DE CONTAR AOS NOSSOS LEITORES NO Tm NADA
DE MITOLGICO.
H pouco mais ou menos um ano, procedendo a investigaes na Biblioteca Real para a minha histria de Lus XIV, encontrei por acaso as Memrias do Sr. d'Artagnan, 
impressas - como a maior parte das obras da poca, em que os autores pretendiam dizer a verdade sem irem dar uma volta mais ou menos longa pela Bastilha - em Amesterdo, 
na tipografia de Pierre Rouge. O ttulo seduziu-me, e levei-as para casa, com licena do Sr. Conservador, evidentemente, e devorei-as.
No  minha inteno analisar aqui essa obra curiosa, pelo que me limito a remeter para ela aqueles dos meus leitores que apreciem os quadros de poca. Encontraro 
a retratos a lpis feitos por mo de mestre; e embora esses esboos tenham sido, na maior parte dos casos, traados em portas de caserna e paredes de botequim, 
nem por isso reconhecero menos neles, to parecidas como na histria do Sr. Anquetil, as imagens de Lus XIII, de Ana de ustria, de Richelieu, de Mazarino e da 
maioria dos cortesos da poca.
Mas, como se sabe, o que impressiona o esprito caprichoso do poeta nem sempre  o que impressiona a massa dos leitores. Ora, embora admirando, como os outros admiraro 
sem dvida, os pormenores que assinalmos, o que mais nos preocupou foi uma coisa a que com certeza ningum antes de ns prestara a mais pequena ateno.

D'Artagnan conta que na sua primeira visita ao Sr. de Trville, o capito dos mosqueteiros do rei, encontrou na antecmara trs jovens que serviam no ilustre corpo 
em que ele solicitava a honra de ser recebido, chamados Athos, Porthos e Aramis.
Confessamos que estes trs nomes estranhos nos impressionaram e que nos acudiu imediatamente  ideia que no passavam de pseudnimos com que d'Artagnan ocultara 
nomes talvez ilustres, se  que os portadores desses nomes de emprstimo os no tinham escolhido pessoalmente no dia em que, por capricho, desgosto ou carncia de 
fortuna, tinham envergado o modesto uniforme de mosqueteiro.
Desde ento resolvemos no descansar enquanto no encontrssemos nas obras contemporneas qualquer vestgio desses nomes extraordinrios que to fortemente tinham 
despertado a nossa curiosidade.
O nico catlogo de livros que lemos para chegar a tal fim encheria por completo um folhetim, o que talvez fosse muito instrutivo, mas era de certeza pouco divertido 
para os nossos leitores. Limitamo-nos portanto a dizer-lhes que no momento em que, desanimados com tantas investigaes infrutferas, amos desistir da nossa busca 
encontrmos finalmente, guiados pelos conselhos do nosso ilustre e sbio amigo Pau-lin Paris um manuscrito in-flio cotado sob o nmero 4772 ou 4773, j no nos 
lembramos bem, tendo por ttulo:
"Memrias do Sr. Conde de La Fere respeitantes a alguns dos acontecimentos que se passaram em Frana cerca do fim do reinado de Lus XIII e princpios do reinado 
de Lus XIV."
Calcule-se como foi grande a nossa alegria quando, ao folhearmos o manuscrito, nossa derradeira esperana, encontrmos na vigsima pgina o nome de Athos, na vigsima 
stima o nome de Porthos e na trigsima primeira o nome de Aramis.
A descoberta de um manuscrito completamente desconhecido numa poca em que a cincia histrica atingiu to alto grau de desenvolvimento pareceu-nos quase milagrosa. 
Apressmo-nos por isso a solicitar autorizao para o mandar imprimir, a fim de nos apresentarmos um dia com a bagagem de outrem na Academia de Inscries e Belas-Artes, 
se no chegssemos, coisa muito provvel, a entrar na Academia Francesa com a nossa prpria bagagem. Tal autorizao, devemos diz-lo, foi-nos graciosamente concedida; 
o que consignamos aqui para dar desmentido pblico aos mal-intencionados que pretendem que vivemos sob um governo assaz mediocremente disposto a respeito dos escritores.
Ora,  a primeira parte desse precioso manuscrito que oferecemos hoje aos nossos leitores, depois de lhe restituirmos o ttulo que lhe pertence, com o compromisso 
de se, como no duvidamos, esta primeira parte obtiver o xito que merece, publicarmos imediatamente a segunda.
Entretanto, como o padrinho  um segundo pai, convidamos o leitor a responsabilizar-nos, e no ao conde de La Fere, pelo seu prazer ou pelo seu aborrecimento.
Posto isto, passemos  nossa histria.

 
ndice

        I - OS TRS PRESENTES DO SR. D'ARTAGNAN PAI .... 41
        II - A ANTECMARA DO SR. DE TRVILLE ........... 52
        III- A AUDINCIA ............................... 60
        IV - O OMBRO DE ATHOS, O BOLDRI DE PORTHOS
                              E O LENO DE ARAMIS ............. 69
        V - OS MOSQUETEIROS DO REI E OS GUARDAS
                              DO SR. CARDEal .................. 75
        VI - SUA MAJESTADE O REI LUS XIII ............. 83
        VII - COMO VIVIAM OS MOSQUETEIROS .............. 97
        VIII - UMA INTRIGA DE CORTE ................... 103
        IX - D'ARTAGNAN SALIENTA-SE ................... 109
        X - UMA RATOEIRA DO SCULO XVII ............... 115
        XI - A INTRIGA PROGRIDE ....................... 123
        XII - GEORGES VILLIERS, DUQUE DE BUCKINGHAM ... 136
        XIII O SR. BONACIEUX .......................... 142
        XIV- O HOMEM DE MEUNG ......................... 148
        XV- GENTE DE TOGA E GENTE DE ESPADA ........... 156
        XVI - ONDE O SR. CHANCELER SGUIER PROCUROU
                                 MAIS UMA VEZ O SINO PARA O
                              TOCAR, COMO FAZIA NOUTRO TEMPO . 162
        XVII - O CASAL BONACIEUX ...................... 170
        XVIII - O AMANTE E O MARIDO ................... 180



I - OS TRS PRESENTES DO SR. D'ARTAGNAN PAI


        Na primeira segunda-feira do ms de Abril de 1625 o burgo de Meung, onde nasceu o autor do Romance da Rosa, parecia encontrar-se em estado de revoluo to 
completa como se os huguenotes nela tivessem vindo fazer uma segunda Rochelle. Vrios burgueses, ao verem correr as mulheres para os lados da rua principal e ouvirem 
as crianas gritar no limiar das portas, tinham-se apressado a vestir a couraa e, apoiando a sua coragem um pouco duvidosa num mosquete ou numa partazana, dirigiram-se 
para a estalagem do Franc Meunier, diante da qual se comprimia, engrossando de minuto a minuto, um grupo compacto, ruidoso e cheio de curiosidade.
Naqueles tempos os pnicos eram frequentes e passavam-se poucos dias sem que uma ou outra cidade registasse nos seus arquivos algum acontecimento do gnero. Havia 
os fidalgos que guerreavam uns com os outros; havia o rei que fazia guerra ao cardeal, e havia o Espanhol que fazia guerra ao rei. Depois, alm dessas guerras surdas 
ou pblicas, secretas ou patentes, havia ainda os ladres, os mendigos, os huguenotes, os lobos e os lacaios, que faziam guerra a toda a gente. Os burgueses armavam-se 
sempre contra os ladres, contra os lobos e contra os lacaios, muitas vezes contra os fidalgos e os huguenotes e algumas vezes contra o rei, mas nunca contra o cardeal 
e o Espanhol. Resultou portanto desse hbito adquirido que na supracitada primeira segunda-feira do ms de Abril de 1625 os burgueses, ouvindo barulho e no vendo 
nem o pendo amarelo e vermelho, nem a libr do duque de Richelieu, se precipitaram para as bandas da estalagem do Franc Meunier.
Chegados l, todos puderam ver e identificar a causa daquele rumor.
Um jovem... - tracemos o seu retrato numa penada: imaginai D. Quixote aos dezoito anos, D. Quixote sem corselete, sem cota de malha e sem escarcelas, D. Quixote 
de gibo de l cuja cor azul se transformara num tom indefinvel de borra de vinho e azul-celeste. Rosto comprido e moreno; mas-do-rosto salientes, sinal de astcia; 
msculos maxilares enormemente desenvolvidos, indcio infalvel pelo qual se reconhece o Gasco, mesmo sem boina, e o nosso jovem trazia uma boina ornada com uma 
espcie de pluma; olhos francos e inteligentes;

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nariz adunco, mas finamente desenhado: demasiado alto para um adolescente, demasiado pequeno para um homem feito, e que um olhar pouco experiente tomaria por um 
filho de rendeiro em viagem, sem a sua longa espada que, pendente do boldri de cabedal, batia nas barrigas das pernas do seu proprietrio quando ele estava a p 
e no plo eriado da sua montada quando estava a cavalo.
Porque o nosso jovem tinha uma montada, e essa montada era at to notvel que dava nas vistas: era um garrano do Barn, de doze ou catorze anos, de pelagem amarela, 
sem crinas na cauda, mas no sem gavarros nas pernas, e que, embora caminhasse com a cabea mais baixa do que os joelhos, e que tornava intil a aplicao da gamarra, 
percorria mesmo assim as suas oito lguas por dia. Infelizmente, as qualidades do cavalo estavam to bem escondidas debaixo da sua pelagem estranha e do seu aspecto 
incongruente, que numa poca em que toda a gente entendia de cavalos o aparecimento do sobredito garrano em Meung, onde entrara havia pouco mais ou menos um quarto 
de hora pela Porta de Beaugency, produziu uma sensao cujo descrdito se reflectiu no seu cavaleiro.
E essa sensao fora tanto mais penosa ao jovem d'Artagnan (assim se chamava o D. Quixote dessoutro Rossinante) quanto  certo ter conscincia do aspecto ridculo 
que lhe dava, por melhor cavaleiro que fosse, semelhante montada; por isso suspirara profundamente ao aceitar a ddiva que lhe fizera o Sr. d'Artagnan pai. No ignorava 
que semelhante animal valia pelo menos vinte libras, e tambm era verdade que as palavras com que o presente fora acompanhado no tinham preo.
- Meu filho - dissera o fidalgo gasco no puro dialecto do Barn de que Henrique IV nunca conseguira libertar-se -, meu filho, este cavalo nasceu na casa do vosso 
pai h cerca de treze anos e nela tem permanecido desde ento, o que vos deve levar a am-lo. Nunca o vendais; deixai-o morrer tranquila e respeitavelmente de velhice 
e se entrardes em campanha com ele tratai-o como tratareis um velho servidor. Na corte - continuou o Sr. d'Artagnan pai -, se tiverdes a honra de l entrar, honra 
a que, de resto, a vossa velha nobreza vos d direito, sustentai dignamente o vosso nome de gentil-homem, que foi usado nobremente pelos vossos antepassados durante 
mais de quinhentos anos. Por vs e pelos vossos (pelos vossos entendo os vossos pais e os vossos amigos) nunca tolereis nada a no ser do Sr. Cardeal e do rei.  
pela sua coragem, ouvi bem, apenas pela sua coragem, que um gentil-homem abre actualmente caminho na vida. Todo aquele que trema um segundo deixa talvez fugir a 
oportunidade que precisamente durante esse segundo a sorte lhe oferecia. Sois jovem e deveis ser bravo por dois motivos: o primeiro porque sois gasco e o segundo 
porque sois meu filho. No receeis lutar e procurai as aventuras. Ensinei-vos a manejar a espada, tendes jarretes de ferro e punhos de ao; batei-vos por tudo e 
por nada; batei-vos, tanto mais que os duelos esto proibidos e por consequncia h duas vezes mais coragem em vos baterdes.

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S tenho para vos dar, meu filho, quinze escudos, o meu cavalo e os conselhos que acabais de ouvir. A vossa me juntar-lhes- a receita de certo blsamo que obteve 
de uma cigana e que possui uma virtude miraculosa para curar qualquer ferimento que no atinja o corao. Tirai proveito de tudo e vivei feliz e durante muito tempo. 
S tenho uma palavra a acrescentar, e  um exemplo que vos ofereo, no o meu, porque o no tenho, nunca frequentei a corte e s participei nas guerras de religio 
como voluntrio; refiro-me ao Sr. de Trville, que foi meu vizinho noutros tempos e que teve a honra de brincar em criana com o nosso rei Lus XIII, que Deus guarde! 
s vezes, as suas brincadeiras degeneravam em batalha, e nessas batalhas o rei nem sempre era o mais forte. Os golpes que nelas recebeu deram-lhe muita estima e 
amizade pelo Sr. de Trville. Mais tarde, o Sr. de Trville bateu-se com outros na sua primeira viagem a Paris, cinco vezes; depois da morte do defunto rei at  
maioridade do novo, sem contar as guerras e os cercos, sete vezes; e desde essa maioridade at hoje, talvez cem vezes! Por isso, apesar dos edictos, das ordenanas 
e das prises, ei-lo capito dos mosqueteiros, isto , chefe de uma legio de Csares que o rei tem em alta conta e que o Sr. Cardeal teme, ele que no teme muitas 
coisas, como todos sabemos. Alm disso, o Sr. de Trville ganha dez mil escudos por ano;  portanto um grandssimo senhor. E comeou como vs. Ide visit-lo com 
esta carta, tomai-o como modelo e procedei como ele.
Depois disto, o Sr. d'Artagnan pai cingiu ao filho a sua prpria espada, beijou-o ternamente em ambas as faces e deu-lhe a sua bno.
Quando saiu do quarto paterno, o jovem encontrou a me, que o esperava com a famosa receita de que os conselhos que acabamos de referir deviam impor uso bastante 
frequente. As despedidas foram deste lado mais longas e mais ternas do que haviam sido do outro, no porque o Sr. d'Artagnan no amasse o filho, que era a sua nica 
progenitura, mas sim porque o Sr. d'Artagnan era um homem e consideraria indigno de um homem ceder  emoo, ao passo que a Sr.a d'Artagnan era mulher e alm disso 
me. Chorou portanto abundantemente e, digamo-lo em louvor do Sr. d'Artagnan filho, apesar dos esforos que este fez para se manter firme como competia a um futuro 
mosqueteiro, a natureza levou a melhor e ele verteu muitas lgrimas, de que com grande custo conseguiu ocultar metade.
O jovem ps-se a caminho no mesmo dia, munido dos trs presentes paternos e que se compunham, como dissemos, de quinze escudos, do cavalo e da carta para o Sr. de 
Trville; como  fcil de calcular, os conselhos tinham sido dados  margem dos presentes.
Com semelhante vade-mcum, d'Artagnan ficou, tanto moral como fisicamente, uma cpia exacta do heri de Cervantes, com o qual to felizmente o comparmos quando 
os nossos deveres de historiador nos colocaram na necessidade de traar o seu retrato. D. Quixote tomava os moinhos de vento por gigantes e os carneiros por exrcitos, 
d'Artagnan tomou cada sorriso por um insulto e cada olhar por uma provocao. Da resultou que teve sempre o punho fechado de Tarbes at Meung,

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e que em mdia levou a mo  espada dez vezes por dia; todavia, nem punho desceu contra nenhum queixo, nem a espada saiu da bainha. ! s no impediu que a vista 
do malfadado garrano amarelo provocasse alguns sorrisos no rosto dos transeuntes; mas como por cima do garrano soava uma espada de tamanho respeitvel e por cima 
dessa espada brilhava um olhar mais feroz do que orgulhoso, os transeuntes reprimiam a sua hilaridade, ou se a hilaridade levava a melhor  prudncia, procuravam 
ao menos rir s de um lado, como as mscaras antigas! D'Artagnan manteve-se por tanto majestoso e intacto na sua susceptibilidade at  malfadada cidade de Meung.
Mas ai, quando desceu do cavalo  porta do Franc Meunier sem que ningum, estalajadeiro, criado ou moo de estrebaria, viesse segurar-lhe no estribo, d'Artagnan 
notou a uma janela entreaberta do rs-do-cho um gentil-homem elegante e de ar distinto, apesar de ligeiramente carrancudo, que conversava com duas pessoas que pareciam 
escut-lo com deferncia. D'Artagnan julgou muito naturalmente, conforme era seu hbito, ser o tema da conversa e escutou. Desta vez, d'Artagnan s se enganou metade: 
no era dele que se falava, mas sim do seu cavalo, O gentil-homem parecia enumerar aos seus ouvintes todas as qualidades do animal, e como, tal como j disse, os 
ouvintes pareciam ter grande deferncia pelo narrador, desatavam a rir a todo o momento. Ora, como um meio sorriso bastava para despertar a irascibilidade do jovem, 
adivinha-se que efeito lhe produziu to ruidosa hilaridade.
No entanto, d'Artagnan quis primeiro ver bem a fisionomia do impertinente que troava dele. Cravou pois o olhar orgulhoso no desconhecido e verificou tratar-se de 
um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, de olhos negros e penetrantes, tez plida, nariz fortemente acentuado e bigode negro e perfeitamente aparado; envergava 
gibo e cales cor de violeta com agulhetas da mesma cor, sem nenhum ornamento alm dos golpes habituais por onde se via a camisa. Tanto os cales como o gibo, 
apesar de novos, pareciam amarrotados, como roupas de viagem durante muito tempo fechadas numa mala. D'Artagnan deu-se conta de tudo isto com a rapidez do observador 
mais minucioso, e sem dvida por um sentimento instintivo lhe dizer que o desconhecido teria grande influncia na sua vida futura.
Ora, no momento em que d'Artagnan fixava o olhar no gentil-homem do gibo cor de violeta o mesmo gentil-homem fazia acerca do garrano bearns uma das suas mais sbias 
e profundas demonstraes; os seus dois ouvintes desataram a rir e ele prprio deixou visivelmente contra o seu hbito errar, se assim se pode dizer, um plido sorriso 
nos lbios. Desta vez j no havia dvida: d'Artagnan era realmente insultado. Assim, cheio de tal convico, enterrou a boina na cabea at aos olhos e, procurando 
imitar alguns dos gestos de corte que vira na Gasconha entre fidalgos em viagem, adiantou uma das mos na guarda da espada e apoiou a outra na anca. Infelizmente, 
 medida que avanava a clera cegava-o cada vez mais e em lugar do discurso digno e altivo

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que preparara para formular o desafio s encontrou na ponta da lngua uma expresso ofensiva que acompanhou com um gesto furioso.
- Eh, cavalheiro! - gritou. - Cavalheiro que vos escondeis atrs dessa janela! Sim, vs... Dizei-me de que vos rides e riremos juntos.
O gentil-homem afastou lentamente os olhos da montada do cavaleiro, como se precisasse de certo tempo para compreender que era a si que se dirigiam to estranhas 
palavras; depois, quando no pde conservar mais nenhuma dvida, franziu ligeiramente o sobrolho e aps uma pausa bastante longa responde a d'Artagnan com um acento 
de ironia e insolncia impossvel de descrever:
- No falo convosco, senhor.
- Mas falo eu convosco! - gritou o jovem, exasperado com aquele misto de insolncia e boas maneiras, de civilidade e desdm.
O desconhecido olhou-o ainda um instante com o seu tnue sorriso e, retirando-se da janela, saiu lentamente da estalagem para vir plantar-se, a dois passos de d'Artagnan, 
diante do cavalo. A sua atitude tranquila e a sua fisionomia escarninha tinham redobrado a hilaridade das pessoas com quem conversava e que tinham ficado  janela.
Ao v-lo chegar, d'Artagnan tirou a espada um p fora da bainha.
- Este cavalo  decididamente, ou antes foi na sua juventude um boto-de-ouro - prosseguiu o desconhecido continuando as investigaes comeadas e dirigindo-se aos 
seus ouvintes da janela, sem parecer notar de modo algum a exasperao de d'Artagnan, que no entanto se erguia entre ele e os outros. -  de uma cor muito conhecida 
em botnica, mas at agora rarissima em cavalos.
- Ri-se do cavalo quem no ousaria rir-se do dono! - exclamou o mulo de Trville, furioso.
- No rio muitas vezes, senhor - redarguiu o desconhecido -, como vs prprio podeis ver pela minha cara; no entanto, pretendo conservar o privilgio de rir quando 
me agradar...
- E eu no quero que se riam quando me desagradar! - gritou d'Artagnan.
- Deveras, senhor? - continuou o desconhecido, mais calmo do que nunca. - Bom,  perfeitamente justo.
E dando meia volta preparou-se para entrar na estalagem pela porta principal, debaixo da qual  sua chegada d'Artagnan notara um cavalo selado.
Mas d'Artagnan no era de ndole a deixar assim um homem que tivera a insolncia de zombar de si. Desembainhou completamente a espada e foi atrs dele gritando:
- Virai-vos, virai-vos, Sr. Brincalho, que no quero ferir-vos pelas
costas!
- Ferir-me, a mim?... - disse o outro, girando nos calcanhares e fitando o jovem com tanto espanto como desprezo. - Ento, ento, meu caro, estais louco!

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Depois, a meia voz e como se falasse consigo mesmo: -  pena... Que achado para Sua Majestade, que procura bravos por todos os lados para os seus mosqueteiros!
Ainda mal acabara de proferir estas palavras quando d'Artagnan lhe vibrou to furiosa estocada que se no tivesse dado rapidamente um salto para trs  provvel 
que gracejasse pela ltima vez. O desconhecido convenceu-se ento de que a coisa ia alm da brincadeira, desembainhou a espada, cumprimentou o seu adversrio e ps-se 
gravemente em guarda, mas no mesmo instante os seus dois ouvintes, acompanhados do estalajadeiro, caram sobre d'Artagnan e desancaram-no com paus, ps e tenazes. 
Isto constituiu uma diverso to rpida e completa ao ataque que o adversrio de d'Artagnan, enquanto este se virava para enfrentar aquela saraivada de pancadas, 
reembainhava com a mesma preciso e, de actor que acabara por no ser, se transformava em espectador do combate, papel de que se desempenhou com a sua impassibilidade 
habitual, embora resmungando:
- Malditos Gasces! Montai-o no seu cavalo cor de laranja e que desaparea!
- Mas no antes de te matar, cobarde! - gritava d'Artagnan, defendendo-se o melhor que podia e sem recuar um passo dos seus trs inimigos, que continuavam a desanc-lo.
- Mais uma fanfarronada - murmurou o gentil-homem. - Palavra de honra, estes Gasces so incorrigveis! Continuai portanto a dana, j que ele assim quer absolutamente. 
Quando estiver farto que diga "basta!"
Mas o desconhecido ainda no sabia com que espcie de casmurro estava metido; d'Artagnan no era homem para alguma vez pedir merc. O combate continuou pois durante 
mais alguns segundos. Por fim, d'Artagnan, exausto, deixou cair a espada, que uma paulada quebrou em duas. Outra paulada na testa derrubou-o quase ao mesmo tempo, 
a sangrar e quase sem sentidos.
Neste momento acorreu gente de todos os lados ao local da cena. O estalajadeiro, com receio do escndalo, transportou com a ajuda dos criados o ferido para a cozinha, 
onde lhe prestaram alguns cuidados.
Quanto ao gentil-homem, reocupara o seu lugar  janela e olhava com certa impacincia toda aquela gente, que parecia com a sua presena causar-lhe viva contrariedade.
- Ento, como est esse louco furioso? - perguntou virando-se ao ouvir abrir-se a porta, dirigindo-se ao estalajadeiro que vinha informar-se da sua sade.
- Vossa Excelncia est so e salvo? - perguntou o estalajadeiro.
- Estou, perfeitamente so e salvo, meu caro estalajadeiro, e sou eu quem vos pergunta que aconteceu ao nosso jovem.
- Est melhor - respondeu o estalajadeiro. - Perdeu por completo os sentidos.
- Deveras? - disse o gentil-homem.

46


- Mas antes de perder os sentidos reuniu todas as suas foras para vos chamar e desafiar.
- Mas  o Diabo em pessoa, esse rapazola! - exclamou o desconhecido.
- Oh, no, Excelncia, no  o Diabo! - redarguiu o estalajadeiro com uma careta de desprezo. - Durante o seu desmaio revistmo-lo e s trazia na trouxa uma camisa 
e na bolsa doze escudos, o que no o impediu de dizer ao perder os sentidos que se semelhante coisa tivesse acontecido em Paris vos arrependereis imediatamente, 
ao passo que aqui s vos arrependereis mais tarde.
- Nesse caso,  algum prncipe de sangue disfarado - observou friamente o desconhecido.
- Digo-vos isto, meu fidalgo, para que vos acauteleis - acrescentou o estalajadeiro.
- E no citou ningum na sua clera?
- Efectivamente, batia na algibeira e dizia: "Veremos o que o Sr. de Trville pensar deste insulto feito ao seu protegido."
- O Sr. de Trvile? - repetiu o desconhecido, mais atento. - Batia na algibeira e pronunciava o nome do Sr. de Trville?... Vejamos, meu caro estalajadeiro, enquanto 
o vosso jovem estava desmaiado no deixastes, estou certo, de revistar tambm essa algibeira. Que encontrastes?
- Uma carta dirigida ao Sr. de Trville, capito dos mosqueteiros. -Sim?...
-  como tenho a honra de vos dizer, Excelncia.
O estalajadeiro, que no era dotado de grande perspiccia, no notou a expresso que as suas palavras tinham dado  fisionomia do desconhecido. Este deixou o rebordo 
da janela em que at ali apoiara o cotovelo e franziu o sobrolho como um homem inquieto.
- Diabo! - murmurou entre dentes. - Ter-me- Trville mandado o gasco?  to novo! Mas uma estocada  uma estocada, seja qual for a idade daquele que a d, e desconfia-se 
menos de um garoto do que de qualquer outro. s vezes basta um pequeno obstculo para contrariar um grande desgnio.
E o desconhecido ficou pensativo durante alguns minutos.
- Vejamos, estalajadeiro, no sois capaz de me desembaraar desse exaltado? Em conscincia no o posso matar, e no entanto - acrescentou com expresso friamente 
ameaadora -, e no entanto incomoda-me. Onde est ele?
- No quarto da minha mulher, onde o tratam, no primeiro andar.
- Os seus andrajos e a sua trouxa esto com ele? No despiu o gibo?
- Pelo contrrio, tudo isso est c em baixo, na cozinha. Mas se esse jovem louco vos incomoda...

47


- Sem dvida. E causa na vossa estalagem um escndalo que as pessoas honestas no suportariam. Subi aos vossos aposentos, tiraM minha conta e avisai o meu lacaio.
- O qu, j nos deixais, senhor?!
- Bem o sabeis, pois ordenei-vos que mandsseis selar o meu cavalo. No me obedeceram?
- Claro que sim, e como Vossa Excelncia pode ver o seu cavalo est debaixo da porta principal todo aparelhado para partir.
- Muito bem. Fazei ento o que vos disse.
"Ol, ter medo do rapazinho?...", disse o estalajadeiro para consigo.
Mas um olhar imperioso do desconhecido interrompeu-lhe o pensamento. Cumprimentou humildemente e saiu.
"No convm que Milady seja vista por este patusco, e ela no deve tardar a; at j est atrasada. Decididamente,  melhor montar a cavalo e ir ao seu encontro... 
Se ao menos pudesse saber o que diz a carta endereada a Trville!", pensou o forasteiro.
E sempre resmungando dirigiu-se para a cozinha.
Entretanto o estalajadeiro, que no duvidava ser a presena do jovem a causa da precipitada sada do desconhecido da estalagem, subiu ao quarto da mulher e encontrara 
d'Artagnan j refeito do seu desmaio. Ento, fazendo-lhe compreender que a Polcia poderia prend-lo por se ter metido com um grande senhor - porque, na opinio 
do estalajadeiro, o desconhecido s podia ser um grande senhor -, ordenou-lhe, apesar da sua fraqueza, que se levantasse e continuasse o seu caminho! Meio atordoado, 
sem gibo, e com a cabea toda ligada, d'Artagnan levantou-se e, ajudado pelo estalajadeiro, comeou a descer. Mas ao chegar  cozinha a primeira coisa que viu foi 
o seu provocador, que conversava tranquilamente junto ao estribo de um pesado coche atrelado a dois enormes cavalos normandos.
A sua interlocutora, cuja cabea aparecia enquadrada pela portinhola, era uma mulher de vinte a vinte e dois anos. J dissemos com que rapidez d'Artagnan examinava 
totalmente uma fisionomia; viu portanto ao primeiro relance de olhos que a mulher era jovem e bela. Ora tal beleza impressionou-o tanto mais quanto  certo ser completamente 
desconhecida nas regies meridionais em que d'Artagnan vivera at ali. Tratava-se de uma mulher branca e loura, de comprido cabelo encaracolado cado sobre os ombros, 
grandes olhos azuis, lnguidos, lbios rosados e mos de alabastro. Conversava muito vivamente com o desconhecido.
- Assim, Sua Excelncia ordena-me... - dizia a dama.
- Que regresseis imediatamente a Inglaterra e que o previnais directamente se o duque sair de Londres.
- E quanto s minhas outras instrues? - perguntou a bela viajante.
- Esto encerradas nesta caixa que s abrireis do outro lado da Mancha.

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- Muito bem. E vs, que fazeis?
- Eu regresso a Paris.
- Sem castigardes esse insolente rapazinho? - perguntou a dama. O desconhecido ia responder; mas no momento em que abria a boca,
d'Artagnan, que tudo ouvira, correu para a porta.
- Este insolente rapazinho  que castiga os outros e espero que desta vez aquele que deve castigar no lhe fuja como da primeira! - gritou.
- No lhe fuja?... - repetiu o desconhecido franzindo o sobrolho.
- No, presumo que diante de uma mulher no ousareis fugir.
- Lembrai-vos - gritou Milady vendo o gentil-homem levar a mo  espada -, lembrai-vos de que o mais pequeno atraso pode deitar tudo a perder!
- Tendes razo - reconheceu o gentil-homem. - Segui portanto a vossa viagem que eu seguirei a minha.
E saudando a dama com uma inclinao de cabea saltou para o cavalo, enquanto o cocheiro do coche fustigava vigorosamente a sua parelha. Os dois interlocutores partiram 
a galope e afastaram-se cada um por seu lado da rua.
- Eh, a vossa conta! - berrou o estalajadeiro, cuja deferncia para com o cliente se transformava em profundo desprezo ao v-lo afastar-se sem pagar o que devia.
- Paga, velhaco! - gritou o viajante, sempre galopando, ao seu lacaio, o qual lanou aos ps do estalajadeiro duas ou trs moedas de prata e desatou a galopar atrs 
do amo.
- Ah, cobarde! Ah, miservel! Ah, falso gentil-homem! - gritou d'Artagnan, correndo por sua vez atrs do lacaio.
Mas o ferido estava ainda demasiado fraco para poder suportar semelhante esforo. Mal deu dez passos, os ouvidos zumbiram-lhe, a vista faltou-lhe, uma nuvem de sangue 
passou-lhe pelos olhos e ele caiu no meio da rua, ainda a gritar:
- Cobarde! Cobarde! Cobarde!
-  de facto muito cobarde - murmurou o estalajadeiro aproximando-se de d'Artagnan e procurando com tal lisonja reconciliar-se com o pobre rapaz, como o heri da 
fbula com o seu caracol da noite.
- Sim, muito cobarde - murmurou d'Artagnan. - Mas ela  muito bonita!
- Ela, quem? - perguntou o estalajadeiro.
- Milady - balbuciou d'Artagnan. E desmaiou segunda vez.
- Pacincia - disse o estalajadeiro -, perdi dois hspedes, mas resta-me este, que estou certo de conservar pelo menos uns dias. E sempre ganharei onze escudos.
Como sabemos, onze escudos eram exactamente a importncia que restava na bolsa de d'Artagnan.
O estalajadeiro contara com onze dias de doena a um escudo por dia, mas no contara com o seu hspede.

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No dia seguinte, s 5 horas da manh, d'Artagnan levantou-se, desceu pessoalmente  cozinha, pediu alm doutros ingredientes cuja lista no chegou at ns, vinho, 
azeite, alecrim e, com a receita da me na mo, comps um blsamo com que untou os seus numerosos ferimentos, substituiu ele prprio as suas compressas e recusou 
os socorros de qualquer mdico. Graas sem dvida  eficcia do blsamo da cigana, e talvez tambm  ausncia de qualquer mdico, d'Artagnan encontrou-se livre de 
perigo nessa mesma noite e quase curado no dia seguinte.
Mas na altura de pagar o alecrim, o azeite e o vinho, sua nica despesa pessoal, visto ter mantido uma dieta absoluta, ao passo que pelo contrrio o cavalo amarelo, 
pelo menos no dizer do estalajadeiro, comera trs vezes mais do que seria razovel supor-se pelo seu tamanho, d'Artagnan encontrou na algibeira apenas a sua bolsinha 
de veludo pudo e os onze escudos que ela continha. Quanto  carta dirigida ao Sr. de Trville, desaparecera.
O jovem comeou por procurar a carta com grande pacincia, virando e revirando vinte vezes as algibeiras, revistando e tornando a revistar o saco, abrindo e fechando 
a bolsa; mas quando se convenceu de que a carta desaparecera mesmo, teve terceiro acesso de raiva que quase lhe ocasionou novo consumo de vinho e azeite aromatizados. 
Porque, ao ver aquela jovem m cabea encolerizar-se e ameaar partir tudo no estabelecimento se a sua carta no aparecesse, o estalajadeiro pegara num chuo, a 
mulher num cabo de vassoura e os criados nos mesmos paus que tinham servido na antevspera.
- A minha carta de recomendao! - gritava d'Artagnan. - A minha carta de recomendao, com mil demnios, ou espeto-os a todos como se fossem pardais!
Infelizmente, uma circunstncia opunha-se a que o jovem cumprisse a sua ameaa:  que, como dissemos, a sua espada fora, na primeira luta, quebrada em dois bocados, 
o que ele esquecera por completo. E da resultou que quando d'Artagnan a quis efectivamente desembainhar se encontrou pura e simplesmente armado com um pedao de 
espada de cerca de oito ou dez polegadas, que o estalajadeiro lhe metera cuidadosamente na bainha. Quanto ao resto da lmina, o cozinheiro surripiara-o habilmente 
para fazer dele uma lardeadeira.
Semelhante decepo no teria no entanto detido provavelmente o nosso fogoso jovem se o estalajadeiro no tivesse reflectido que a reclamao que lhe dirigia o seu 
hspede era perfeitamente justa.
- De facto, onde est a carta? - disse, baixando o chuo.
- Sim, onde est a carta? - gritou d'Artagnan. - Antes de mais nada, previno-vos de que a carta se destina ao Sr. de Trville, e tem de aparecer; porque se no aparecer 
ele saber mand-la procurar!
Esta ameaa acabou de intimidar o estalajadeiro. Depois do rei e do Sr. Cardeal, o Sr. de Trville era o homem cujo nome

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talvez fosse mais vezes repetido pelos militares e at pelos burgueses. Havia tambm o padre Joseph,  verdade; mas o seu nome era sempre pronunciado baixinho, tal 
era o terror que inspirava a eminncia parda, como chamavam ao familiar do cardeal.
Por isso, atirando o chuo para longe e ordenando  mulher que fizesse o mesmo ao cabo de vassoura e aos criados que procedessem de igual modo com os paus, foi o 
primeiro a dar o exemplo pondo-se a procurar pessoalmente a carta perdida.
- A carta continha alguma coisa valiosa? - perguntou o estalajadeiro ao cabo de um instante de investigaes inteis.
-  claro que continha! - gritou o gasco, que contava com a carta para abrir caminho na corte. - Continha a minha fortuna.
- Em ttulos do Tesouro? - perguntou o estalajadeiro, inquieto.
- Em ttulos sobre a tesouraria particular de Sua Majestade - respondeu d'Artagnan, o qual, contando entrar ao servio do rei graas quela recomendao, julgava 
poder dar sem mentir esta resposta um tanto arriscada.
- Demnio! - exclamou o estalajadeiro, completamente desesperado.
- Mas isso no interessa - continuou d'Artagnan, com o descaramento nacional. - Isto no interessa, porque o dinheiro no  nada; essa carta  que era tudo. Preferiria 
ficar sem mil pistolas a perd-la.
No se arriscaria mais se dissesse vinte mil, mas certo pudor juvenil conteve-o.
Um raio de luz feriu de sbito o esprito do estalajadeiro, que se amaldioava por no encontrar nada.
- A carta no foi perdida! - exclamou.
- Como?... - saltou d'Artagnan.
- No, foi-vos roubada.
- Roubada! E por quem?
- Pelo fidalgo de ontem. Desceu  cozinha, onde estava o vosso gibo, e ficou l sozinho. Apostava que foi ele quem a roubou.
- Achais que sim? - respondeu d'Artagnan, pouco convencido, pois conhecia melhor do que ningum a importncia absolutamente pessoal da carta e no via nela nada 
que pudesse tentar a cupidez.
De facto, nenhum dos criados, nenhum dos viajantes presentes ganharia nada em possuir aquele papel.
- Dizeis ento que desconfiais desse impertinente gentil-homem... - prosseguiu d'Artagnan.
- Digo-vos que tenho a certeza de que foi ele - respondeu o estalajadeiro. - Quando lhe anunciei que Vossa Senhoria era protegido do Sr. de Trville e que at tnheis 
uma carta para esse ilustre fidalgo, pareceu muito inquieto, perguntou-me onde estava essa carta e desceu imediatamente  cozinha, onde sabia estar o vosso gibo.
- Ento  ele o ladro - concluiu d'Artagnan. - Queixar-me-ei ao Sr. de Trville e o Sr. de Trville queixar-se- ao rei.

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Depois, tirou majestosamente dois escudos da algibeira, deu-os ao estalajadeiro, que o acompanhou de chapu na mo at  porta, e voltou a montar o cavalo amarelo 
que o conduziu sem outro acidente  Porta Santo Antnio, em Paris, onde o seu proprietrio o vendeu por trs escudos, o que foi muito bem pago, atendendo a que d'Artagnan 
lhe pregara uma grande estafa durante a ltima etapa. Por isso o alquilador a quem d'Artagnan o cedeu mediante as sobreditas nove libras no ocultou ao jovem que 
s lhe dava aquela soma exorbitante por ele devido  originalidade da sua cor.
D'Artagnan entrou portanto em Paris a p, com a sua pequena trouxa debaixo do brao, e caminhou at encontrar para alugar um quarto de acordo com a exiguidade dos 
seus recursos. Esse quarto foi uma espcie de mansarda na Rua dos Fossoyeurs, perto do Luxemburgo.
Logo que pagou ao porteiro, d'Artagnan tomou posse do seu alojamento e passou o resto do dia a coser no gibo e nos cales passamanarias que a me tirara de um 
gibo quase novo do Sr. d'Artagnan pai e lhe dera s escondidas. Depois foi ao Cais da Ferraille mandar pr uma lmina na espada, e em seguida ao Louvre informar-se 
junto do primeiro mosqueteiro que encontrou donde ficava o palcio do Sr. de Trville, o qual morava na Rua Vieux-Colombier, ou seja, precisamente nas imediaes 
do quarto alugado por d'Artagnan, circunstncia que lhe pareceu de bom augrio para o xito da sua viagem.
Seguidamente, satisfeito com a forma como se comportara em
Meung, sem remorsos no passado, confiante no presente e cheio de esperana no futuro, deitou-se e adormeceu de conscincia tranquila.
O sono, ainda provinciano, durou at s 9 horas da manh, hora a que se levantou para se dirigir ao palcio do famoso Sr. de Trville, a terceira personagem do reino 
na opinio paterna.


        II - A ANTECMARA DO SR. DE TRVILLE


        O Sr. de Troisvilles, como se chamava ainda a sua famlia na Gasconha, ou Sr. de Trville, como acabara por se chamar a si mesmo em Paris, tinha realmente 
comeado como d'Artagnan, isto , sem um soldo na algibeira, mas com esse capital de audcia, de engenho e de inteligncia que permite que o mais pobre fidalgote 
gasco receba muitas vezes mais em esperanas da herana paterna do que o mais rico gentil-homem perigordino ou berricho recebe na realidade. A sua bravura insolente 
e a sua sorte ainda mais insolente numa poca em que os lances

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choviam como granizo, tinham-no alado ao cimo dessa escada difcil que se chama o favor da corte e cujos degraus escalara quatro a quatro.
Era amigo do rei, o qual honrava muito, como todos sabem, a memria de seu pai Henrique IV. O pai do Sr. de Trville servira-o to fielmente nas guerras contra a 
Liga que  falta de metal sonante - coisa que toda a vida faltou ao bearns, o qual pagou constantemente as suas dvidas com a nica coisa que nunca necessitou de 
pedir emprestada, ou seja, com esprito -, que  falta de metal sonante, dizamos, o autorizara, depois da rendio de Paris, a tomar como armas um leo de ouro 
segurando na boca esta divisa: Fidelis et fortis. Era muito como honra, mas pouco adiantava ao bem-estar. Por isso, quando o ilustre companheiro do grande Henrique 
morreu deixou como nica herana ao senhor seu filho a sua espada e a sua divisa. Graas a esta dupla doao e ao nome sem mcula que a acompanhava o Sr. de Trville 
foi admitido na casa do jovem prncipe, onde serviu to bem com a espada e foi to fiel  sua divisa que Lus XIII, uma das boas lminas do reino, costumava dizer 
que se tivesse um amigo que se batesse o aconselharia a tomar como segundo primeiro ele e depois Trville, e at talvez este antes dele.
Por isso, Lus XIII dedicava sincera afeio a Trville, embora afeio real seja afeio egosta,  certo, mas nem por tal motivo menos afeio.  que naqueles 
tempos calamitosos no faltava quem procurasse rodear-se de homens da tmpera de Trville. Muitos poderiam tomar por divisa o epteto de forte, que constitua a 
segunda parte do seu exergo, mas poucos gentis-homens poderiam reclamar o epteto de fiel, que constitua a primeira. Trville era um destes ltimos, uma dessas 
raras pessoas dotadas de inteligncia obediente como a do co, de coragem cega, de golpe de vista rpido e de mo pronta, a quem os olhos tinham sido dados apenas 
para ver se o rei estava descontente com algum e a mo para castigar esse algum, fosse um Besme, um Maure-vers, um Poltrot de Mr, um Vitry. Enfim, a Trville 
s faltara at ali a oportunidade; mas espreitava-a e prometia a si mesmo agarr-la bem pelos cabelos se alguma vez passasse ao alcance da sua mo. Por isso, Lus 
XIII fez de Trville o capito dos seus mosqueteiros, os quais eram para Lus XIII, pela sua dedicao ou antes pelo seu fanatismo, o que eram para Henrique III 
os seus ordinrios e a guarda escocesa para Lus XI.
Pela sua parte, e a tal respeito, o cardeal no estava menos bem servido do que o rei. Quando vira o formidvel escol de que Lus XIII se rodeava, esse segundo, 
ou antes esse primeiro rei de Frana tambm quisera ter a sua guarda. Teve portanto os seus mosqueteiros, tal como Lus XIII tinha os seus, e viam-se essas duas 
potncias rivais seleccionar para o seu servio, em todas as provncias de Frana e at em todos os Estados estrangeiros, os homens clebres pelas grandes estocadas. 
Por isso, Richelieu e Lus XIII discutiam muitas vezes, enquanto  noite jogavam a sua partida de xadrez,

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acerca do mrito dos seus servidores. Ambos gabavam o porte e a coragem dos seus, e embora se pronunciassem em voz alta contra os duelos e as rixas incitavam-nos 
em voz baixa a baterem-se e experimentavam autntico desgosto ou alegria imoderada com a derrota ou a vitria dos seus. Assim, pelo menos, o dizem as Memrias de 
um homem que esteve nalgumas dessas derrotas e em muitas dessas vitrias.
Trville descobrira o ponto fraco do seu senhor e era a essa sagacidade que devia o longo e constante favor de um rei que no deixou fama de ter sido muito fiel 
aos amigos. Fazia desfilar os seus mosqueteiros diante do cardeal Armand Duplessis, com um ar velhaco que eriava de clera o bigode grisalho de Sua Eminncia. Trville 
entendia admiravelmente bem a guerra da poca, em que, quando se no vivia  custa do inimigo, se vivia  custa dos compatriotas. Os seus soldados formavam uma legio 
de diabos a quatro, indisciplinada para qualquer outro menos para ele.
Desleixados, bbedos e barulhentos, os mosqueteiros do rei, ou antes do Sr. de Trville, frequentavam os botequins, os passeios e os divertimentos pblicos, gritando 
a plenos pulmes e retorcendo os bigodes, fazendo tinir as espadas e deleitando-se a provocar os guardas do Sr. Cardeal quando os encontravam. Depois, desembainhavam 
as espadas em plena rua, sempre gracejando; s vezes morriam, mas nesse caso tinham a certeza de ser chorados e vingados; quase sempre matavam, e quando isso acontecia 
tambm estavam certos de no apodrecer na priso, pois l estava o Sr. de Trville para os reclamar. Por isso, o Sr. de Trville era louvado em todos os tons, cantado 
em todas as gamas por aqueles homens que o adoravam e que, apesar de capazes de tudo, tremiam diante dele como escolares diante do professor, lhe obedeciam  mais 
pequena palavra e estavam prontos a deixar-se matar para se reabilitarem da mais pequena censura.
O Sr. de Trville utilizara to poderosa alavanca primeiro em proveito do rei e dos seus amigos e depois em seu prprio proveito e dos seus amigos. Mesmo assim, 
em nenhuma das Memrias desse tempo, que deixou tantas Memrias, se v que o digno gentil-homem tenha sido acusado, mesmo pelos seus inimigos - e tinha-os tanto 
entre os escritores como os nobres -, em parte alguma se v, dizamos, que o digno gentil-homem tenha sido acusado de tirar proveito dos prstimos dos seus comandados. 
Apesar de dotado de raro pendor para a intriga, o que o colocava em p de igualdade com os mais fortes intriguistas, conservara-se um homem honesto. Mais ainda, 
a despeito das grandes estocadas que derrancam e dos exerccios penosos que fatigam, tornara-se um dos mais galantes frequentadores de vielas, um dos mais finos 
peralvilhos e um dos mais alambicados declamadores de Febo da sua poca. Falava-se das aventuras galantes de Trville como se falara vinte anos antes das de Bassompierre, 
e j no era pouco.

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O capito dos mosqueteiros era pois admirado, temido e amado, o que constitui o apogeu das aventuras humanas.
Lus XIV absorveu todos os pequenos astros da sua corte na sua vasta irradiao; mas seu pai, sol pluribus impar, deixou o seu esplendor pessoal a cada um dos seus 
cortesos. Alm do levantar do rei e do cardeal, havia ento em Paris mais de duzentos pequenos levantares um pouco pretensiosos. Entre esses duzentos pequenos levantares 
o de Trville era um dos mais concorridos.
O ptio do seu palcio, situado na Rua de Vieux-Colombier, parecia um acampamento a partir das 6 horas da manh no Vero e das 8 horas no Inverno. Cinquenta a sessenta 
mosqueteiros, que pareciam revezar-se para apresentarem um nmero sempre impressionante, andavam constantemente de um lado para o outro, armados como se fossem para 
a guerra e prontos para tudo. Ao longo de uma das suas grandes escadarias, que ocupava um espao em que a nossa civilizao ergueria um edifcio completo, subiam 
e desciam os solicitantes de Paris candidatos a qualquer merc, os fidalgos da provncia ansiosos por se alistarem e os lacaios agaloados de todas as cores que vinham 
trazer ao Sr. de Trville os recados dos amos. Na antecmara, sentados em grandes bancos circulares, descansavam os eleitos, isto , os que eram convocados. Ouvia-se 
ali, de manh  noite, um zumbido de vozes, enquanto o Sr. de Trville, no gabinete contguo  antecmara, recebia os visitantes, ouvia queixas, dava ordens, e como 
o rei  varanda do Louvre bastava-lhe chegar-se  janela para passar em revista homens e armas.
No dia em que d'Artagnan se apresentou a assembleia era imponente, sobretudo para um provinciano acabado de chegar da sua provncia.  certo que esse provinciano 
era gasco e que sobretudo naquela poca os compatriotas de d'Artagnan tinham fama de no se intimidarem facilmente. Com efeito, logo que se transpunha a porta macia, 
cravejada de grandes pregos de cabea quadrangular, caa-se no meio de uma turba de militares que se cruzavam no ptio, se interpelavam, discutiam e gracejavam uns 
com os outros. Para se conseguir abrir caminho por entre todas aquelas vagas turbilhonantes era necessrio ser-se oficial, grande senhor ou mulher bonita.
Foi pois no meio de tal barafunda que o nosso jovem avanou com o corao palpitante, segurando o comprido espadalho ao longo das pernas magras e com uma das mos 
na aba do chapu, como meio sorriso do provinciano embaraado que quer fazer boa figura. Ultrapassara um grupo e respirava mais livremente; mas adivinhou que se 
viravam para o observar e pela primeira vez na vida d'Artagnan, que at quele dia tivera menos m opinio a seu respeito, se achou ridculo.
Chegado  escadaria foi pior ainda: havia nos primeiros degraus quatro mosqueteiros que se divertiam com o seguinte exerccio, enquanto dez ou doze dos seus camaradas 
esperavam no patamar que chegasse a sua vez de participarem na pardia: um deles, colocado no degrau superior, de espada nua na mo,

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impedia, ou pelo menos esforava-se por impedir, os outros trs de subir. Esses trs esgrimiam contra ele com as suas espadas muito geis. De incio, d'Artagnan 
tomou as armas por floretes de esgrima e julgou-as de ponta em forma de boto; mas no tardou a verificar por certos arranhes que todas as armas estavam, pelo contrrio, 
bem afiadas e aguadas e que a cada arranho no s os espectadores, mas tambm os actores, riam como loucos.
O que ocupava o degrau naquele momento mantinha maravilhosamente os seus adversrios em respeito. Rodeava-os um crculo de curiosos. A condio estabelecida era 
a cada toque o tocado deixar a partida e perder a sua vez na audincia em proveito do tocador. Em cinco minutos foram aflorados trs, um no pulso, outro no queixo 
e outro numa orelha, pelo defensor do degrau, sem ele prprio ser atingido, resultado que lhe valeu, de acordo com o estabelecido, avanar trs lugares.
No tanto pela sua dificuldade como pela sua espectacularidade, este passatempo surpreendeu o nosso jovem viajante; vira na sua provncia, numa terra onde no entanto 
se esquentavam to rapidamente as cabeas, um pouco mais de preliminares nos duelos, e a fanfarronada dos quatro espadachins pareceu-lhe mais forte do que todas 
as que tinham chegado ao seu conhecimento at ali, mesmo na Gasconha. Julgou-se transportado ao famoso pas dos gigantes aonde Gulliver foi mais tarde e teve tanto 
medo; e no entanto ainda no vira tudo: faltavam o patamar e a antecmara.
No patamar no se lutava, contavam-se histrias de mulheres, e na antecmara histrias da corte. No patamar, d'Artagnan corou; na antecmara tremeu. A sua imaginao 
viva e vagabunda, que na Gasconha o tornava temido das jovens criadas de quarto e at por vezes das suas jovens amas, nunca sonhara, mesmo nos momentos de delrio, 
com metade daquelas maravilhas amorosas, nem com um quarto daquelas faanhas galantes, realadas com os nomes mais conhecidos e os pormenores menos velados. Mas 
se o seu amor aos bons costumes ficou ofendido no patamar, o seu respeito pelo cardeal ficou escandalizado na antecmara. A, com grande espanto seu, d'Artagnan 
ouviu criticar alto e bom som a poltica que fazia tremer a Europa e a vida privada do cardeal, o que valera a tantos altos e poderosos senhores serem castigados 
por terem tentado aprofund-la: o grande homem, reverenciado pelo Sr. d'Artagnan pai, servia de escrnio aos mosqueteiros do Sr. de Trville, que ridicularizavam 
as suas pernas tortas e o seu dorso curvado; alguns cantavam loas acerca da Sr.a d'Aiguillon, sua amante, e da Sr.a de Cambalet, sua sobrinha, enquanto outros liam 
partes contra os pajens e os guardas do cardeal-duque, tudo coisas que pareciam a d'Artagnan monstruosas impossibilidades.
Contudo, quando o nome do rei era citado de sbito, de imprevisto, no meio de todos aqueles dichotes cardinalescos, uma espcie de mordaa vedava por momentos todas 
aquelas bocas trocistas; olhavam com hesitao em torno de si e pareciam temer a indiscrio da parede do gabinete do Sr. de Trville.

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Mas em breve uma aluso reconduzia a conversa para Sua Eminncia, e ento os ditos aumentavam e fazia-se luz sobre algumas das suas aces.
"Esta gente ainda acaba por ser toda metida na Bastilha e enforcada", pensou d'Artagnan com terror, "e eu sem dvida alguma com eles, pois desde o momento em que 
os escutei serei considerado seu cmplice. Que diria o senhor meu pai, que tanto me recomendou que respeitasse o cardeal, se me soubesse na companhia de semelhantes 
pagos?"
Por isso, como calculareis sem que necessite de o dizer, d'Artagnan no ousava tomar parte na conversao; limitava-se a olhar de olhos bem abertos, a escutar com 
todos os ouvidos e a apurar avidamente os seus cinco sentidos para no perder nada, e mal-grado a sua confiana nas recomendaes paternas sentia-se levado pelos 
seus gostos e arrastado pelos seus instintos a louvar, mais do que a censurar, as coisas inauditas que se passavam ali.
No entanto, como era absolutamente estranho  multido de cortesos do Sr. de Trville e o viam pela primeira vez ali, vieram perguntar-lhe o que desejava. Perante 
tal pergunta, d'Artagnan apresentou-se muito humildemente, salientou o seu ttulo de compatriota e pediu ao criado de quarto que lhe viera fazer a pergunta que solicitasse 
por ele ao Sr. de Trville um momento de audincia, pedido que o criado prometeu em tom protector transmitir oportunamente.
Um pouco refeito da sua surpresa inicial, d'Artagnan teve portanto vagar para estudar os trajos e as fisionomias.
No centro do grupo mais animado encontrava-se um mosqueteiro corpolento, de ar altivo e com um trajo extravagante qe lhe atraa as atenes gerais. No trazia naquele 
momento a sobreveste do uniforme, que alis no era absolutamente obrigatria naquela poca de menos liberdade, mas de maior independncia, e sim um gibo azul-celeste, 
embora um pouco desbotado e coado, e sobre o gibo um boldri magnfico, bordado a ouro e que reluzia como as escamas de que a gua se cobre sob sol intenso. Uma 
comprida capa de veludo carmesim caa-lhe com graa dos ombros, descobrindo pela frente apenas o esplndido boldri, do qual pendia uma espada gigantesca.
O mosqueteiro acabava de sair de guarda naquele instante, queixava-se de estar constipado e tossia de vez em quando com afectao. Por isso pusera a capa, conforme 
dizia  sua volta, e enquanto falava do alto da sua empfia, torcendo desdenhosamente o bigode, os presentes admiravam com entusiasmo o boldri bordado e d'Artagnan 
mais do que qualquer outro.
- Que quereis - dizia o mosqueteiro -,  moda...  uma loucura, bem sei, mas  moda. Alis, nalguma coisa temos de empregar o dinheiro da legtima.
- Ento, Porthos, no queiras convencer-nos que deves esse boldri  generosidade paterna! - gritou um dos assistentes.

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- Inclino-me mais para que te tenha sido dado pela dama velada com quem te encontrei no outro domingo para os lados da Porta Saint-Honor.
- No, pela minha honra e f de gentil-homem, juro que fui eu mesmo que o comprei com o meu prprio dinheiro - respondeu aquele que acabavam de designar pelo nome 
de Porthos.
- Sim, como eu comprei esta bolsa nova com o que a minha amante metera na velha - disse outro mosqueteiro.
-  verdade - insistiu Porthos -, e a prova  que dei por ele doze pistolas.
A admirao redobrou, embora a dvida continuasse a existir.
- No foi Aramis? - perguntou Porthos, virando-se para outro mosqueteiro.
Esse outro mosqueteiro formava perfeito contraste com aquele que o interrogava e que acabara de o designar pelo nome de Aramis: era um rapaz de vinte e dois a vinte 
e trs anos apenas, de rosto ingnuo e afectado, olhos negros e meigos e faces rosadas e aveludadas como um pssego no Outono. O bigode, fino, desenhava-lhe sobre 
o lbio superior uma linha recta perfeita; as mos pareciam ter medo de se baixar, no fossem as veias intumescer, e de vez em quando beliscava a ponta das orelhas 
para as manter de uma cor de carne delicada e transparente. Habitualmente falava pouco e devagar, cumprimentava muito e ria sem rudo, mostrando os dentes, que tinha 
bonitos e com os quais, tal como com o resto da sua pessoa, parecia ter o maior cuidado. Respondeu com um sinal de cabea afirmativo  interpelao do amigo.
Esta afirmao pareceu dissipar todas as dvidas a respeito do boldri; continuaram a admir-lo, mas ningum falou mais dele; e por uma dessas reviravoltas rpidas 
do pensamento a conversa mudou de sbito para outro assunto.
- Que pensais do que conta o escudeiro de Chalais? - perguntou outro mosqueteiro sem interpelar directamente ningum, mas dirigindo-se pelo contrrio a toda a gente.
- E que conta ele? - perguntou Porthos em tom presunoso.
- Conta que encontrou Rochefort, o alma danada do cardeal, em
Bruxelas, disfarado de capuchinho; graas ao disfarce, o maldito Rochefort enganou o Sr. de Laigues como um tolo que .
- Como um verdadeiro tolo - sublinhou Porthos. - Mas isso  verdade?
- Soube-o por Aramis - respondeu o mosqueteiro.
- Deveras?
- Sabes muito bem que  verdade - interveio Aramis. - Contei-to ontem. Mas no falemos mais disso.
- No falemos mais disso! Essa  a tua opinio - redarguiu Porthos. - No falemos mais disso!... Irra, como concluis depressa! Como, o cardeal manda espiar um gentil-homem, 
roubar a sua correspondncia por um traidor, um bandido, um facnora;

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consegue com o auxlio desse espio e graas a essa correspondncia cortar o pescoo a Chalais, sob o estpido pretexto de que quis assassinar o rei e casar Monsieur 
com a rainha; ningum sabia nada a respeito de tal enigma, tu s no-lo disseste ontem, com grande satisfao de todos, e quando estamos ainda de boca aberta com 
a notcia vens dizer-nos hoje: "No falemos mais disso!"
- Pois ento falemos, j que assim o queres - redarguiu Aramis com pacincia.
- Se eu fosse o escudeiro do pobre Chalais, esse Rochefort passaria um mau bocado comigo! - gritou Porthos.
- E tu passarias um triste quarto de hora com o duque vermelho - volveu-lhe Aramis.
- Ah, o duque vermelho! Bravo, bravo, o duque vermelho! - respondeu Porthos, batendo as mos e aprovando com a cabea. - O duque vermelho, est bem achado! Espalharei 
a alcunha, meu caro, podes estar descansado. Tem esprito, este Aramis! Que pena no teres podido seguir a tua vocao, meu caro! Darias um padre delicioso!
- Oh, no passa de um adiamento momentneo! - replicou Aramis. - S-lo-ei um dia. Bem sabes, Porthos, que continuo a estudar Teologia para isso.
- Ser como ele diz - confirmou Porthos. - Ser como ele diz, mais cedo ou mais tarde.
- Mais cedo - corrigiu Aramis.
- S espera uma coisa para se decidir imediatamente a vestir a sotaina, que est pendurada debaixo do uniforme - observou um mosqueteiro.
- E que coisa  essa? - perguntou outro.
- S espera que a rainha d um herdeiro  coroa de Frana.
- No brinquemos com essas coisas, meus senhores - interveio Porthos. - Graas a Deus, a rainha ainda est em idade de o dar.
- Diz-se que o Sr. de Buckingham est em Frana - adiantou Aramis com um riso velhaco que dava  frase, to simples na aparncia, um significado sofrivelmente escandaloso.
- Aramis, meu amigo, desta vez no tens razo - interrompeu-o Porthos -, e a tua mania de seres espirituoso leva-te sempre para l dos limites. Se o Sr. de Trville 
te ouvisse dava-te uma descasca por falares assim.
- Queres ensinar-me como me devo comportar, Porthos? - perguntou Aramis, em cujo olhar meigo passou como que um relmpago.
- Meu caro, s mosqueteiro ou padre. S um ou outro, mas no um e outro - insistiu Porthos. - Athos ainda h dias te disse que gostas de comer a dois carrilhos. 
Ah, mas no nos zanguemos, peo-te! Seria intil e bem sabes o que se combinou entre ti, Athos e mim. Visitas a Sr.a d'Aiguillon e fazes-lhe a corte; vais a casa 
da Sr.a de Bois-Tracy, a prima da Sr.a de Chevreuse, e passas por estar muito adiantado nas boas graas da dama. Oh, meu Deus, no reveles a tua sorte,

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ningum te pede que contes o teu segredo, toda a gente conhece a tua discrio! Mas j que possuis essa virtude, que diabo, utiliza-a a respeito de Sua Majestade. 
Ocupe-se quem quiser e como quiser do rei e do cardeal; mas a rainha  sagrada, e se se falar dela que seja bem.
- Porthos. s pretensioso como Narciso, previno-te - replicou Aramis. - Sabes que detesto a moral, excepto quando pregada por Athos. Quanto a ti, meu caro, tens 
um boldri demasiado magnfico para seres forte a tal respeito. Serei padre, se me convier; entretanto, sou mosqueteiro, e nesta qualidade digo o que me apetece, 
e neste momento apetece-me dizer-te que me enfadas!
- Aramis! - Porthos!
- Ento, meus senhores, meus senhores! - gritaram  volta deles.
- O Sr. de Trville espera o Sr. d'Artagnan - interrompeu o lacaio, abrindo a porta do gabinete.
Perante este anncio, durante o qual a porta permanecia aberta, todos se calaram, e no meio do silncio geral o jovem gasco atravessou a antecmara em parte do 
seu comprimento e entrou no gabinete do capito dos mosqueteiros, congratulando-se de todo o corao por escapar to a propsito ao fim daquela extravagante discusso.


III- A AUDINCIA


        O Sr. de Trville estava naquele momento de muito mau humor. Apesar disso, cumprimentou delicadamente o jovem, que se inclinou , at ao cho, e sorriu ao 
receber a sua saudao numa pronncia bearnesa que lhe recordou ao mesmo tempo a sua juventude e o seu pas, dupla recordao que faz sorrir o homem em qualquer 
idade. Mas aproximando-se quase imediatamente da antecmara e fazendo a d'Artagnan um sinal com a mo, como que a pedir-lhe licena para acabar com os outros antes 
de comear com ele, chamou trs vezes, engrossando a voz a cada vez, de forma que percorreu todos os tons intercalares entre o acento imperioso e o acento irritado:
- Athos! Porthos! Aramis!
Os dois mosqueteiros com os quais j travmos conhecimento e que tinham os dois ltimos destes trs nomes deixaram imediatamente os grupos de que faziam parte e 
dirigiram-se para o gabinete, cuja porta se voltou a fechar atrs deles assim que transpuseram o limiar. O seu porte, embora no fosse o de quem est absolutamente 
tranquilo, excitou no entanto

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pela sua naturalidade, ao mesmo tempo cheia de dignidade e de submisso, a admirao de d'Artagnan, que via naqueles homens semideuses e no seu chefe um Jpiter 
olmpico armado de todos os seus raios.
Quando os dois mosqueteiros entraram; quando a porta se fechou atrs deles; quando o murmrio de colmeia da antecmara,  qual o chamamento que acabava de ser feito 
dera sem dvida novo alimento, recomeou; quando por fim o Sr. de Trville passeou trs ou quatro vezes, silencioso e de sobrolho franzido, a todo o comprimento 
do seu gabinete, passando todas as vezes diante do Porthos e Aramis, hirtos e mudos como numa parada, e parou de sbito diante deles, nem um nem outro imaginava 
o que os esperava quando lhes perguntou depois de os medir dos ps  cabea com um olhar irritado:
- Sabeis o que me disse o rei ainda ontem  noite? - gritou. - Sabeis, senhores?
- No - responderam aps um instante de silncio os dois mosqueteiros. - No, senhor, ignoramo-lo.
- Mas espero que nos concedais a honra de no-lo dizer - acrescentou Aramis, no seu tom mais delicado e com a mais graciosa reverncia.
- Disse-me que de futuro recrutaria os seus mosqueteiros entre os guardas do Sr. Cardeal!
- Entre os guardas do Sr. Cardeal?... E porqu? - perguntou vivamente Porthos.
- Porque bem via que a sua gua-p necessitava de ser espevitada com uma mistura de bom vinho.
Os dois mosqueteiros coraram at  raiz dos cabelos. D'Artagnan no sabia onde estava e desejaria encontrar-se a cem ps de profundidade.
- Sim, sim - continuou o Sr. de Trville, animando-se. - Sim, e Sua Majestade tinha razo, porque, pela minha honra,  verdade que os mosqueteiros fazem triste figura 
na corte. O Sr. Cardeal contava ontem no jogo com o rei, com um ar compungido que muito me desagradou, que anteontem os malditos mosqueteiros, esses diabos a quatro, 
e carregou nestas palavras com uma ironia que ainda me desagradou mais, esses gabarolas, acrescentou olhando-me com os seus olhos de gato-tigre, se tinham atardado 
na Rua Fron, num botequim, e que uma ronda dos seus guardas (julguei que se me ia rir na cara) se vira obrigada a prender os perturbadores. Com mil demnios, deveis 
saber qualquer coisa a tal respeito! Prender mosqueteiros! reis vs, no vos desculpeis, reconheceram-vos, e o cardeal citou-vos. Mas a culpa  minha, sim, a culpa 
 minha, pois sou eu que escolho os meus homens. Vejamos, vs, Aramis, por que diabo me pedistes a sobreveste quando ficareis to bem dentro da sotaina? E vs, 
Porthos, para que quereis um boldri de ouro? Para pendurar uma espada de palha? E Athos! No vejo Athos. Onde est ele?
- Senhor - respondeu tristemente Aramis -, est doente, muito doente.

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- Doente, muito doente, dizeis vs? E com que doena?
- Receia-se que sejam bexigas, senhor - respondeu Porthos, para meter a sua colherada na conversa -, o que seria aborrecido, pois com toda a certeza lhe deixaria 
marcas na cara.
- Bexigas! Era s o que me faltava ouvir, Porthos!... Doente com bexigas na sua idade?... No! Mas ferido, sem dvida, talvez morto... Ah, se eu soubesse!... Diabos 
me levem, Srs. Mosqueteiros, no compreendo que se frequentem assim lugares de m fama, que se armem zaragatas na rua e que se maneje a espada nas encruzilhadas. 
Enfim, no quero que os homens sejam o escrnio dos guardas do Sr. Cardeal, que so pessoas de bem, sossegadas, sagazes, que nunca se colocam em situao de ser 
presos e que alm disso no se deixariam prender... tenho a certeza! Prefeririam morrer ali mesmo a dar um passo atrs... Porem-se ao fresco, safarem-se, fugirem, 
 bom para os mosqueteiros do rei!
Porthos e Aramis fremiam de raiva. De boa vontade estrangulariam o Sr. de Trville se no fundo de tudo aquilo no sentissem que era o grande amor que lhes tinha 
que o levava a falar assim. Batiam no tapete com o p, mordiam os lbios at sangrarem e apertavam com toda a fora a guarda da espada. L fora ouvira-se chamar, 
como dissemos, por Athos, Porthos e Aramis, e adivinhara-se pelo tom da voz do Sr. de Trville que este estava completamente fora de si. Dez cabeas curiosas estavam 
encostadas  parede e empalideciam de furor porque os seus ouvidos colados  porta no perdiam uma slaba do que se dizia, enquanto as suas bocas repetiam,  medida 
que eram proferidas, as palavras insultuosas do capito, que atingiam toda a gente que se encontrava na antecmara. Num instante, da porta do gabinete  porta da 
rua, todo o palcio ficou em ebulio.
- Ah, os mosqueteiros do rei deixam-se prender pelos guardas do Sr. Cardeal! - continuava o Sr. de Trville, intimamente to furioso como os seus soldados, mas brandindo 
as suas palavras e cravando-as uma a uma por assim dizer como outros tantos golpes de estilete no peito dos seus ouvintes. - Ah, seis guardas de Sua Eminncia prendem 
seis mosqueteiros de Sua Majestade! Com a breca, tomei o meu partido! Vou imediatamente ao Louvre, apresento a minha demisso de capito dos mosqueteiros do rei 
e peo uma tenncia nas guardas do cardeal, e se ma recusarem, irra!, vou para padre!
Quando soaram estas palavras o murmrio do exterior transformou-se em exploso. Por toda a parte s se ouviam pragas e blasfmias. Os irra!, os com a breca!, os 
diabos me levem!, cruzavam-se no ar. D'Ar-tagnan procurava um canto onde se esconder e sentia uma vontade incontvel de se meter debaixo da secretria.
- Bom, meu capito - disse Porthos fora de si -, a verdade  que ramos seis contra seis, mas fomos apanhados  traio e antes de termos tempo de desembainhar as 
espadas dois de ns foram mortos e Athos, ferido gravemente, no estava em muito melhores condies.

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Conheceis Athos... Pois, capito, tentou levantar-se duas vezes e outras tantas voltou a cair. Contudo, no nos rendemos, no! Levaram-nos  fora. Mas no caminho 
fugimos. Quanto a Athos, julgaram-no morto e deixaram-no muito tranquilo no campo de batalha, pensando que no valia a pena lev-lo. Foi assim que as coisas se passaram. 
Que diabo, capito, no se podem ganhar todas as batalhas! O grande Pompeu perdeu a de FarsUa, e o rei Francisco I, que segundo tenho ouvido dizer valia bem qualquer 
outro, tambm perdeu a de Pavia.
- E tenho a honra de vos afirmar que matei um com a sua prpria espada, porque a minha se partiu  primeira parada... - disse Aramis. - Matei ou apunhalei, senhor, 
como vos agradar.
- No sabia isso - declarou o Sr. de Trville em tom um pouco mais ameno. - O Sr. Cardeal exagerou, pelo que vejo.
- Mas por favor, senhor - continuou Aramis, que vendo o seu capito acalmar ousava arriscar um pedido -, por favor, senhor, no digais que Athos foi ferido. Ficaria 
desesperado se isso chegasse aos ouvidos do rei, e como o ferimento  dos mais graves, atendendo a que depois de atravessar o ombro a espada penetrou no peito, e 
 de temer...
Ao mesmo tempo, o reposteiro ergueu-se e uma cabea nobre e bela, mas horrivelmente plida, apareceu debaixo da franja.
- Athos! - gritaram os dois mosqueteiros.
- Athos! - repetiu o prprio Sr. de Trville.
- Perguntastes por mim, senhor - disse Athos ao Sr. de Trville, em voz fraca mas perfeitamente calma -, perguntastes por mim, segundo me disseram os nossos camaradas, 
e apresso-me a pr-me s vossas ordens. Aqui estou, senhor. Que me quereis?
E ditas estas palavras o mosqueteiro, impecavelmente fardado como de costume, entrou com passo firme no gabinete do Sr. de Trville, que profundamente comovido com 
semelhante prova de coragem se precipitou para ele.
- Estava a dizer a estes senhores - acrescentou - que probo os meus mosqueteiros de exporem a vida sem necessidade, porque os valentes so muito preciosos para 
o rei, e o rei sabe que os seus mosqueteiros so os homens mais valentes do mundo. A vossa mo, Athos.
E sem esperar que o recm-chegado correspondesse a esta prova de afeio o Sr. de Trville pegou-lhe na mo direita e apertou-lha com toda a fora, sem notar que 
Athos, apesar do domnio que tinha sobre si mesmo, deixava escapar um gemido de dor e empalidecia ainda mais, o que se julgaria impossvel.
A porta ficara entreaberta desde a chegada de Athos, de modo que, apesar do segredo guardado, o ferimento j era conhecido de todos e causara sensao. Um murmrio 
de satisfao acolheu as ltimas palavras do capito e duas ou trs cabeas, levadas pelo entusiasmo, apareceram na abertura do reposteiro. O Sr. de Trville ia 
sem dvida reprimir com palavras vivas semelhante infraco s leis da etiqueta quando sentiu de sbito a mo de Athos crispar-se na sua e, olhando para ele,

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adivinhou que ia desmaiar. De facto, Athos reunira todas as suas foras para lutar contra a dor, mas vencido finalmente por ela caiu no parque como morto.
- Um cirurgio! - gritou o Sr. de Trville. - O meu, o do rei, o melhor! Um cirurgio! Ou, com a breca, o meu bravo Athos vai morrer!
Aos gritos do Sr. de Trville toda a gente se precipitou no seu gabinete, sem que ele pensasse em fechar a porta a ningum, e todos se comprimiram  volta do ferido. 
Mas toda essa solicitude teria sido intil se o mdico pedido no se encontrasse no prprio palcio. Assim, logo que chegou furou atravs da multido e aproximou-se 
de Athos, que continuava sem sentidos, e como todo aquele barulho e toda aquela agitao o incomodavam sobremaneira exigiu antes de mais nada, como a coisa mais 
urgente, que o mosqueteiro fosse levado para um quarto prximo. O Sr. de Trville abriu imediatamente uma porta e indicou o caminho a Porthos e Aramis, que transportaram 
o seu camarada nos braos. Atrs deles seguia o cirurgio, e atrs do cirurgio a porta fechou-se.
Ento o gabinete do Sr. de Trville, esse local habitualmente to respeitado, transformou-se por momentos em sucursal da antecmara. Todos discursavam, peroravam, 
falavam alto, praguejavam, blasfemavam, davam o cardeal e os seus guardas a todos os diabos.
Pouco depois, Porthos e Aramis regressaram; o cirurgio e o Sr. de Trville eram os nicos que tinham ficado junto do ferido.
Por fim, o Sr. de Trville tambm regressou. O ferido recuperara os sentidos; o cirurgio declarava que o estado do mosqueteiro no tinha nada que pudesse preocupar 
os seus amigos e que a sua fraqueza se devia pura e simplesmente  perda de sangue.
Depois o Sr. de Trville fez um sinal com a mo e todos se retiraram, excepto d'Artagnan, que se no esquecera que tinha audincia e que, com a sua tenacidade de 
gasco, permanecera no mesmo stio.
Quando toda a gente saiu e a porta se fechou o Sr. de Trville virou-se e encontrou-se sozinho com o jovem. O que acabara de acontecer fizera-lhe perder um pouco 
o fio s ideias. Perguntou o que queria o obstinado solicitante. D'Artagnan apresentou-se e o Sr. de Trville, acudindo-lhe de sbito  memria todas as suas recordaes 
do presente e do passado, depressa se encontrou ao corrente da situao.
- Perdo - disse sorrindo -, perdo, meu caro compatriota, mas tinha-me esquecido completamente de vs. Que quereis, um capito no  mais do que um pai de famlia 
carregado de maior responsabilidade do que um pai de famlia vulgar. Os soldados so crianas grandes; mas como tenho de velar para que as ordens do rei, e sobretudo 
as do Sr. Cardeal, sejam cumpridas...
D'Artagnan no pde dissimular um sorriso.

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Perante esse sorriso o Sr. de Trville julgou no estar na presena de um estpido, mudou de conversa e foi direito ao assunto:
- Sou muito amigo do senhor vosso pai - disse. - Que posso fazer pelo filho? Despachai-vos que o meu tempo no me pertence.
- Senhor - disse d'Artagnan -, ao deixar Tarbes e vir aqui tencionava pedir-vos, como prova dessa amizade de que no haveis perdido a memria, uma farda de mosqueteiro; 
mas depois de tudo o que vi nas ltimas duas horas compreendo que semelhante merc seria enorme e receio no a merecer.
- Trata-se efectivamente de uma merc, meu rapaz - respondeu o Sr. de Trville -, mas que no pode estar to acima de vs como credes ou pareceis crer. No entanto, 
uma deciso de Sua Majestade previu esse caso e anuncio-vos com pesar que ningum  recebido como mosqueteiro antes de passar previamente pela prova de algumas campanhas, 
de certas aces brilhantes ou de dois anos de servio em qualquer outro regimento menos favorecido do que o nosso.
D'Artagnan inclinou-se sem responder. Sentia-se ainda mais ansioso por envergar o uniforme de mosqueteiro desde que era to difcil obt-lo.
- Mas - continuou Trville, cravando no seu compatriota um olhar to penetrante que dir-se-ia querer ler-lhe at ao fundo do corao -, mas, atendendo ao vosso pai, 
meu antigo companheiro, como j vos disse, quero fazer qualquer coisa por vs, meu rapaz. No Barn os filhos mais novos no so habitualmente ricos, e duvido que 
as coisas tenham mudado muito desde a minha partida da provncia. No deveis portanto ter para viver mais do que o dinheiro que trouxestes convosco.
D'Artagnan endireitou-se com um ar orgulhoso que queria dizer que no pedia esmola a ningum.
- Pronto, rapaz, pronto! - continuou Trville. - Conheo bem esses ares... Cheguei a Paris com quatro escudos na algibeira e bater-me-ia com quem quer que me dissesse 
que me no encontrava em condies de comprar o Louvre.
D'Artagnan empertigou-se ainda mais; graas  venda do cavalo, comeava a sua carreira com mais quatro escudos do que o Sr. de Trville comeara a dele.
- Deveis portanto, dizia eu, necessitar de conservar o que tendes, por maior que seja essa quantia; mas tambm deveis necessitar de vos aperfeioar nos exerccios 
que convm a um gentil-homem. Escreverei hoje uma carta ao director da Academia Real, que a partir de amanh vos receber sem qualquer retribuio. No escuseis 
este pequeno obsquio. Os nossos gentis-homens, os melhor nascidos e os mais ricos, solicitam-no s vezes e no o conseguem obter... Aprendereis o manejo do cavalo, 
a esgrima e a dana; travareis l bons conhecimentos e de vez em quando vireis visitar-me para me dizerdes como estais e se posso fazer alguma coisa por vs.

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Por muito que lhe fossem ainda alheias as maneiras da corte, d'Ar tagnan no deixou de notar a frieza com que era recebido.
- Infelizmente, senhor - disse -, s agora vejo quanta falta me faz hoje a carta de recomendao que meu pai me deu para vs.
- Com efeito - respondeu o Sr. de Trville -, admira-me que tenhais empreendido to longa viagem sem esse vitico obrigatrio, nico recurso de que ns, bearneses, 
podemos deitar mo.
- Tinha-o, senhor, e graas a Deus em boa forma, mas roubaram-mo perfidamente! - exclamou d'Artagnan.
E contou toda a cena de Meung, sem deixar de descrever o gentil-homem desconhecido nos seus mais pequenos pormenores, tudo com um calor e uma sinceridade que encantaram 
o Sr. de Trville.
-  estranho... - disse este ltimo, pensativo. - Tnheis portanto falado de mim em voz alta?
- Sim, senhor, no h dvida que cometi essa imprudncia. Mas que quereis, um nome como o vosso devia servir-me de escudo na viagem; desculpai se me coloquei demasiadas 
vezes a coberto dele...
A lisonja estava muito em moda ento e o Sr. de Trville gostava tanto de incenso como um rei ou um cardeal. No pde portanto impedir-se de sorrir com visvel satisfao, 
mas o sorriso depressa se apagou e ele prprio voltou  aventura de Meung.
- Dizei-me, esse gentil-homem no tinha uma leve cicatriz na tmpora? - perguntou.
- Tinha, assim como se tivesse sido feita por uma bala de raspo.
- No era um homem de boa presena? -Era.
- Alto? -Sim.
- Branco de pele e de cabelo escuro?
- Sim, sim, exactamente. Como  possvel, senhor, que conheais esse homem? Ah, se o volto a encontrar, e hei-de encontr-lo, juro-vos que nem que seja no Inferno...
- Esperava uma mulher? - continuou Trville.
- E partiu depois de conversar um instante com ela.
- No sabeis qual foi o tema da conversa?
- Ele entregou-lhe uma caixa, disse-lhe que essa caixa continha as suas instrues e recomendou-lhe que s a abrisse em Londres.
- Essa mulher era inglesa?
- Ele tratava-a por Milady.
-  ele! - murmurou Trville. -  ele! E eu que o julgava ainda em Bruxelas!
- Senhor, se sabeis quem  esse homem!... - exclamou d'Artagnan. - Indicai-me quem  e onde est, e desobrigar-vos-ei de tudo, mesmo da vossa promessa de me fazerdes 
entrar para os mosqueteiros; porque mais do que qualquer outra coisa quero vingar-me!
- Guardai-vos bem disso, rapaz! - atalhou Trville. - Pelo contrrio, se o virdes aproximar-se por um lado da rua passai para o outro!

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No esbarreis com semelhante rochedo: quebrar-vos-ia como se fsseis de vidro.
- Isso no impede que se alguma vez o encontrar!... - redarguiu d'Artagnan.
- Entretanto, no o procureis,  o conselho que vos dou - insistiu o Sr. de Trville.
De sbito, Trville deteve-se, assaltado por uma desconfiana sbita. Aquele grande dio que manifestava to desassombradamente o jovem viajante pelo homem que - 
coisa muito pouco verosmil - lhe roubara a carta do pai, esse dio no esconderia alguma perfdia? Aquele rapaz no seria enviado por Sua Eminncia? No viria armar-lhe 
uma cilada? Aquele pretenso d'Artagnan no seria um emissrio do cardeal que procurasse introduzir-se em sua casa, para, uma vez colocado junto dele, surpreender 
a sua confiana e perd-lo mais tarde, como j acontecera milhares de vezes? Olhou d'Artagnan ainda mais fixamente desta segunda vez do que da primeira e ficou mediocremente 
tranquilizado com o aspecto daquela fisionomia cintilante de esprito astucioso e de humildade afectada.
"Tenho a certeza de que  gasco", pensou, "mas tanto pode s-lo para o cardeal como para mim. Experimentemo-lo..."
- Meu amigo - disse lentamente -, desejo, tendo em conta serdes filho do meu velho amigo, pois considero verdadeira a histria dessa carta perdida, desejo, repito, 
para vos compensar da frieza que de incio notastes no meu acolhimento, revelar-vos os segredos da nossa poltica. O rei e o cardeal so os melhores amigos; os seus 
aparentes desaguisados destinam-se apenas a enganar os tolos. No quero que um compatriota, um belo cavaleiro, um bravo rapaz, nascido para triunfar, caia nesse 
logro e se deixe ir no bote como um lorpa, a exemplo de tantos outros que tm cado nessa esparrela. Tende sempre presente que sou dedicado a esses dois amos todo-poderosos 
e que nunca os meus actos tero outro objectivo que no seja o servio do rei e do Sr. Cardeal, um dos mais ilustres gnios que a Frana produziu. Agora, rapaz, 
tomai a vossa deciso, e se tendes, seja por motivos de famlia, seja por motivos de amizade, seja at por instinto, alguma dessas inimizades contra o cardeal que 
vemos surgirem entre os gentis-homens, despedi-vos de mim e separemo-nos. Ajudar-vos-ei em todas as circunstncias, mas sem vos ligar  minha pessoa. De qualquer 
modo, espero que a minha franqueza vos faa meu amigo, pois sois at agora o nico jovem a quem falei como acabo de vos falar.
Entretanto, Trville dizia para consigo:
"Se o cardeal me mandou esta jovem raposa, decerto no se esqueceu - pois sabe at que ponto o detesto - de dizer ao seu espio que a melhor maneira de me fazer 
a corte era dizer-me o pior possvel dele; por isso, apesar dos meus protestos, o astuto compadre vai-me responder certamente que abomina Sua Eminncia."
Aconteceu precisamente o contrrio do que Trville esperava; d'Artagnan respondeu com a maior simplicidade:

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- Senhor, chego a Paris com intenes muito semelhantes. Meu pai recomendou-me que no sofresse nada a no ser do rei, do Sr. Cardeal e de vs, que considera as 
trs primeiras personalidades de Frana.
D'Artagnan juntava o Sr. de Trville aos outros dois, como se verifica, mas pensava que essa juno no teria qualquer inconveniente.
- Tenho a maior venerao pelo Sr. Cardeal - continuou - e o mais profundo respeito pelos seus actos. Tanto melhor para mim, senhor, se me falais, como dizeis, com 
franqueza; porque ento dar-me-eis a honra de considerar tal semelhana agradvel; mas se tivsseis tido alguma desconfiana (alis muito natural), creio que me 
perderia dizendo a verdade. Tanto pior, se assim acontecesse. No entanto, espero que apesar de tudo no deixeis de me estimar, visto ser o que mais desejo no mundo.
O Sr. de Trville ficou surpreendidssimo. Tanta perspiccia, tanta franqueza enfim, causa-lhe admirao, mas no afastava inteiramente as suas dvidas: quanto mais 
o jovem se revelava superior aos outros jovens, tanto mais temia enganar-se. Contudo, apertou a mo a d'Artagnan e disse-lhe:
- Sois um rapaz honesto, mas neste momento s posso fazer o que vos ofereci h pouco. O meu palcio estar-vos- sempre aberto. Mais tarde, quando puderdes procurar-me 
a qualquer hora e por consequncia aproveitar todas as oportunidades, obtereis provavelmente o que desejardes obter.
- Quereis dizer, senhor, que esperais que me torne digno disso - redarguiu d'Artagnan. - Pois bem, ficai descansado que no esperareis muito tempo - acrescentou 
com a familiaridade do gasco.
E cumprimentou para se retirar, como se de futuro o resto fosse consigo.
- Esperai - atalhou o Sr. de Trville, detendo-o. - Prometi-vos uma carta para o director da Academia. Sois demasiado orgulhoso para a aceitar, meu jovem gentil-homem?
- No, senhor - respondeu d'Artagnan. - E garanto-vos que com essa no acontecer o mesmo que aconteceu com a outra. Guard-la-ei to bem que chegar, juro-vo-lo, 
ao seu destino, e ai daquele que tentasse roubar-ma!
O Sr. de Trville sorriu da fanfarronice e, deixando o seu jovem compatriota no vo da janela, onde se encontravam e tinham conversado, foi sentar-se a uma mesa 
e comeou a escrever a carta de recomendao prometida. Entretanto, d'Artagnan, que no tinha nada melhor que fazer, ps-se a tamborilar uma marcha nas vidraas, 
olhando os mosqueteiros, que se retiravam um aps outro, e seguindo-os com a vista at desaparecerem  esquina da rua.
Depois de escrever a carta, o Sr. de Trville lacrou-a, levantou-se e aproximou-se do jovem para lha dar; mas no preciso momento em que d'Artagnan estendia a mo 
para a receber, o Sr. de Trville ficou muito surpreendido ao ver o seu protegido sobressaltar-se, corar de clera e correr para fora do gabinete gritando:
- Ah, maldito, desta vez no me escapars!

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- Quem? - perguntou o Sr. de Trville.
- O meu ladro! - respondeu d'Artagnan. - Ah, traidor! E desapareceu.
- Diabo de louco! - murmurou o Sr. de Trville. - A no ser - acrescentou - que seja uma maneira hbil de se esgueirar ao ver que falhou o golpe...


        IV - O OMBRO DE ATHOS, O BOLDRI DE PORTHOS
               E O LENO DE ARAMIS


        D'Artagnan, furioso, atravessara a antecmara em trs saltos e corria para a escada, cujos degraus contava descer quatro a quatro, quando, impelido pela 
corrida, foi chocar de cabea baixa com um mosqueteiro que saa do gabinete do Sr. de Trville por uma porta de servio, mosqueteiro a quem fez soltar um grito, 
ou antes um berro, ao bater-lhe com a testa no ombro.
- Desculpai-me - disse d'Artagnan, tentando retomar a corrida -, desculpai-me que estou com pressa.
Mal descera, porm, o primeiro degrau quando um punho de ferro o agarrou pelo cinto e o deteve.
- Estais com pressa! - gritou o mosqueteiro, plido como uma mortalha. - E sob esse pretexto dais-me um encontro e dizeis: "Desculpai-me", e julgais que isso basta? 
De modo nenhum, meu rapaz. Imaginais, s porque ouvistes o Sr. de Trville falar-nos um pouco bruscamente hoje, que qualquer nos pode tratar como ele nos fala? Desenganai-vos, 
camarada, no sois o Sr. de Trville.
- Palavra - replicou d'Artagnan, que conheceu Athos, o qual, depois do penso feito pelo mdico, voltava para sua casa -, palavra que no fiz de propsito e pedi 
desculpa. Parece-me portanto que basta. Repito-vos, porm, e desta vez talvez j seja demasiado, palavra de honra, que estou com pressa, com muita pressa. Largai-me 
pois, suplico-vos, e deixai-me ir aonde tenho de ir.
- Senhor - disse Athos, largando-o -, no sois delicado. V-se bem que vindes de longe.
D'Artagnan descera j trs ou quatro degraus, mas a observao de Athos deteve-o bruscamente.
- Com a breca, senhor, por muito de longe que venha no sereis vs que me dareis uma lio de belas maneiras, previno-vos! - redarguiu.
- Talvez - contraps Athos.
- Ah, se no estivesse com pressa!... - gritou d'Artagnan. - Se no corresse atrs de algum...
- Senhor homem apressado, encontrar-me-eis sem correr, ouvistes?

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- E onde, por favor?
- Perto dos Carmelitas Descalos.
- A que horas?
- Por volta do meio-dia.
- Por volta do meio-dia l estarei.
- Procurai no me fazerdes esperar, porque, desde j vos previno, ao meio-dia e um quarto serei eu que correrei atrs de vs e vos cortarei as orelhas na corrida.
- Estarei l ao meio-dia menos dez minutos! - gritou d'Artagnan. E desatou a correr como se o levasse o Diabo, esperando encontrar
ainda o seu desconhecido, que no seu passo tranquilo no devia ir longe.
Mas  porta da rua, Porthos conversava com um soldado da guarda. Entre os dois interlocutores havia  justa o espao de um homem. D'Artagnan julgou que esse espao 
lhe bastaria e correu para passar como uma flecha entre os dois. Mas d'Artagnan no contara com o vento. Quando ia a passar, o vento enfunou a comprida capa de Porthos 
e d'Artagnan foi esbarrar direitinho com a capa. Porthos tinha sem dvida razes para no largar aquela parte essencial do seu trajo, pois em vez de deixar o pano 
adejar, puxou-o para si, de modo que d'Artagnan enrolou-se no veludo devido a um movimento de rotao provocado pela resistncia do obstinado Porthos.
Ao ouvir praguejar o mosqueteiro, d'Artagnan quis sair debaixo da capa, que o cegava, e procurou abrir caminho atravs das pregas. Receava sobretudo estragar a magnificncia 
do boldri que j conhecemos; mas ao abrir timidamente os olhos encontrou-se com o nariz colado entre os ombros de Porthos, isto , precisamente em cima do boldri.
Infelizmente, como a maior parte das coisas deste mundo que no passam de aparncia, o boldri era de ouro pela frente e de simples pele de bfalo por detrs. Porthos, 
como bom presunoso que era, no podendo ter um boldri todo de ouro, tinha ao menos um com metade; da a necessidade da constipao e a urgncia da capa.
- Irra! - gritou Porthos, fazendo todos os esforos para se desembaraar de d'Artagnan, que se lhe agitava nas costas. - Perdestes o juzo para vos lanardes assim 
sobre as pessoas?
- Desculpai-me - pediu d'Artagnan, reaparecendo debaixo do ombro do gigante -, mas estou com muita pressa, corro atrs de algum e...
- Acaso vos esqueceis dos olhos quando correis? - perguntou Porthos.
- No - respondeu d'Artagnan, irritado -, no, e graas aos meus olhos vejo at o que no vem os outros.
Tivesse ou no tivesse compreendido, o caso  que Porthos se deixou arrebatar pela clera.
- Senhor - disse -, previno-vos de que ainda vos fareis esfolar se desafiais assim os mosqueteiros.
- Esfolar, senhor? - redarguiu d'Artagnan. - A palavra  dura.

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-  a que convm a um homem habituado a olhar de frente os seus inimigos.
- Oh, claro, sei perfeitamente que no virais as costas aos vossos!... E o jovem, encantado com a sua sada, afastou-se rindo a bandeiras
despregadas.
Porthos espumou de raiva e esboou o gesto de se precipitar, sobre d'Artagnan.
- Mais tarde, mais tarde - gritou-lhe este -, quando no tiverdes a vossa capa!
-  uma hora, atrs do Luxemburgo.
- Muito bem,  uma hora - respondeu d'Artagnan antes de dobrar a esquina.
Mas nem na rua que acabava de percorrer, nem naquela que abarcava agora com a vista descobriu ningum. Por mais devagar que tivesse caminhado o desconhecido, distanciara-se; 
ou talvez tivesse entrado nalguma casa. D'Artagnan perguntou por ele a todas as pessoas que encontrou, desceu at  barca e voltou a subir pela Rua de Seine e da 
Croix-Rouge, mas nada, absolutamente nada. No entanto, a corrida foi-lhe proveitosa, pois  medida que o suor lhe inundava a testa o corao arrefecia-lhe.
Ps-se ento a reflectir sobre os acontecimentos que acabavam de se verificar; eram numerosos e nefastos: ainda no passava das 11 horas e j a manh lhe trouxera 
o desagrado do Sr. de Trville, que no podia deixar de encontrar um pouco incorrecta a forma como d'Artagnan o deixara.
Alm disso, arranjara dois bons duelos com dois homens capazes de matar cada um trs d'Artagnans, com dois mosqueteiros enfim, isto , com dois desses seres que 
estimava tanto que os colocava, no seu pensamento e no seu corao, acima de todos os outros homens.
A conjectura era triste. Certo de ser morto por Athos, compreende-se que o jovem no se preocupasse muito com Porthos. No entanto, como a esperana  a ltima coisa 
que se extingue no corao do homem, chegou  concluso de que poderia escapar, com ferimentos terrveis evidentemente, dos dois duelos e, para o caso de sobreviver, 
dirigiu a si prprio, com vista ao futuro, as seguintes reprimendas:
"Sempre sa um bom desmiolado e um grande alarve! Aquele bravo e infeliz Athos estava ferido precisamente no ombro contra o qual fui chocar de cabea, como um carneiro. 
A nica coisa que me espanta  que no me tenha matado logo. Tinha esse direito, pois a dor que lhe causei deve ter sido atroz. Quanto a Porthos... oh, quanto a 
Porthos a coisa  mais divertida!"
E mal-grado seu o jovem desatou a rir, embora observando se aquele riso isolado e sem motivo aos olhos dos que o viam rir, no iria ofender algum transeunte.
"Quanto a Porthos a coisa  mais divertida; mas nem por isso sou menos um miservel estouvado. Lano-me assim sobre as pessoas sem dizer gua vai! No est certo... 
E ainda por cima meto o nariz debaixo da capa para ver o que l no est!

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Ter-me-ia perdoado, decerto; ter-me-ia perdoado se lhe no fosse falar do maldito boldri por meias palavras... Sim, e muito bem escolhidas! Ah, maldito gasco, 
quem te pusesse a fritar numa frigideira cada vez que armas em espirituoso! D'Ar-tagnan, meu amigo", continuou, dirigindo-se a si mesmo com toda a amenidade que 
julgava dever-se, "se escapares desta, o que no  provvel, de futuro ters de ser de uma delicadeza perfeita. De futuro,  preciso que te admirem, que te citem 
como modelo. Ser amvel e corts no  ser cobarde. Pe os olhos em Aramis: Aramis  a brandura, a graa em pessoa. Contudo, nunca ningum se lembrou de dizer que 
Aramis era um cobarde. No, evidentemente, e de futuro quero tom-lo por modelo. Olha, a est ele!"
Enquanto caminhava e monologava, d'Artagnan chegara a poucos passos do Palcio de Aiguillon, diante do qual vira Aramis a conversar alegremente com trs gentis-homens 
das guardas reais. Pelo seu lado, Aramis tambm viu d'Artagnan; mas como no esquecera que fora diante do jovem que o Sr. de Trville se excedera tanto naquela manh, 
e uma testemunha das censuras que os mosqueteiros tinham recebido no lhe era de modo algum agradvel, fingiu no o ver. D'Artagnan  que pelo contrrio, todo entregue 
aos seus planos de conciliao e cortesia, se aproximou dos quatro jovens, a quem fez um grande cumprimento acompanhado do mais gracioso sorriso. Aramis inclinou 
levemente a cabea, mas no sorriu. De resto, todos quatro interromperam imediatamente a conversa.
D'Artagnan no era to tolo que no notasse que estava a mais; mas ainda se no encontrava suficientemente familiarizado com as maneiras da alta sociedade para sair 
galantemente de uma situao falsa como , em geral, a de um homem que se junta a pessoas que mal conhece e se intromete numa conversa que no lhe diz respeito. 
Procurava portanto maneira de bater em retirada o menos canhestramente possvel quando notou que Aramis deixara cair o leno e, inadvertidamente sem dvida, lhe 
pusera o p em cima. Pareceu-lhe chegado o momento de reparar a sua inconvenincia: baixou-se e, com o ar mais gracioso que conseguiu arranjar, tirou o leno debaixo 
do p do mosqueteiro, apesar dos esforos que este fez para o reter, e disse-lhe entregando-lho:
- Creio, senhor, que no gostareis de perder este leno.
O leno era, com efeito, ricamente bordado e tinha uma coroa e armas numa das pontas. Aramis corou muito e mais arrancou do que pegou no leno das mos do gasco.
- Ah, ah!... - exclamou um dos guardas. - Ainda sers capaz de dizer, discreto Aramis, que ests zangado com a Sr.a de Bois-Tracy, quando essa graciosa dama tem 
a amabilidade de te emprestar os seus lenos?
Aramis lanou a d'Artagnan um desses olhares que fazem compreender a um homem que acaba de arranjar um inimigo mortal; depois, retomando o seu ar melfluo:

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- Enganais-vos, senhores, este leno no  meu e no sei por que motivo este senhor teve a extravagncia de mo entregar em vez de a um de vs, e a prova do que digo 
 que est aqui o meu, na minha algibeira.
Ditas estas palavras, tirou o seu prprio leno, leno muito elegante tambm, e de fina cambraia de linho, embora a cambraia fosse cara naquela poca, mas leno 
sem bordados, sem armas e adornado com uma nica inicial, a do seu proprietrio.
Desta vez, d'Artagnan ficou mudo e quedo; reconhecera a sua falta. Mas os amigos de Aramis  que no se deixaram convencer com as suas negativas e um deles dirigiu-se 
ao jovem mosqueteiro com afectada seriedade e disse-lhe:
- Se fosse como pretendes, seria obrigado, meu caro Aramis, a pedir-to; porque, como sabes, Bois-Tracy  um dos meus amigos ntimos e no quero que faam trofu 
dos pertences de sua mulher.
- Pedes isso mal - respondeu Aramis. - Embora reconhecendo a justeza da tua reclamao quanto ao fundo, recusaria por causa da forma.
- A verdade - arriscou timidamente d'Artagnan -  que no vi sair o leno da algibeira do Sr. Aramis. Tinha apenas o p em cima, mais nada, e pensei que, visto ter 
o p em cima dele, o leno era seu.
- Mas enganou-se, meu caro senhor - redarguiu friamente Aramis, pouco sensvel  reparao.
Depois, virando-se para o guarda que se declarara amigo de Bois-Tracy, continuou:
- Alis, reflecti, meu caro ntimo de Bois-Tracy, que sou seu amigo no menos dedicado do que tu prprio; de modo que, bem vistas as coisas, o leno tanto pode ter 
cado da tua algibeira como da minha.
- No, pela minha honra! - gritou o guarda de Sua Majestade.
- Juras pela tua honra e eu pela minha palavra, o que significa, evidentemente, que um de ns dois falta  verdade. Olha, faamos melhor, Montaran, fiquemos cada 
um com metade.
- Do leno? -Sim.
- Perfeitamente! - exclamaram os outros dois guardas. - O julgamento do rei Salomo. Decididamente, Aramis, s um homem cheio de sabedoria.
Os jovens desataram a rir e, como se calcula, o caso no teve outras consequncias. Pouco depois a conversa terminou e os trs guardas e o mosqueteiro, depois de 
apertarem cordialmente as mos, separaram-se, os guardas para um lado e Aramis para outro.
"Chegou o momento de fazer as pazes com aquele galante homem", disse para consigo d'Artagnan, que se mantivera um pouco afastado durante toda a ltima parte da conversa.
E, pondo em prtica a sua resoluo, aproximou-se de Aramis, que se afastava sem lhe prestar ateno.
- Senhor - disse-lhe -, espero que me desculpeis.
- Ah, senhor - interrompeu-o Aramis -, permiti-me que vos observe que no agistes de modo algum neste caso como um homem galante deveria agir!

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- Que dizeis, senhor? - exclamou d'Artagnan. - Supondes...
- Suponho, senhor, que no sois tolo, e que sabeis perfeitamente, apesar de recm-chegado da Gasconha, que no se pem os ps sem motivo em cima dos lenos de algibeira. 
Que diabo, Paris no  calcetado de cambraia!
- Senhor, fazeis mal em procurar humilhar-me - disse d'Artagnan, em quem o natural assomadio comeava a falar mais alto do que as resolues pacficas. - Sou da 
Gasconha,  verdade, e uma vez que o sabeis no necessito de vos dizer que os Gasces so pouco pacientes; de modo que quando se desculpam uma vez, mesmo de uma 
tolice, esto convencidos de que j fizeram mais de metade do que deviam fazer.
- Senhor, o que vos digo - respondeu Aramis - no  de maneira nenhuma para questionar convosco. Valha-me Deus, no sou um espadachim, e sendo mosqueteiro apenas 
provisoriamente s me bato quando a tal sou obrigado, e sempre com grande repugnncia; mas desta vez o caso  grave, pois comprometestes uma dama.
- Comprometemos, deveis dizer! - gritou d'Artagnan.
- Por que tivestes a infeliz ideia de me dar o leno?
- Por que tivestes vs a de o deixar cair?
- J disse e repito, senhor, que o leno no caiu da minha algibeira.
- Nesse caso, mentistes duas vezes, senhor, porque eu vi-o cair da vossa algibeira!
- Ah, quereis levar as coisas para esse lado, Sr. Gasco?... Pois eu vos ensinarei a viver!
- E eu mando-vos dizer missa, Sr. Abade! Desembainhai, por favor, e imediatamente.
- No, por favor, meu bom amigo; no aqui, pelo menos. No vedes que estamos defronte do Palcio de Aiguillon, que se encontra cheio de criaturas do cardeal? Quem 
me diz que no foi Sua Eminncia quem vos encarregou de lhe fornecer a minha cabea? Ora, prezo ridiculamente a minha cabea, atendendo a que me parece ficar bastante 
bem em cima dos meus ombros. Quero portanto matar-vos, estai tranquilo, mas matar-vos suavemente, num stio fechado e protegido, onde no possais gabar-vos da vossa 
morte a ningum.
- De acordo. Mas no vos fieis nisso e levai o vosso leno, quer vos pertena, quer no; talvez tenhais oportunidade de vos servir dele.
- O senhor  gasco? - perguntou Aramis.
- Sou. O senhor no estar a adiar o encontro por prudncia?
- A prudncia, senhor,  virtude deveras intil aos mosqueteiros, bem sei, mas indispensvel aos membros da Igreja, e como sou mosqueteiro apenas provisoriamente, 
procuro manter-me prudente. s duas horas terei a honra de vos esperar no palcio do Sr. de Trville. L vos indicarei os bons stios.

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Os dois jovens saudaram-se e depois Aramis afastou-se pela rua que levava ao Luxemburgo, enquanto d'Artagnan, vendo que a hora ia adiantada, tomava o caminho dos 
Carmelitas Descalos dizendo para consigo: "Decididamente, no posso voltar atrs; mas ao menos, se for morto, serei morto por um mosqueteiro."


        V - OS MOSQUETEIROS DO REI E OS GUARDAS DO SR. CARDEAL


        D'Artagnan no conhecia ningum em Paris. Foi portanto ao encontro com Athos sem levar testemunhas, resolvido a contentar-se com as que o seu adversrio 
tivesse escolhido. Alis, era sua inteno formal apresentar ao bravo mosqueteiro todas as desculpas convenientes, mas sem fraqueza, pois temia que resultasse do 
duelo o que sempre resulta de aborrecido num caso do gnero, quando um homem jovem e vigoroso se bate com um adversrio ferido e enfraquecido: vencido, duplica o 
triunfo do seu antagonista; vencedor,  acusado de deslealdade e de audcia fcil.
Alis, ou expusemos mal o carcter do nosso amigo de aventuras ou o nosso leitor j notou que d'Artagnan no era de modo algum um homem vulgar. Por isso, embora 
repetindo para consigo que a sua morte era inevitvel, no se resignava a morrer serenamente, como outro menos corajoso e moderado do que ele faria no seu lugar. 
Reflectiu nos diferentes caracteres daqueles com quem se ia bater e comeou a ver mais claro na sua situao. Esperava, graas s desculpas leais que lhe reservava, 
fazer um amigo de Athos, cujo ar de grande senhor e expresso austera muito lhe agradavam. Deleitava-o meter medo a Porthos com a aventura do boldri, que podia, 
se no fosse imediatamente morto, contar a toda a gente, e se soubesse tirar habilmente partido da histria cobriria Porthos de ridculo; finalmente, quanto ao melfluo 
Aramis, no lhe metia muito medo, e supondo que chegasse at ele encarregar-se-ia de o despachar realmente, ou pelo menos de o ferir na cara, como Csar recomendara 
que se fizesse aos soldados de Pompeu, de modo a ficar para sempre arruinada a beleza de que tanto se orgulhava.
Depois, d'Artagnan possua esse fundo inabalvel de resoluo que tinham depositado no seu corao os conselhos do pai, conselhos cuja substncia era: "No tolerar 
nada a ningum, excepto ao rei, ao cardeal e ao Sr. de Trville." Voou portanto, mais do que caminhou para o Convento dos Carmelitas Descalados, ou antes Descalos, 
como se dizia na poca, espcie de edifcio sem janelas, rodeado de prados ridos, sucursal do Pr-aux-Clercs, e que servia habitualmente para os recontros das pessoas 
que no podiam perder tempo.
Quando d'Artagnan chegou  vista do pequeno campo baldio que se estendia ao p do mosteiro, Athos esperava-o havia apenas cinco minutos e estava a dar meio-dia. 
Era portanto pontual como a samaritana e o mais rigoroso casusta acerca de duelos nada teria a dizer.

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Athos, que continuava a sofrer cruelmente do seu ferimento, embora tivesse sido pensado de novo pelo cirurgio do Sr. de Trville, estava sentado num marco e esperava 
o seu adversrio com a atitude calma e o ar digno que nunca o abandonavam. Ao ver d'Artagnan, levantou-se e deu delicadamente alguns passos ao seu encontro. Este, 
pelo seu lado, aproximou-se do adversrio de chapu na mo e com a pluma a arrastar pelo cho.
- Senhor - disse Athos -, mandei avisar dois amigos para me servirem de testemunhas, mas esses dois amigos ainda no chegaram. Admira-me que tardem; no  seu hbito.
- Eu no tenho testemunhas, senhor - respondeu d'Artagnan -, porque s ontem cheguei a Paris e no conheo ainda ningum, excepto o Sr. de Trville, a quem fui recomendado 
por meu pai, que tem a honra de ser um dos seus amigos.
Athos reflectiu um instante.
- S conheceis o Sr. de Trville? - perguntou.
- S, senhor; s o conheo a ele.
- Nesse caso... - continuou Athos, falando metade para si e metade para d'Artagnan -, nesse caso... se vos mato terei o ar de um fanfarro!
- Nem por isso, senhor - respondeu d'Artagnan com uma saudao a que no faltava dignidade. - Nem por isso, uma vez que me dais a honra de desembainhar a espada 
contra mim com um ferimento que vos deve incomodar muito.
- Muito mesmo, dou-vos a minha palavra de honra; e vs fizestes-me um mal do diabo, devo dizer-vos. Mas servir-me-ei da mo esquerda, como  meu hbito em tais circunstncias. 
E no julgueis que vos fao um favor, pois esgrimo perfeitamente com ambas as mos. Haver at desvantagem para vs: um canhoto  muito incmodo para as pessoas 
que no esto preparadas. Lamento no vos ter informado mais cedo a tal respeito.
- Sois realmente, senhor - disse d'Artagnan, inclinando-se de novo -, de uma cortesia pela qual vos no posso estar mais reconhecido.
- Confundis-me - respondeu Athos, com o seu ar de gentil-homem. - Falemos portanto doutra coisa, peo-vos, a menos que isso vos seja desagradvel. Ah, como me magoastes! 
Tenho o ombro em brasa.
- Se me permitisses... - comeou d'Artagnan timidamente.
- O qu, senhor?
- Tenho um blsamo miraculoso para os ferimentos, um blsamo que me deu minha me e que j experimentei em mim mesmo.
- E ento?
- E ento estou certo de que em menos de trs dias o blsamo vos curaria, e passados trs dias, quando estivsseis curado... Bom, senhor, seria sempre uma grande 
honra para mim defrontar-vos.
D'Artagnan disse estas palavras com uma simplicidade que honrava a sua cortesia, sem causar nenhuma beliscadura  sua coragem.

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- Por Deus, senhor - disse Athos -, a est uma proposta que me agrada, no porque a aceite, mas porque cheira  lgua a gentil-homem. Era assim que falavam e procediam 
os bravos do tempo de Carlos Magno, cujo exemplo todo o cavaleiro deve procurar seguir. Infelizmente, no estamos no tempo do grande imperador. Estamos no tempo 
do Sr. Cardeal, e daqui a trs dias saber-se-ia que nos devemos bater, por mais bem guardado que estivesse o segredo, e impediriam o nosso combate. Mas, com a breca, 
quando chegaro esses vadios?! - exclamou, referindo-se s suas testemunhas.
- Se tendes pressa, senhor - disse d'Artagnan a Athos com a mesma simplicidade com que um instante antes lhe propusera adiarem o duelo por trs dias -, se tendes 
pressa e quereis despachar-me imediatamente, no hesiteis, peo-vos.
- A est mais uma palavra que me agrada - declarou Athos, fazendo um gracioso sinal de cabea a d'Artagnan. - No  de um homem sem miolos, mas  com certeza de 
um homem de corao. Senhor, aprecio os homens da vossa tmpera e estou certo de que se no nos matarmos um ao outro terei mais tarde verdadeiro prazer em conversar 
convosco. Esperemos esses cavalheiros, peo-vos; tenho muito tempo e ser mais correcto. Oh, a vem um, creio!
Com efeito, o gigantesco Porthos comeava a aparecer na extremidade da Rua de Vaugirard.
- O qu, a vossa primeira testemunha  o Sr. Porthos?! - exclamou d'Artagnan.
- Pois . E isso contraria-vos?
- No, de modo nenhum.
- E a vem a segunda.
D'Artagnan virou-se para o lado indicado por Athos e reconheceu Aramis.
- O qu, a vossa segunda testemunha  o Sr. Aramis?! - exclamou em tom ainda mais estupefacto do que da primeira vez.
- Sem dvida. No sabeis que nunca nos vem um sem os outros, e que nos chamam, entre os mosqueteiros e os guardas, na corte e na cidade, Athos, Porthos e Aramis 
ou os trs inseparveis? Mas como viestes de Dax ou de Pau...
- De Tarbes - corrigiu d'Artagnan.
- ...-vos permitido ignorar este pormenor - concluiu Athos.
- Palavra que os nomes vos foram bem dados, senhores - declarou d'Artagnan -, e a minha aventura, se der alguma coisa que falar, provar pelo menos que a vossa unio 
se no baseia de modo algum nos contrastes.
Entretanto, Porthos aproximara-se e saudara Athos com a mo; depois, virando-se para d'Artagnan, ficara como que atnito.
Digamos de passagem que mudara de boldri e tirara a capa.
- Ol! Ento que  isto?
-  com este senhor que me bato - respondeu Athos, indicando d'Artagnan com a mo e cumprimentando-o com o mesmo gesto.
- Tambm  com ele que me bato - declarou Porthos.

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- Mas s daqui a uma hora - observou d'Artagnan.
- E eu tambm,  com este senhor que me bato - disse Aramis, chegando por seu turno ao campo.
- Mas s daqui a duas horas - esclareceu d'Artagnan, com a mesma calma.
- Mas por que te bates tu, Athos? - perguntou Aramis.
- Palavra que no sei muito bem; ele magoou-me no ombro... E tu, Porthos?
- Bom... bato-me porque me bato - respondeu Porthos, corando. Athos, que no perdia nada, viu passar um sorriso malicioso pelos
lbios do gasco.
- Tivemos uma discusso sobre indumentria - disse o jovem.
- E tu, Aramis? - perguntou Athos.
- Bato-me por causa da teologia - respondeu Aramis, fazendo sinal a d'Artagnan rogando-lhe que mantivesse secreta a causa do seu duelo.
Athos viu passar segundo sorriso pelos lbios de d'Artagnan.
- Deveras? - insistiu Athos.
- Sim, um ponto acerca de Santo Agostinho sobre o qual no estamos de acordo - acrescentou o gasco.
- Decididamente,  um homem inteligente - murmurou Athos.
- E agora que estais reunidos, senhores - disse d'Artagnan -, permiti-me que vos apresente as minhas desculpas.
 palavra desculpas, passou uma nuvem pela fronte de Athos, um sorriso altivo deslizou pelos lbios de Porthos e um sinal significativo foi a resposta de Aramis.
- No me compreendestes, senhores - prosseguiu d'Artagnan, levantando a cabea, na qual brincava naquele momento um raio de sol que lhe dourava as linhas finas e 
ousadas. - Peo-vos desculpa no caso de no poder pagar a minha dvida a todos os trs, porque o Sr. Athos tem o direito de ser o primeiro a matar-me, o que tira 
muito do seu valor ao vosso crdito, Sr. Porthos, e torna o vosso quase nulo, Sr. Aramis. E agora, senhores, repito-vos, desculpai-me, mas apenas disto, e em guarda!
Aps estas palavras, com o gesto mais cavalheiresco que se possa imaginar, d'Artagnan desembainhou a espada.
O sangue subira-lhe  cabea e naquele momento desembainharia a espada contra todos os mosqueteiros do reino com a mesma facilidade com que acabava de a desembainhar 
contra Athos, Porthos e Aramis.
Era meio-dia e um quarto. O Sol estava no znite e o local escolhido para teatro do duelo encontrava-se exposto a todo o seu ardor.
- Est muito calor - disse Athos, desembainhando por sua vez a espada - e no posso despir o gibo, pois ainda h pouco senti a minha ferida sangrar e recearia incomodar 
este senhor mostrando-lhe sangue que ele prprio me no tirou.
- Tendes razo, senhor - disse d'Artagnan -, e tirado por outro ou por mim garanto-vos que verei sempre com muito pesar o sangue de to bravo gentil-homem. Bater-me-ei 
portanto de gibo, como vs.

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- Ento, ento - interveio Porthos -, basta de cumprimentos e lembrai-vos de que esperamos a nossa vez.
- Falai s por vs, Porthos, quando tiverdes de dizer semelhantes incongruncias - interrompeu-o Aramis. - Quanto a mim, acho as coisas que estes senhores dizem 
um ao outro muito bem ditas e absolutamente dignas de dois gentis-homens.
- Quando quiserdes, senhor - disse Athos, pondo-se em guarda.
- Esperava as vossas ordens - respondeu d'Artagnan, cruzando o ferro.
Mas as duas durindanas mal tinham acabado de ressoar ao tocarem-se quando um grupo de guardas de Sua Eminncia, comandados pelo Sr. de Jussac, apareceu  esquina 
do convento.
- Os guardas do cardeal! - gritaram ao mesmo tempo Porthos e Aramis. - Espadas na bainha, senhores! Espadas na bainha!
Mas era demasiado tarde. Os dois combatentes tinham sido vistos numa posio que no permitia duvidar das suas intenes.
- Ol! - gritou Jussac, avanando para eles e fazendo sinal aos seus homens para o imitarem. - Ol, mosqueteiros! Com que ento a baterem-se aqui?... E os edictos, 
para que servem?
- Sois muito generosos, Srs. Guardas - disse Athos cheio de rancor, pois Jussac fora um dos agressores da antevspera. - Se vos vssemos bater-vos, garanto-vos que 
por nada deste mundo vos interromperamos. Deixai-nos portanto continuar e tereis prazer sem nenhum esforo...
- Senhores - redarguiu Jussac -,  com grande pesar que vos declaro que a coisa  impossvel. O nosso dever acima de tudo. Embainhai, pois, por favor, e acompanhai-nos.
- Senhor - respondeu Aramis, parodiando Jussac -, seria com grande prazer que obedeceramos ao vosso gracioso convite, se isso dependesse de ns; mas infelizmente 
a coisa  impossvel: o Sr. de Trville proibiu-no-lo. Segui portanto o vosso caminho, que  o melhor que tendes a fazer.
Esta chacota exasperou Jussac.
- Obrigar-vos-emos a acompanhar-nos se nos desobedecerdes - replicou.
- Eles so cinco - disse Athos a meia voz -, e ns somos apenas trs; seremos mais uma vez batidos e teremos de morrer aqui, pois desde j declaro que no voltarei 
a aparecer vencido diante do capito.
Ento, Porthos e Aramis aproximaram-se imediatamente uns dos outros, enquanto Jussac alinhava os seus soldados.
Esse instante bastou a d'Artagnan para tomar partido: estava ali um desses acontecimentos que decidem a vida de um homem, havia ali uma escolha a fazer entre o rei 
e o cardeal; uma vez feita essa escolha, era preciso defend-la. Lutar, isto , desobedecer  lei, ou seja, arriscar a cabea, quer dizer, arranjar de um momento 
para o outro, como inimigo, um ministro mais poderoso do que o prprio rei.

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Foi isto que entreviu o jovem e, digamo-lo em seu louvor, no hesitou um segundo. Virando-se para Athos e para os seus amigos disse:
- Senhores, acrescentarei, se mo permitis, alguma coisa s vossas palavras. Dissestes que reis apenas trs, mas a mim parece-me que somos quatro.
- Mas vs no sois dos nossos - redarguiu Porthos.
-  verdade - respondeu d'Artagnan -, no tenho o uniforme, mas tenho a alma. O meu corao  mosqueteiro, bem o sinto, senhor, e isso empolga-me.
- Afastai-vos, rapaz! - gritou Jussac, que sem dvida, pelos seus gestos e pela sua expresso, adivinhara as intenes de d'Artagnan. -Podeis retirar-vos que ns 
consentimos. Salvai a pele. V, depressa.
D'Artagnan nem sequer se mexeu.
- Decididamente, sois um excelente rapaz - disse Athos, apertando a mo ao jovem.
- Vamos, vamos, decidi-vos! - insistiu Jussac.
- Ento, faamos qualquer coisa - disseram Porthos e Aramis.
- O cavalheiro est cheio de generosidade - troou Athos.
Mas todos os trs pensavam na juventude de d'Artagnan e temiam a sua inexperincia.
- Somos apenas trs, um dos quais ferido, mais uma criana - tornou Athos -, mas nem por isso se deixar de dizer que ramos quatro homens.
- Pois sim, mas recuar... - observou Porthos.
-  difcil - admitiu Athos. D'Artagnan compreendeu a sua irresoluo.
- Senhores, experimentai-me - disse - e juro-vos por minha honra que no sairei daqui se formos vencidos.
- Como te chamas, meu bravo? - perguntou Athos.
- D'Artagnan, senhor.
- Pois bem, Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan, em frente! -gritou Athos.
- Ento, senhores, decidi-vos ou no? - gritou pela terceira vez Jussac.
- Est decidido, senhores - respondeu Athos.
- E que partido tomais? - perguntou Jussac.
- Vamos ter a honra de vos atacar - respondeu Aramis, segurando no chapu com uma das mos e desembainhando a espada com a outra.
- Ah, resistis?! - gritou Jussac.
- Com a breca, e isso admira-vos?
E os nove combatentes precipitaram-se uns contra os outros com uma fria que no exclua certo mtodo.
Athos encarregou-se de um tal Cahusac, favorito do cardeal; Porthos de Biscarat, e Aramis viu-se diante de dois adversrios.
Quanto a d'Artagnan, encontrou-se a terar armas com o prprio Jussac.

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O corao do jovem gasco pulsava como se lhe quisesse saltar do peito, no de medo, graas a Deus, de que no tinham nem sombra, mas sim de emulao. Batia-se como 
um tigre enfurecido, girando dez vezes  volta do adversrio e mudando vinte vezes de guarda e de terreno. Jussac era, como se dizia ento, uma boa lmina e praticara 
muito; no entanto, via-se em palpos de aranha para se defender de um adversrio que, gil e saltitante, se desviava constantemente das regras estabelecidas, atacando 
por todos os lados ao mesmo tempo, mas sempre comportando-se como um homem que tem o maior respeito pela sua epiderme.
Finalmente tal luta acabou por fazer perder a pacincia a Jussac. Furioso por ser mantido em xeque por aquele que considerara uma criana, enervou-se e comeou a 
cometer erros. D'Artagnan, que  falta de prtica possua profunda teoria, redobrou de agilidade. Ansioso por terminar, Jussac quis vibrar um golpe terrvel no adversrio 
e carregou a fundo; mas este parou de prima e, enquanto Jussac se endireitava, deslizou como uma serpente por debaixo do seu ferro e atravessou-lhe o corpo com a 
espada. Jussac tombou como uma massa.
D'Artagnan deitou ento uma olhadela inquieta e rpida ao campo de batalha.
Aramis j matara um dos seus adversrios; mas o outro perseguia-o vivamente. Contudo, Aramis estava em boa situao e ainda se podia defender.
Biscarat e Porthos acabavam de dar uma estocada simultnea: Porthos recebera uma espadeirada num brao e Biscarat numa coxa. Mas como nem uma nem outra das feridas 
era grave, ainda esgrimiam com mais encarniamento.
Athos, ferido de novo por Cahusac, empalidecia a olhos vistos, mas no arredava p. Apenas mudara a espada de mo e agora batia-se com a esquerda.
Segundo as leis do duelo da poca, d'Artagnan podia acudir a qualquer; mas enquanto procurava com a vista qual dos seus companheiros necessitava do seu auxlio, 
surpreendeu um olhar de Athos. Esse olhar era de uma eloquncia sublime: Athos mais depressa se deixaria matar do que pediria socorro; mas, sem ele querer, esse 
olhar tambm podia solicitar ajuda. D'Artagnan adivinhou-o, deu um salto terrvel e caiu sobre o flanco de Cahusac gritando:
- A mim, Sr. Guarda, ou mato-vos!
Cahusac virou-se; era tempo. Athos, a quem s sustinha a sua extrema coragem, caiu sobre um joelho.
- Por Deus - gritou a d'Artagnan -, no o mateis, rapaz, suplico-vos! Tenho umas velhas contas a ajustar com ele, quando estiver curado e de boa sade. Desarmai-o 
apenas, prendei-lhe a espada. Isso... Bem, muito bem!
Esta exclamao era arrancada a Athos pela espada de Cahusac, que saltava a vinte passos dele. D'Artagnan e Cahusac correram ambos, um para a apanhar, o outro para 
se apoderar dela; mas d'Artagnan, mais lesto, chegou primeiro e ps-lhe o p em cima.

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Cahusac correu para o guarda que Aramis matara, tirou-lhe a espada e quis ir ao encontro de d'Artagnan; mas encontrou no caminho Athos, que durante a pausa de um 
instante que lhe proporcionara d'Artagnan recuperara flego e que, com receio de que d'Artagnan lhe matasse o inimigo, queria recomear o combate.
D'Artagnan compreendeu que seria ofender Athos no o deixar acabar. Com efeito, poucos segundos depois Cahusac caiu com a garganta atravessada pela espada.
Ao mesmo tempo, Aramis apoiava a espada no peito do seu adversrio derrubado e obrigava-o a pedir merc.
Restavam Porthos e Biscarat. Porthos entregava-se a mil e uma fanfarronices, perguntando a Biscarat que horas seriam e dando-lhe os parabns pela companhia que o 
irmo acabava de obter no Regimento da Navarra; mas, por mais que gracejasse, no ganhava nada. Biscarat era um desses homens de ferro que s desistem mortos.
Contudo, era preciso acabar. A ronda podia aparecer e prender todos os combatentes, feridos ou no, realistas ou cardinalistas. Athos, Aramis e d'Artagnan rodearam 
Biscarat e intimaram-no a render-se. Apesar de estar s contra todos e de uma estocada lhe ter atravessado a coxa, Biscarat teimava em prosseguir; mas Jussac, que 
se erguera num cotovelo, gritou-lhe que se rendesse. Biscarat era um gasco como d'Artagnan; fez orelhas moucas e limitou-se a rir, e entre duas paradas encontrou 
tempo para desenhar com a ponta da espada um espao no cho.
- Aqui - disse parodiando um versculo da Bblia -, aqui morrer Biscarat, o nico dos que esto com ele.
- Mas eles so quatro contra ti; acaba com isso, ordeno-te.
- Ah, se tu o ordenas  outra coisa! - redarguiu Biscarat. - Como s meu cabo, devo obedecer.
E dando um salto para trs quebrou a espada no joelho, para no a entregar, atirou os bocados por cima do muro do convento e cruzou os braos assobiando uma cantiga 
cardinalista.
A bravura  sempre respeitada, mesmo num inimigo. Os mosqueteiros saudaram Biscarat com as espadas e embainharam-nas. D'Artagnan fez o mesmo e depois, ajudado por 
Biscarat, o nico que restava de p, transportou para o prtico do convento Jussac, Cahusac e o adversrio de Aramis que s estava ferido. O quarto, como dissemos, 
estava morto. Depois tocaram a sineta e, levando quatro das cinco espadas dos adversrios, dirigiram-se brios de alegria para o palcio do Sr. de Trville.
Viram-nos passar de brao dado, ocupando toda a largura da rua e levando consigo todos os mosqueteiros que encontravam, de modo que no fim encabeavam uma marcha 
triunfal. O corao de d'Artagnan pulava de entusiasmo. O jovem caminhava entre Athos e Porthos, que enlaava carinhosamente.
- Se ainda no sou mosqueteiro - disse aos seus novos amigos ao transpor a porta do palcio do Sr. de Trville -, ao menos j fui recebido como aprendiz, no  verdade?

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        VI - SUA MAJESTADE O REI LUS XIII


        O caso deu muito que falar. O Sr. de Trville ralhou muito e em alta grita com os mosqueteiros e felicitou-os em voz baixa; mas como no havia tempo a perder 
para prevenir o rei, o Sr. de Trville apressou-se a ir ao Louvre. Mas j era tarde; o rei estava fechado com o cardeal e disseram ao Sr. de Trville que trabalhava 
e no podia receber naquele momento.  noite, o Sr. de Trville compareceu no jogo do rei. O rei ganhava, e como Sua Majestade era muito avaro estava de excelente 
humor; por isso, assim que o rei viu Trville de longe, chamou-o:
- Vinde para aqui, Sr. Capito; vinde que vos quero ralhar. Sabeis que Sua Eminncia se me veio queixar dos vossos mosqueteiros, e com tal emoo que esta noite 
Sua Eminncia est doente? Sim, senhor, so endiabrados, gente digna da forca, os vossos mosqueteiros!
- No, Sire - respondeu Trville, que viu num relance de olhos como a coisa ia acabar. - No, muito pelo contrrio, so boas criaturas, mansos como cordeiros e que 
s desejam uma coisa, garanto-vos: que a sua espada s saia da bainha em servio de Vossa Majestade. Mas, que quereis, os guardas do Sr. Cardeal esto constantemente 
a desafi-los e, por honra da prpria corporao, os pobres rapazes so obrigados a defender-se.
- Escutai o Sr. de Trville, escutai-o! - atalhou o rei. - Dir-se-ia que fala de uma comunidade religiosa! Na verdade, meu caro capito, sinto vontade de vos tirar 
a vossa patente e de a dar a Mlle. de Chemerault, a quem prometi uma abadia. Mas no penseis que vos acreditarei assim sob palavra. Chamam-me Lus, o Justo, Sr. 
de Trville, e daqui a pouco, daqui a pouco veremos.
-  por confiar nessa justia, Sire, que esperarei paciente e tranquilamente a deciso de Vossa Majestade.
- Esperai, senhor, esperai - disse o rei -, que no vos farei esperar muito.
Com efeito, a sorte desandava, e como o rei comeava a perder o que ganhara no lhe desagradava arranjar um pretexto para fazer - que nos perdoem esta expresso 
de jogador, cuja origem confessamos ignorar - para "fazer Carlos Magno(1)". O rei levantou-se pois passado um instante e meteu na algibeira o dinheiro que tinha 
diante de si e cuja maior parte provinha dos seus ganhos.
- Las Vieuville - disse -, tomai o meu lugar que preciso de falar com o Sr. de Trville , acerca de um assunto importante. Ah, tinha oitenta luses diante de mim! 
Entrai com a mesma importncia para que aqueles que perderam no tenham de se queixar. A justia acima de tudo.


*1. "Fazer Carlos Magno": isto , retirar-se bruscamente do jogo depois de ganhar e sem conceder a desforra. (N. do T.)

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Depois, virando-se para o Sr. de Trville e caminhando com ele para o vo de uma janela, continuou:
- Dizeis ento, senhor, que foram os guardas de Sua Eminncia que se meteram com os vossos mosqueteiros?
- Sim, Sire, como sempre.
- E como foi que isso aconteceu? Porque, como sabeis, meu caro capito, um juiz tem de ouvir as duas partes.
- Meu Deus, da forma mais simples e natural! Trs dos meus melhores soldados, que Vossa Majestade conhece de nome e de que por mais de uma vez apreciou a dedicao, 
e que tomam, posso afirm-lo ao rei, o seu servio muito a peito; trs dos meus melhores soldados, dizia, os Srs. Athos, Porthos e Aramis, tinham combinado um treino 
amigvel com um jovem gasco que lhes recomendara nesta mesma manh. O treino era para se realizar em Saint-Germain, segundo creio, e tinham combinado encontrar-se 
nos Carmelitas Descalos quando apareceram o Sr. de Jussac e os Srs. Cahusac, Biscarat e mais dois guardas, que no andavam decerto por ali em to numerosa companhia 
sem m inteno contra os edictos...
- Oh, oh! - exclamou o rei. - Com isso fazeis-me pensar que, sem dvida, iam eles prprios para se bater.
- No os acuso, Sire, mas deixo a Vossa Majestade apreciar que poderiam ir fazer cinco homens armados a um lugar to deserto como so os arredores do convento dos 
Carmelitas.
- Sim, tendes razo, Trville; tendes razo.
- Ento, quando viram os meus mosqueteiros mudaram de ideia e esqueceram o seu rancor particular pelo rancor da corporao; porque Vossa Majestade no ignora que 
os mosqueteiros, que so do rei e apenas do rei, so os inimigos naturais dos guardas, que esto ao servio do Sr. Cardeal.
- Pois sim, Trville, pois sim - disse o rei melancolicamente -mas  muito triste, podeis crer, ver assim dois partidos em Frana, duas cabeas na realeza. Mas tudo 
isso acabar, Trville, tudo isso acabar. Dizeis portanto que os guardas se meteram com os mosqueteiros?
- Digo que  provvel que as coisas se tenham passado assim, mal no juro, Sire. Sabeis como a verdade  difcil de descobrir, a menos que se seja dotado desse instinto 
admirvel que levou a cognominar Lus XIII de o Justo...
- Tendes razo, Trville. Mas os vossos mosqueteiros no estavam ss; havia com eles um garoto.
- Pois havia, Sire, e um homem ferido, de modo que trs mosqueteiros do rei, um dos quais ferido, e um garoto, no s enfrentaram cinco dos mais terrveis guardas 
do Sr. Cardeal, como ainda derrubaram quatro.
- Mas isso foi uma vitria! - exclamou o rei todo radiante. - Uma vitria completa!
-  verdade, Sire; to completa como a do Ponte de C.
- Quatro homens, um dos quais ferido, e um garoto, dizeis?

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- Um jovem ainda, mas que se comportou to dignamente na ocasio que tomo a liberdade de o recomendar a Vossa Majestade.
- Como se chama?
- D'Artagnan, Sire.  filho de um dos meus mais velhos amigos; o filho de um homem que andou com o vosso pai, de gloriosa memria, na guerra de guerrilha.
- E dizeis que se portou bem, esse jovem? Contai-me, Trville; bem sabeis que aprecio os relatos de guerra e de combate.
E o rei Lus XIII cofiou orgulhosamente o bigode e ps a mo na anca.
- Sire - prosseguiu Trville -, como j vos disse, o Sr. d'Artagnan  quase uma criana, e como no tem a honra de ser mosqueteiro estava vestido de burgus. Os 
guardas do Sr. Cardeal, reconhecendo a sua grande juventude e alm disso que era estranho  corporao, convidaram-no a retirar-se antes de atacarem.
- Ento, bem vedes, Trville - interrompeu-o o rei -, que foram eles que atacaram.
-  verdade, Sire: assim j no h dvida. Intimaram-no pois a retirar-se, mas ele respondeu que era mosqueteiro de alma e corao e dedicado a Sua Majestade, e 
que portanto ficaria com os Srs. Mosqueteiros.
- Bravo rapaz! - murmurou o rei.
- E de facto ficou com eles; e Vossa Majestade tem ali um firme campeo, pois foi ele que deu a Jussac a terrvel estocada que tanto irritou o Sr. Cardeal.
- Foi ele que feriu Jussac?! - exclamou o rei. - Ele, uma criana?...  impossvel, Trville.
-  como tenho a honra de dizer a Vossa Majestade.
- Jussac, uma das primeiras lminas do reino!
- Pois encontrou o seu mestre, Sire.
- Quero ver esse rapaz, Trville, quero v-lo, e se pudermos fazer alguma coisa por ele, f-la-emos.
- Quando se dignar Vossa Majestade receb-lo?
- Amanh ao meio-dia, Trville.
- Traga-o sozinho?
- No, trazei todos os quatro. Quero agradecer-lhes ao mesmo tempo; os homens dedicados so raros, Trville, e devemos recompensar a dedicao.
- Ao meio-dia, Sire, estaremos no Louvre.
- Ah, pela escada pequena, Trville, pela escada pequena!  intil que o cardeal saiba...
- Pois sim, Sire.
- Compreendeis, Trville, um edicto  sempre um edicto. No fim de contas os duelos so proibidos.
- Mas este recontro, Sire, sai inteiramente das condies habituais de um duelo. Foi uma rixa, e a prova  que eram cinco guardas do cardeal contra os meus trs 
mosqueteiros e o Sr. d'Artagnan.
-  certo - admitiu o rei. - Mas no importa, Trville, vinde  mesma pela escada pequena.

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Trville sorriu. Mas como era j muito para ele ter obtido daquela criana que se revoltasse contra o seu mestre, saudou respeitosamente o rei e com sua licena 
despediu-se.
Os trs mosqueteiros foram prevenidos na mesma noite da honra que lhes tinha sido concedida. Como conheciam havia muito tempo o rei, no ficaram muito excitados; 
mas d'Artagnan, com a sua imaginao gasc, viu nisso a sua fortuna futura e passou a noite entregue a sonhos dourados. Por isso, logo s oito horas da manh estava 
em casa de Athos.
D'Artagnan encontrou o mosqueteiro completamente vestido e pronto para sair. Como a recepo do rei era s ao meio-dia, combinara com Porthos e Aramis irem jogar 
uma partida de pla numa casa de jogo situada nas imediaes das cavalarias do Luxemburgo. Athos convidou d'Artagnan a acompanh-los e este, apesar da sua ignorncia 
do jogo, que nunca jogara, aceitou, visto no saber em que empregar o tempo desde as nove horas da manh, que ainda eram, at ao meio-dia.
Os dois mosqueteiros j tinham chegado e treinavam-se um com o outro. Athos, que era fortssimo em todos os exerccios corporais, passou com d'Artagnan para o lado 
oposto e desafiou-os. Mas ao primeiro movimento que fez, embora jogasse com a mo esquerda, compreendeu que o seu ferimento era ainda demasiado recente para lhe 
permitir semelhante exerccio. D'Artagnan ficou portanto sozinho, e como declarasse ser demasiado inexperiente para jogar uma partida em regra, continuaram apenas 
a trocar bolas sem contar os pontos. Mas uma das bolas, lanada pelo punho hercleo de Porthos, passou to perto da cara de d'Artagnan que este pensou que, se em 
vez de lhe passar ao lado a bola lhe tivesse acertado, a sua audincia estaria provavelmente perdida, atendendo a que lhe seria de todo impossvel apresentar-se 
perante o rei. Ora, como dessa audincia, na sua imaginao gasc, dependia todo o seu futuro, saudou delicadamente Porthos e Aramis e declarou que s voltaria a 
jogar quando estivesse em condies de os enfrentar e foi sentar-se junto da corda, na galeria.
Infelizmente para d'Artagnan entre os espectadores encontrava-se um guarda de Sua Eminncia, o qual, ainda muito excitado com a derrota dos camaradas, ocorrida apenas 
na vspera, jurara a si mesmo aproveitar a primeira oportunidade para se vingar. Julgou pois que essa oportunidade chegara e dirigiu-se nestes termos ao seu vizinho:
- No me admira que o rapaz tenha medo de uma bola;  sem dvida aprendiz de mosqueteiro.
D'Artagnan virou-se como se lhe tivesse mordido uma serpente e olhou fixamente para o guarda que acabara de proferir palavras to insolentes.
- Por Deus - prosseguiu o outro, cofiando insolentemente o bigode -, podeis olhar-me  vontade, meu pequeno, que o que disse est dito!
- E como o que dissestes foi suficientemente claro para que as vossas palavras necessitem de explicao - respondeu d'Artagnan em voz baixa -, peo-vos que me acompanheis.

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- Quando? - perguntou o guarda no mesmo ar zombeteiro.
- Imediatamente, por favor.
- Sabeis quem sou, decerto?
- Ignoro-o completamente e  coisa que no me preocupa muito.
- Pois fazeis mal, porque se soubsseis o meu nome talvez tivsseis menos pressa.
- Como vos chamais?
- Bernajoux, para vos servir.
- Pois bem, Sr. Bernajoux - disse tranquilamente d'Artagnan -, vou esperar-vos  porta.
- Ide, senhor, que eu acompanho-vos.
- No vos apresseis demasiado, senhor, para que se no veja que samos juntos; decerto compreendeis que, para o que vamos fazer, demasiada gente incomodar-nos-ia.
- Muito bem - respondeu o guarda, admirado por o seu nome no ter produzido qualquer efeito no jovem.
De facto, o nome de Bernajoux era conhecido de toda a gente, talvez com a nica excepo de d'Artagnan, pois era daqueles que figuravam com mais frequncia nas rixas 
dirias que todos os edictos do rei e do cardeal no conseguiam reprimir.
Porthos e Aramis estavam to ocupados com a sua partida, e Athos olhava-os com tanta ateno, que nem sequer deram pela sada do jovem companheiro, o qual, tal como 
dissera ao guarda de Sua Eminncia, parou  porta. Um instante depois, o outro desceu por seu turno. Como d'Artagnan no tinha tempo a perder, visto a audincia 
do rei estar marcada para o meio-dia, olhou  sua volta e vendo que a rua estava deserta disse ao seu adversrio:
- Palavra que tendes sorte, apesar de vos chamardes Bernajoux, em vos irdes bater apenas com um aprendiz de mosqueteiro; mas podeis estar descansado que lutarei 
o melhor que puder. Em guarda!
- Mas - redarguiu aquele que d'Artagnan provocava nestes termos - parece-me que o local  bastante mal escolhido e que estaramos melhor atrs da Abadia de Saint-Germain 
ou no Pr-aux-Clercs.
- O que dizeis  muito sensato - respondeu d'Artagnan. - Infelizmente, disponho de pouco tempo, pois tenho um encontro ao meio-dia em ponto. Em guarda, portanto, 
senhor, em guarda!
Bernajoux no era homem a quem fosse preciso dirigir duas vezes semelhante intimao. No mesmo instante a espada brilhou-lhe na mo e ele carregou a fundo sobre 
o adversrio que, graas  grande juventude deste, esperava intimidar.
Mas d'Artagnan fizera na vspera a sua aprendizagem e, ainda orgulhoso da sua vitria e deslumbrado com o seu futuro valimento, estava resolvido a no ceder um passo. 
Por isso, os dois ferros encontraram-se empenhados na luta at  guarda, e como d'Artagnan sustentasse firme a sua posio foi o seu adversrio que deu um passo 
atrs. Mas d'Artagnan aproveitou o momento em que, nesse movimento, o ferro de Bernajoux

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se desviou da linha, soltou-se, carregou e tocou o adversrio no ombro. D'Artagnan deu por sua vez imediatamente um passo atrs e levantou a espada; mas Bernajoux 
gritou-lhe que no era nada e, carregando cegamente sobre ele, foi ele prprio cravar-se na espada do adversrio. Todavia, como no caa nem se declarava vencido, 
mas apenas se dirigia para os lados do palcio do Sr. de La Trmouille, ao servio do qual tinha um parente, d'Artagnan, ignorando a gravidade da ltima ferida que 
o seu adversrio recebera, atacava-o vivamente, e sem dvida acabaria com ele com terceira estocada se o barulho que vinha da rua no chegasse ao jogo da pla e 
dois amigos do guarda, que o tinham ouvido trocar algumas palavras com d'Artagnan e visto sair depois dessas palavras, no se precipitassem de espada em punho para 
fora da casa de jogo e cassem sobre o vencedor. Mas imediatamente Athos, Porthos e Aramis apareceram por sua vez, e no momento em que os dois guardas atacavam o 
seu jovem camarada obrigaram-nos a virar-se. Nesse momento, Bernajoux caiu; e como os guardas eram apenas dois contra quatro, desataram a gritar: "A ns, do palcio 
de La Trmouille!" Perante estes gritos, tudo o que estava no palcio saiu e atirou-se aos quatro companheiros, que da sua parte se puseram a gritar: "A ns, mosqueteiros!"
Este grito era habitualmente ouvido; porque toda a gente sabia que os mosqueteiros eram inimigos de Sua Eminncia e os estimava pelo dio que votavam ao cardeal. 
Por isso os guardas das outras companhias, exceptuando as pertencentes ao duque Vermelho, como lhe chamava Aramis, tomavam em geral partido nesta espcie de rixas 
pelos mosqueteiros do rei. De trs guardas da companhia do Sr. dos Essarts que passavam dois correram portanto em socorro dos quatro companheiros, enquanto o outro 
corria ao palcio do Sr. de Trville gritando: "A ns, mosqueteiros, a ns!" Como de costume, o palcio do Sr. de Trville estava cheio de soldados dessa arma, que 
acorreram em auxlio dos seus camaradas. A confuso generalizou-se, mas a fora estava do lado dos mosqueteiros. Os guardas do cardeal e os homens do Sr. de La Trmouille 
retiraram-se para o palcio, cujas portas fecharam mesmo a tempo de impedir que os seus inimigos entrassem juntamente com eles. Quanto ao ferido, fora sem demora 
transportado e, como dissemos, em muito mau estado.
A agitao estava no auge entre os mosqueteiros e os seus aliados e j se deliberava se, para castigar a insolncia dos criados do Sr. de La Trmouille ao atacarem 
os mosqueteiros do rei, no seria melhor deitar fogo ao palcio. A proposta fora feita e acolhida com entusiasmo, quando felizmente deram onze horas. D'Artagnan 
e os companheiros lembraram-se da sua audincia e como lamentariam que se praticasse to bela faanha sem eles conseguiram acalmar os nimos. Limitaram-se portanto 
a atirar algumas pedras s portas, mas estas resistiram. Ento, desistiram; alis, aqueles que deviam assumir o papel de chefes da empresa tinham havia pouco deixado 
o grupo e dirigiam-se para o palcio do Sr. de Trville, que os esperava, j ao corrente da batalha.

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- Depressa, ao Louvre! - disse ele. - Ao Louvre sem perda de um instante, e procuremos ver o rei antes de ser prevenido pelo cardeal. Contar-lhe-emos a coisa como 
uma continuao do caso de ontem e ambos passaro juntos.
Acompanhado dos quatro jovens, o Sr. de Trville dirigiu-se portanto para o Louvre; mas com grande espanto do capito de mosqueteiros anunciaram-lhe que o rei fora 
caar veados para a floresta de Saint-Germain. O Sr. de Trville fez com que lhe repetissem duas vezes a notcia e de ambas as vezes os seus companheiros viram o 
rosto nublar-se-lhe.
- Sua Majestade j ontem projectava ir a essa caada? - perguntou.
- No, Excelncia - respondeu o criado de quarto. - Foi o monteiro-mor que lhe veio anunciar esta manh que tinham isolado esta noite um veado em sua inteno. Primeiro 
respondeu que no ia, mas depois no pde resistir ao prazer que lhe prometia a caada e depois do jantar partiu.
- O rei viu o cardeal? - perguntou o Sr. de Trville.
- Muito provavelmente - respondeu o criado de quarto -, pois vi esta manh os cavalos atrelados ao coche de Sua Eminncia, perguntei aonde ia e responderam-me: "A 
Saint-Germain".
- Estamos elucidados - disse o Sr. de Trville. - Meus senhores, falarei com o rei esta noite; mas quanto a vs, no vos aconselho a arriscar-vos por a.
O aviso era muito razovel e sobretudo vinha de um homem que conhecia muito bem o rei, e por isso os quatro rapazes no tentaram sequer discordar. O Sr. de Trville 
convidou-os portanto a irem para suas casas e esperarem as suas notcias.
Ao entrar no seu palcio o Sr. de Trville pensou que precisava de ganhar tempo e para isso devia ser o primeiro a queixar-se. Assim, mandou um dos seus criados 
ao palcio do Sr. de La Trmouille com uma carta em que lhe solicitava que pusesse na rua o guarda do Sr. Cardeal e repreendesse os seus criados pela audcia que 
tinham tido em fazer uma surtida contra os mosqueteiros. Mas o Sr. de La Trmouille, j prevenido pelo seu escudeiro, de quem, como sabemos, Bernajoux era parente, 
respondeu-lhe que no era nem ao Sr. de Trville nem aos seus mosqueteiros que cabia o direito de se queixarem, mas muito pelo contrrio a ele, a quem os mosqueteiros 
tinham atacado a criadagem e haviam querido deitar fogo ao palcio. Ora, como o debate entre os dois fidalgos poderia eternizar-se, visto naturalmente cada um se 
obstinar na sua opinio, o Sr. de Trville recorreu a um expediente destinado a acabar com tudo: foi procurar pessoalmente o Sr. de La Trmouille.
Dirigiu-se portanto para o seu palcio e fez-se anunciar.
Os dois fidalgos cumprimentaram-se cortesmente, pois se no havia amizade entre eles, havia pelo menos estima. Ambos eram pessoas de corao e de honra; e como o 
Sr. de La Trmouille, por ser protestante e ver raramente o rei no era de nenhum partido, no usava em geral nas suas relaes sociais de nenhuma preveno.

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Desta vez, porm, o seu acolhimento, apesar de corts, foi mais frio do que de costume.
- Senhor - disse o Sr. de Trville -, julgamos ter motivos de queixa um do outro e por isso vim pessoalmente para esclarecermos juntos o caso.
- Com muito gosto - respondeu o Sr. de La Trmouille. - Mas previno-vos de que estou bem informado e de que toda a culpa  dos vossos mosqueteiros.
- Sois um homem demasiado justo e razovel, senhor - disse o Sr. de Trville -, para no aceitardes a proposta que vou fazer.
- Dizei, senhor; escuto-vos.
- Como se encontra o Sr. Bernajoux, o parente do vosso escudeiro?
- Mas, senhor, muito mal. Alm da estocada que recebeu no brao, e que no  muito perigosa, ainda recebeu outra que lhe atravessou o pulmo, de modo que o mdico 
poucas esperanas lhe d.
- Mas o ferido conservou os sentidos?
- Perfeitamente. -Fala?
- Com dificuldade, mas fala.
- Nesse caso, senhor, vamos ter com ele e supliquemos-lhe em nome de Deus, diante do qual talvez v ser chamado, que diga a verdade. Tomo-o por juiz na sua prpria 
causa, senhor, e acreditarei naquilo que ele disser.
O Sr. de Trmouille reflectiu um instante e depois, como lhe era difcil fazer uma proposta mais razovel, aceitou.
Desceram ambos ao quarto onde estava o ferido. Este, ao ver entrar os dois nobres senhores que vinham visit-lo, tentou erguer-se na cama, mas estava demasiado fraco 
e, esgotado pelo esforo que fez, caiu quase sem sentidos.
O Sr. de La Trmouille aproximou-se da cama e f-lo respirar sais que o restituiram  vida. Ento o Sr. de Trville, no querendo que o pudessem acusar de ter influenciado 
o doente, convidou o Sr. de La Trmouille a interrog-lo ele prprio.
O que o Sr. de Trville previra aconteceu. Colocado entre a vida e a morte como estava Bernajoux, nem sequer lhe passou pela cabea calar um instante a verdade, 
e contou aos dois fidalgos as coisas exactamente como se tinham passado.
Era tudo o que queria o Sr. de Trville. Desejou a Bernajoux rpida convalescena, despediu-se do Sr. de La Trmouille, regressou ao seu palcio e mandou prevenir 
imediatamente os quatro amigos de que os esperava para jantar.
O Sr. de Trville recebia pessoas de alta categoria, todas anticardi-nalistas. Compreende-se portanto que a conversa girasse durante todo o jantar  roda dos dois 
desaires que acabavam de experimentar os guardas de Sua Eminncia. Ora, como d'Artagnan fora o heri das duas jornadas, foi sobre ele que caram todas as felicitaes, 
que Athos, Porthos e Aramis lhe cederam no s como bons camaradas, mas tambm como homens que j tinham tido bastantes vezes o seu momento de glria para no lhe 
deixarem o dele.

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Por volta das seis horas o Sr. de Trville anunciou que tinha de ir ao Louvre; mas como a hora da audincia concedida por Sua Majestade passara, em vez de exigir 
a entrada pela escada pequena instalou-se com os quatro jovens na antecmara. O rei ainda no regressara da caa. Os jovens esperavam havia apenas meia hora, misturados 
com a multido de cortesos, quando todas as portas se abriram e anunciaram Sua Majestade.
Perante tal anncio, d'Artagnan sentiu-se estremecer at  medula dos ossos. O instante que se ia seguir devia, segundo todas as probabilidades, decidir do resto 
da sua vida. Por isso os seus olhos fixaram-se com angstia na porta por onde devia entrar o rei.
Luis XIII apareceu,  frente; estava em traje de caa, ainda coberto de p, de grandes botas e chicote na mo. No primeiro relance de olhos d'Artagnan descobriu 
que a tempestade bramia no esprito do rei.
Semelhante disposio, por mais visvel que fosse em Sua Majestade, no impediu os cortesos de se alinharem  sua passagem. Nas antecmaras reais  prefervel ser 
visto com um olhar irritado do que no ser visto de todo. Os trs mosqueteiros no hesitaram pois em dar um passo em frente, enquanto d'Artagnan, pelo contrrio, 
permanecia escondido atrs deles. Mas embora o rei conhecesse pessoalmente Athos, Porthos, e Aramis, passou por eles sem os olhar, sem lhes falar e como se nunca 
os tivesse visto. Quanto ao Sr. de Trville, quando os olhos do rei se detiveram um instante nele sustentou esse olhar com tanta firmeza que foi o rei quem desviou 
a vista; em seguida, resmungando, Sua Majestade entrou nos seus aposentos.
- Os negcios vo mal - disse Athos, sorrindo - e ainda no ser desta vez que nos faro cavaleiros da ordem.
- Esperai aqui dez minutos - recomendou-lhes o Sr. de Trville - e se ao fim de dez minutos no me virdes sair, regressai ao meu palcio, pois ser intil esperardes 
mais tempo.
Os quatro jovens esperaram dez minutos, um quarto de hora, vinte minutos; e vendo que o Sr. de Trville no reaparecia, saram muito inquietos com o que estaria 
a acontecer.
O Sr. de Trville entrara ousadamente no gabinete do rei e encontrara Sua Majestade de pssimo humor, sentado num cadeiro e a bater nas botas com o cabo do chicote, 
o que no o impedira de lhe pedir com a maior fleuma notcias da sua sade.
- Ms, senhor, ms - respondeu o rei. - Aborreo-me.
Era com efeito a pior doena de Luis XIII, que muitas vezes pegava num corteso, levava-o para uma janela e dizia-lhe: "Senhor, aborreamo-nos juntos."
- Como, Vossa Majestade aborrece-se?! - exclamou o Sr. de Trville. - Mas no teve hoje o prazer da caa?
- Belo prazer, senhor! Pela minha salvao, tudo degenera e j no sei se  a caa que perdeu o cheiro ou os ces que perderam o faro. Lanmos um veado de dez galhos,

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perseguimo-lo durante seis horas e quando estava prestes a cair, quando Saint-Simon levava j a trompa  boca para tocar o halai, zs!, toda a matilha muda de direco 
e atira-se a um veado novo. Vereis que acabarei por ser obrigado a renunciar  caa de montaria como j renunciei  caa ao voo. Ah, sou um rei muito infeliz, Sr. 
de Trville! S tinha um gerifalto e esse morreu anteontem,
- Com efeito, Sire, compreendo o vosso desespero, pois a infelicidade  grande; mas ainda vos resta, parece-me, bom nmero de falces, de gavies e de esmerilhes.
- E nem um homem para os ensinar; os falcoeiros vo desaparecendo e s eu conheo a arte da montaria. Depois de mim tudo acabar e caar-se- com armadilhas de vrias 
espcies. Se ainda tivesse tempo de formar discpulos!... Mas no, a est o Sr. Cardeal que no me d um instante de repouso, que me fala da Espanha, que me fala 
da ustria, que me fala da Inglaterra! Ah, a propsito do Sr. Cardeal, Sr. de Trville, estou descontente convosco!
O Sr. de Trville esperava que o rei abordasse assim o assunto. Conhecia-o de longa data e compreendera que todos os seus queixumes no passavam de um prefcio, 
de uma espcie de excitao para se encorajar a si mesmo, e que era ali que queria chegar finalmente.
- E em que tive a infelicidade de desagradar a Vossa Majestade? - perguntou o Sr. de Trville, fingindo o mais profundo espanto.
-  assim que vos desempenhais do vosso cargo, senhor? - continuou o rei sem responder directamente  pergunta do Sr. de Trville. - Foi para isso que vos nomeei 
capito dos meus mosqueteiros, para que eles assassinem um homem, ponham todo um bairro em alvoroo e queiram incendiar Paris sem dizerdes nada? Mas se calhar - 
continuou o rei - decerto precipito-me a acusar-vos, sem dvida os perturbadores esto na priso e vindes anunciar-me que foi feita justia...
- Sire - respondeu tranquilamente o Sr. de Trville -, venho, ao contrrio, pedir-vo-la.
- E contra quem? - insurgiu-se o rei.
- Contra os caluniadores - respondeu o Sr. de Trville.
- Essa agora  nova! - redarguiu o rei. - No me venhais dizer que os vossos trs malditos mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, e o vosso cadete do Barn, se no 
atiraram como loucos ao pobre Bernajoux e no o maltrataram de tal forma que  provvel que esteja a dar a alma ao Criador neste momento! No me digas depois que 
no cercaram o palcio do duque de La Trmouille e o no quiseram incendiar! O que talvez no tivesse sido uma grande desgraa em tempo de guerra, visto ser um ninho 
de huguenotes, mas em tempo de paz  um desagradvel exemplo. Dizei, ides negar tudo isto?
- E quem vos fez esse belo relato, Sire? - perguntou tranquilamente o Sr. de Trville.
- Quem me fez este belo relato, senhor? E quem quereis que fosse a no ser aquele que vela enquanto durmo, que trabalha enquanto me divirto, que dirige tudo dentro 
e fora do reino,

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tanto em Frana como na Europa?
- Vossa Majestade quer falar de Deus, sem dvida - observou o Sr. de Trville -, pois no conheo ningum mais poderoso do que Vossa Majestade a no ser Deus.
- No, senhor; refiro-me ao sustentculo do Estado, ao meu nico servidor, ao meu nico amigo, ao Sr. Cardeal.
- Sua Eminncia no  Sua Santidade, Sire.
- Que quereis dizer com isso, senhor?
- Que s o papa  infalvel e que essa infalibilidade no se estende aos cardeais.
- Quereis dizer que me engana, quereis dizer que me atraioa. Acusai-o ento. Vamos, dizei, confessai francamente que o acusais.
- No, Sire; mas digo que se engana a si mesmo; digo que foi mal informado; digo que teve pressa de acusar os mosqueteiros de Vossa Majestade, para com os quais 
 injusto, e que no foi beber as suas informaes em boas fontes.
- A acusao vem do Sr. de La Trmouille, do prprio duque. Que respondeis a isto?
- Poderia responder, Sire, que se trata de pessoa demasiado interessada na questo para ser uma testemunha imparcial; mas longe disso, Sire, conheo o duque como 
um leal gentil-homem e confiarei nele, mas com uma condio, Sire.
- Qual?
- Que Vossa Majestade o mande chamar e o interrogue pessoalmente, em particular, sem testemunhas, e que Vossa Majestade me voltar a receber assim que despedir o 
duque.
- Seja! - concordou o rei. - E acreditareis no que disser o Sr. de La Trmouille?
- Acreditarei, Sire.
- Aceitareis a sua sentena?
- Sem dvida.
- E submeter-vos-eis s reparaes que exigir?
- Absolutamente.
- La Chesnaye! - chamou o rei. - La Chesnaye!
O criado de quarto de confiana de Lus XIII, que se encontrava sempre  porta, entrou.
- La Chesnaye - disse o rei -, que vo imediatamente buscar-me o Sr. de La Trmouille; quero falar-lhe esta noite.
- Vossa Majestade d-me a sua palavra de que no ver ningum entre o Sr. de La Trmouille e eu?
- Ningum, palavra de gentil-homem.
- Nesse caso, at amanh, Sire.
- At amanh, senhor.
- A que horas deseja Vossa Majestade receber-me?
-  hora que quiserdes.
- Mas se vier demasiado cedo receio acordar Vossa Majestade...

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- Acordar-me? Mas eu durmo? J no durmo, senhor; sonho apenas algumas vezes. Vinde pois to cedo quanto queirais, s sete horas. Mas acautelai-vos se os vossos 
mosqueteiros forem culpados!
- Se os meus mosqueteiros forem culpados, Sire, sero postos nas mos de Vossa Majestade, que dispor deles conforme entender. Vossa Majestade ordena mais alguma 
coisa? Dizei, estou pronto a obedecer-vos.
- No, senhor, no, e no foi sem razo que me cognominaram Lus, o Justo. At amanh, senhor, at amanh.
- Deus guarde at l Vossa Majestade!


Se o rei pouco dormiu, o Sr. de Trville ainda dormiu pior. Mandara avisar naquela mesma noite os seus trs mosqueteiros e o seu companheiro para estarem no palcio 
s seis e meia da manh. Levou-os consigo sem nada lhes garantir, sem nada lhes prometer, e no lhes ocultou que o valimento deles e mesmo o seu dependiam de um 
lance de dados.
Chegados ao fundo da escada pequena mandou-os esperar. Se o rei continuasse irritado contra eles, retirar-se-iam sem ser vistos; se o rei consentisse em os receber, 
mand-los-ia chamar.
Quando chegou  antecmara particular do rei o Sr. de Trville encontrou La Chesnaye que lhe disse que no tinham encontrado o duque de La Trmouille na vspera 
 noite no seu palcio, que regressara demasiado tarde para se apresentar no Louvre, que acabava de chegar e estava naquele momento com o rei.
Esta circunstncia agradou muito ao Sr. de Trville, pois assim podia estar certo de que nenhuma sugesto estranha se insinuaria entre o depoimento do Sr. de La 
Trmouille e ele.
Com efeito, passados apenas dez minutos a porta do gabinete abriu-se e o Sr. de Trville viu sair o duque de La Trmouille, que se aproximou dele e lhe disse:
- Sr. de Trville, Sua Majestade mandou-me chamar para saber como se tinham passado as coisas ontem de manh no meu palcio. Contei-lhe a verdade, isto , que a 
culpa fora dos meus criados e que estava pronto a apresentar-vos as minhas desculpas. E j que vos encontro, dignai-vos receb-las e considerar-me sempre um dos 
vossos amigos.
- Sr. Duque - respondeu o Sr. de Trville -, tinha tanta confiana na vossa lealdade que no quis junto de Sua Majestade outro defensor alm de vs. Vejo que no 
me enganei e congratulo-me por ainda haver em Frana um homem de quem se possa dizer o que disse de vs, sem nos enganarmos.
- Pronto, pronto! - interveio o rei, que escutara todos estes cumprimentos entre as duas portas. - Dizei-lhe apenas, Trville, uma vez que pretende ser um dos vossos 
amigos, que eu tambm gostaria de ser dos seus, mas que ele me despreza; que h quase trs anos o no via e que s o vejo quando o mando chamar. Dizei-lhe tudo isto 
da minha parte, pois estas so das coisas que um rei no pode dizer pessoalmente.

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- Obrigado, Sire, obrigado - respondeu o duque. - Mas que Vossa Majestade acredite que no so aqueles, e no digo isto pelo Sr. de Trville, que no so aqueles 
que v a toda a hora do dia que lhe so mais dedicados.
- Ah, ouvistes o que disse! Tanto melhor, duque, tanto melhor - disse o rei, avanando at fora da porta. - Ento, Trville, onde esto os vossos mosqueteiros? Disse-vos 
anteontem que mos trouxesses, porque no o fizestes?
- Esto l em baixo, Sire, e com vossa licena La Chesnaye ir dizer-lhes que subam.
- Sim, sim, que venham imediatamente; esto a ser oito horas e s nove espero uma visita. Ide, Sr. Duque, e voltai, sobretudo. Entrai, Trville.
O duque cumprimentou e saiu. No momento em que abria a porta, os trs mosqueteiros e d'Artagnan, acompanhados por La Chesnaye, apareciam ao cimo da escada.
- Vinde, meus bravos - disse o rei -, vinde; tenho de vos ralhar. Os mosqueteiros aproximaram-se e inclinaram-se; d'Artagnan ia
atrs.
- Como diabo - continuou o rei - conseguistes os quatro pr fora de combate em dois dias sete guardas de Sua Eminncia?  demasiado, senhores,  demasiado... Por 
esse andar, Sua Eminncia ser obrigado a renovar a sua companhia no espao de trs semanas e eu terei de mandar aplicar os edictos com todo o rigor. Um por acaso, 
v l; mas sete em dois dias, repito,  de mais,  muito.
- Por isso, Sire, aqui esto todos contritos e arrependidos a apresentar-vos as suas desculpas.
- Todos contritos e arrependidos! Hum... - resmungou o rei - no me fio nas suas caras hipcritas; h sobretudo l atrs uma cara de gasco. Aproximai-vos, senhor.
D'Artagnan, ao ver que o rei o chamava, aproximou-se com o seu ar mais desesperado.
- No me dissestes que era um jovem?  uma criana, Sr. de Trville, uma verdadeira criana! E foi ele que deu aquela valente estocada a Jussac?
- E aquelas duas a Bernajoux.
- Deveras?
- Sem contar - interveio Athos - que se me no tivesse tirado das mos de Biscarat eu no teria com certeza a honra de fazer neste momento a minha humilissima reverncia 
a Vossa Majestade.
- Mas ento este bearns  um autntico mafarrico, com mil demnios, como diria o rei meu pai, Sr. de Trville. Nessa profisso devem furar muitos gibes e partir 
muitas espadas. Ora os Gasces continuam a ser pobres, no  verdade?
- Sire, devo dizer que ainda se no encontraram minas de ouro nas suas montanhas, embora o Senhor lhes deva bem esse milagre em recompensa da forma como sustentaram 
as pretenses do rei vosso pai.

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- O que quer dizer que foram os Gasces que me fizeram rei a mim mesmo, no  verdade, Trville, uma vez que sou filho do meu pai... Bom, no digo que no! La Chesnaye, 
ide ver se procurando em todas as minhas algibeiras encontrais quarenta pistolas; e se as encontrardes, trazei-mas. E agora vejamos, meu rapaz, com a mo na conscincia, 
como se passaram as coisas.
D'Artagnan contou a aventura da vspera em todos os seus pormenores: como, no podendo dormir devido  alegria que experimentava por ir ver Sua Majestade, chegara 
a casa dos amigos trs horas antes da marcada para a audincia; como tinham ido juntos  casa de jogo e como, por ter deixado transparecer o receio de receber uma 
bolada na cara, fora ridicularizado por Bernajoux, o qual quase pagara a zombaria com a vida, e o Sr. de La Trmouille, que nada tivera a ver com o caso, com a perda 
do seu palcio.
- Exacto - murmurou o rei. - Foi assim que o duque me contou as coisas. Pobre cardeal! Sete homens em dois dias e dos seus mais favoritos... Mas agora basta, senhores, 
ouvistes? Basta! Tirastes a vossa desforra da Rua Frou, e mais ainda; deveis estar satisfeitos.
- Se Vossa Majestade est, ns tambm estamos - disse Trville.
- Estou, sim - declarou o rei, pegando num punhado de ouro da mo de La Chesnaye e metendo-o na de d'Artagnan. - Aqui tendes uma prova da minha satisfao.
Naquela poca as ideias de orgulho em uso nos nossos dias ainda no estavam na moda. Um gentil-homem recebia de mo para mo dinheiro do rei sem se sentir de modo 
algum humilhado. D'Artagnan meteu portanto as quarenta pistolas na algibeira sem fazer qualquer cerimnia, antes pelo contrrio agradecendo profundamente a Sua Majestade.
- Bom - disse o rei, olhando o relgio de sala -, bom, e agora que j so oito e meia retirai-vos; porque, como vos disse, espero algum s nove horas. Obrigado 
pela vossa dedicao, senhores. Posso contar com ela, no  verdade?
- Oh, Sire! - exclamaram em unssono os quatro companheiros. - Far-nos-amos esquartejar por Vossa Majestade!
- Pois sim, pois sim, mas ficai inteiros:  melhor e ser-me-eis mais teis. Trville - acrescentou o rei a meia voz enquanto os outros se retiravam -, como no tendes 
vaga nos mosqueteiros e alis para entrar nessa corporao decidimos que era necessrio fazer um noviciado, colocai esse rapaz na companhia dos guardas do Sr. dos 
Essarts, vosso cunhado. Meu Deus, Trville, como me vou divertir com a cara que vai fazer o cardeal! Ficar furioso, mas quero l saber; estou no meu direito.
E o rei saudou com a mo Trville, que saiu e se foi juntar aos seus mosqueteiros, que encontrou dividindo com d'Artagnan as quarenta pistolas.
E o cardeal, como dissera Sua Majestade, ficou efectivamente furioso, to furioso que durante oito dias no compareceu ao jogo do rei, o que no impediu este de 
lhe mostrar a mais risonha cara do mundo todas as vezes que o encontrou, e de lhe perguntar com a sua voz mais afvel:
- Ento, Sr. Cardeal, como vo o pobre Bernajoux e o pobre Jussac?

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        VII - COMO VIVIAM OS MOSQUETEIROS


        Quando, fora do Louvre, d'Artagnan consultou os amigos acerca da forma como devia empregar a sua parte das quarenta pistolas, Athos aconselhou-o a encomendar 
uma boa refeio na Pomme de Pin, Porthos a tomar um lacaio e Aramis a arranjar uma amante conveniente.
A refeio comeu-se no mesmo dia e o lacaio serviu-os  mesa. A refeio fora encomendada por Athos e o lacaio arranjado por Porthos. Era um picardo que o glorioso 
mosqueteiro contratara naquele mesmo dia e para aquela ocasio na Ponte da Tournelle, enquanto se pavoneava e cuspia para a gua.
Porthos afirmara que semelhante ocupao era a prova de uma organizao reflexiva e contemplativa, e trouxera-o sem outra recomendao. A excepcional aparncia do 
gentil-homem para o servio do qual se julgou contratado seduziu Planchet - era este o nome de picardo -, que teve uma pequena decepo quando viu que o lugar j 
estava ocupado por um colega chamado Mousqueton e Porthos lhe declarou que o servio da sua casa, apesar de grande, no comportava dois criados e que portanto o 
ia fazer entrar ao servio de d'Artagnan. Todavia, quando assistiu ao jantar dado pelo amo e viu este tirar para pagar um punhado de ouro da algibeira, julgou estar 
feita a sua fortuna e agradeceu ao Cu ter cado nas mos de semelhante Crsus. Perseverou nesta opinio at depois do festim, com os restos do qual se compensou 
de longas abstinncias, mas quando  noite fez a cama do amo, as quimeras de Planchet desvaneceram-se. A cama era a nica coisa que havia no apartamento, que se 
compunha de uma antecmara e de um quarto de dormir. Planchet dormiu na antecmara, num cobertor tirado da cama de d'Artagnan e de que este se privou depois.
Pela sua parte, Athos tinha um criado que instrura no seu servio de forma muito especial e se chamava Grimaud. Era muito calado, este digno cavalheiro. Referimo-nos 
a Athos, evidentemente. Havia cinco ou seis anos que vivia na mais profunda intimidade com os seus camaradas Porthos e Aramis, os quais se recordavam de o ter visto 
sorrir muitas vezes, mas nunca de o ouvir rir. As suas palavras eram breves e expressivas, diziam sempre o que queriam dizer e mais nada: nada de enfeites, nada 
de floreados, nada de arabescos. A sua conversao era um facto sem nenhum episdio.

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Embora Athos tivesse apenas trinta anos e fosse perfeitssimo de corpo e de esprito, ningum lhe conhecia amante. Nunca falava de mulheres. Mas no impedia que 
se falasse diante dele, embora fosse fcil de ver que tal gnero de conversa, em que s participava com palavras amargas e aluses misantrpicas, lhe era absolutamente 
desagradvel. A sua reserva, a sua agressividade e o seu mutismo tornavam-no quase um velho. Tinha portanto, para no ver os seus hbitos alterados, acostumado Grimaud 
a obedecer-lhe a um simples gesto ou a um simples movimento de lbios. S lhe falava em circunstncias supremas.
s vezes Grimaud, que tinha medo do amo como do fogo, embora lhe fosse muito dedicado e tivesse uma grande venerao pela sua inteligncia, julgava ter compreendido 
perfeitamente o que ele desejava e corria a cumprir a ordem recebida, mas fazia precisamente o contrrio. Ento, Athos encolhia os ombros e sem se encolerizar desancava 
Grimaud. Nesses dias falava um pouco.
Porthos, como j tivemos ensejo de ver, tinha um temperamento completamente oposto ao de Athos: no s falava muito, como ainda falava alto. Pouco lhe importava 
alis,  necessrio prestar-lhe essa justia, que o escutassem ou no; falava pelo prazer de falar e pelo prazer de se ouvir; falava de tudo excepto de cincias, 
justificando desse modo o dio inveterado que desde a infncia dedicava, dizia, aos sbios. Tinha maneiras menos distintas do que Athos, e a noo da sua inferioridade 
a tal respeito tornara-o, no princpio das suas relaes, muitas vezes injusto para com aquele gentil-homem, que ento se esforara por exceder com os seus esplndidos 
trajes. Mas, com a sua simples sobreveste de mosqueteiro e apenas pela forma como lanava a cabea para trs e avanava o p, Athos ocupava imediatamente o lugar 
que lhe era devido e relegava o faustoso Porthos para segundo plano. Porthos consolava-se disso enchendo a antecmara do Sr. de Trville e as casas de guarda do 
Louvre com a descrio das suas aventuras galantes, de que Athos nunca falava, e de momento, depois de passar da nobreza de toga  nobreza de espada, da mulher ou 
filha de magistrado  baronesa, Porthos j se no contentava com menos do que com uma princesa estrangeira que estava apaixonadssima por ele.
Um velho provrbio diz: "Tal amo, tal criado." Passemos portanto do criado de Athos ao criado de Porthos, de Grimaud a Mousqueton.
Mousqueton era um normando a quem o amo trocara o nome pacfico de Boniface pelo infinitamente mais sonoro e belicoso de Mousqueton. Entrara ao servio de Porthos 
com a condio de lhe ser dado apenas vesturio e alojamento. Alm disso, s queria duas horas por dia para as dedicar a uma indstria que devia bastar para prover 
s suas outras necessidades. Porthos aceitara o negcio, que lhe calhava s mil maravilhas. Mandava fazer a Mousqueton gibes das suas roupas velhas e das suas capas 
de reserva, e graas a um alfaiate muito habilidoso que lhe punha os fatos velhos como novos, virando-os, e cuja mulher se suspeitava pretender que Porthos descesse 
dos seus hbitos aristocrticos, Mousqueton fazia atrs do amo muito boa figura.

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Quanto a Aramis, de quem cremos ter revelado suficientemente o carcter - carcter que, de resto, como o dos seus camaradas, poderemos seguir no seu desenvolvimento 
-, o seu lacaio chamava-se Bazin. Graas  esperana que o seu amo acalentava de tomar um dia ordens, andava sempre vestido de preto, como deve andar o servidor 
de um homem da Igreja. Era um berricho de trinta e cinco a quarenta anos, afvel, pacato, anafado, que ocupava a ler obras piedosas os tempos livres que lhe deixava 
o amor e era capaz de fazer menos mal um jantar para dois, de poucos pratos, mas excelente. Fora isso, era cego, surdo e mudo e de uma fidelidade a toda a prova.
Agora que j conhecemos, pelo menos superficialmente, os amos e os criados, passemos s casas ocupadas por cada um deles.
Athos morava na Rua Frou, a dois passos do Luxemburgo; o seu apartamento compunha-se de dois quartos pequenos muito decentemente mobilados, numa casa cuja locatria, 
ainda jovem e na realidade tambm ainda bonita, lhe fazia em vo olhos ternos. Alguns vestgios de um grande esplendor passado brilhavam aqui e ali nas paredes do 
modesto alojamento: por exemplo, uma espada ricamente marchetada, que pelo aspecto devia remontar  poca de Francisco I, e de que s o punho, incrustado de pedras 
preciosas, devia valer duzentas pistolas; no entanto, nem mesmo nos seus momentos de maior carncia, Athos nunca consentira em empenh-la ou vend-la. Essa espada 
fora durante muito tempo a ambio de Porthos, o qual teria dado dez anos da sua vida para a possuir.
Um dia em que tinha encontro com uma duquesa, tentara mesmo que Athos lha emprestasse. Sem dizer nada, Athos despejara as algibeiras, reunira todas as suas jias 
- bolsas, agulhetas e correntes de ouro - e oferecera tudo a Porthos. Quanto  espada, dissera, estava chumbada  parede e s de l saria quando o dono mudasse 
de casa. Alm da espada, havia ainda um retrato representando um fidalgo do tempo de Henrique III, vestido com a maior elegncia e com a Ordem do Esprito Santo. 
O retratado tinha com Athos certas semelhanas de feies, certas parecenas de famlia, que indicavam que esse grande senhor, cavaleiro das ordens reais, era seu 
antepassado. Finalmente, um cofre de magnfica ourivesaria, com as mesmas armas da espada e do retrato, ocupava o centro da chamin, onde destoava horrivelmente 
do resto da decorao. Athos trazia a chave do cofre sempre consigo. Mas um dia abrira-o diante de Porthos e este verificara que o cofre s continha cartas e papis: 
cartas de amor e documentos de famlia, sem dvida.
Porthos residia num apartamento muito amplo e de sumptuosissima aparncia, na Rua do Vieux-Colombier. Sempre que passava com algum amigo diante das suas janelas, 
a uma das quais Mousqueton se mantinha constantemente em libr de gala, Porthos erguia a cabea e a mo e dizia: "A minha casa!" Mas nunca o l encontravam, nunca 
convidava ningum a subir e ningum podia fazer ideia de que to sumptuosa aparncia encerrasse riquezas autnticas.

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Quanto a Aramis, morava numa casinha constituda por antecmara, sala de jantar e quarto de dormir, quarto que, situado como o resto do apartamento no rs-do-cho, 
dava para um jardinzinho fresco, verde, umbroso e impenetrvel aos olhos da vizinhana.
Quanto a d'Artagnan, sabemos como estava alojado e j travmos conhecimento com o seu criado, mestre Planchet.
D'Artagnan, que era por natureza muito curioso, como so, de resto, as pessoas que possuem o esprito da intriga, fez todos os esforos para saber quem eram ao certo 
Athos, Porthos e Aramis; porque sob estes nomes de guerra cada jovem escondia o seu nome de gentil-homem, sobretudo Athos, que cheirava a grande senhor  lgua. 
Dirigiu-se portanto a Porthos para obter informaes acerca de Athos e Aramis, e a Aramis para conhecer Porthos.
Infelizmente, o prprio Porthos s sabia da vida do seu silencioso camarada o que transpirara. Dizia-se que passara por grandes infortnios amorosos e que uma horrvel 
traio envenenara para sempre a vida do galante homem. Que traio fora essa? Ningum sabia.
Quanto a Porthos, exceptuando o seu verdadeiro nome, que s o Sr. de Trville conhecia, assim como o dos seus dois camaradas, a sua vida era fcil de devassar. Vaidoso 
e indiscreto, via-se atravs dele como atravs de um cristal. A nica coisa capaz de desorientar o investigador seria acreditar em todo o bem que ele dizia de si.
Quanto a Aramis, embora tivesse o ar de no ter nenhum segredo, era um rapaz repleto de mistrios que mal respondia s perguntas que lhe faziam sobre os outros e 
eludia as que lhe faziam sobre si mesmo. Um dia, d'Artagnan, depois de o interrogar demoradamente a respeito de Porthos e de tomar conhecimento do boato que corria 
acerca do xito do mosqueteiro com uma princesa, quis saber tambm qualquer coisa a respeito das aventuras amorosas do seu interlocutor.
- E vs, meu caro camarada, vs que falais de baronesas, de condessas e de princesas dos outros?
- Perdo - interrompeu-o Aramis -, falei porque o prprio Porthos fala delas, porque propalou todas essas aventuras diante de mim. Mas podeis crer, meu caro Sr. 
d'Artagnan, que se as tivesse sabido doutra fonte ou ele mas tivesse confidenciado, no teria confessor mais discreto do que eu.
- No duvido - admitiu d'Artagnan. - Mas enfim, parece-me que vs mesmo tendes bastante familiaridade com os brases, como o prova certo leno bordado a que devo 
a honra de vos conhecer.
Desta vez, Aramis no se zangou, mas tomou o seu ar mais modesto e respondeu afectuosamente:
- Meu caro, no esqueais que quero pertencer  Igreja e que fujo de todas as relaes mundanas. O leno que vistes, no me fora confiado, mas sim esquecido em minha 
casa por um dos meus amigos. Guardei-o para no os comprometer, a ele e  dama que ele ama. Quanto a mim, no tenho nem quero ter amante; nisso sigo o exemplo judicioso 
de Athos, que tambm a no tem.

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- Mas, que diabo, vs no sois padre, sois mosqueteiro!
- Mosqueteiro provisoriamente, meu caro, como diz o cardeal; mosqueteiro contra vontade, mas homem da Igreja pelo corao, podeis crer. Athos e Porthos meteram-me 
nisto para me distrarem: tive, na altura de ser ordenado, uma pequena dificuldade com... Mas isto no vos interessa e estou a tomar-vos um tempo precioso.
- De modo nenhum, interessa-me muito! - exclamou d'Artagnan. - E de momento no tenho nada que fazer.
- Pois sim, mas eu tenho o meu brevirio para ler - respondeu Aramis - e depois preciso de compor uns versos que me pediu a Sr.a de Aiguillon. Em seguida tenho de 
passar pela Rua de Saint-Honor, a fim de comprar carmim para a Sr.a de Chevreuse. Como vedes, meu caro amigo, se vs no tendes pressa eu estou cheio dela.
E Aramis estendeu afectuosamente a mo ao seu camarada e despediu-se dele.
D'Artagnan no conseguiu, por mais que se esforasse, saber mais nada a respeito dos seus trs novos amigos. Tomou portanto o partido de crer no presente tudo o 
que se dizia do seu passado e de esperar revelaes mais seguras e completas no futuro. Entretanto, considerou Athos um Aquiles, Portos um jax e Aramis um Jos.
No mais a vida dos quatro rapazes era divertida: Athos jogava e perdia sempre. No entanto, nunca pedia um soldo emprestado aos amigos, embora a sua bolsa estivesse 
constantemente s ordens deles, e quando jogava sob palavra e perdia obrigava sempre o credor a levantar-se s seis da manh para lhe pagar a dvida da vspera.
Porthos tinha impulsos. Nesses dias, se ganhava, mostrava-se insolente e esplndido; se perdia, desaparecia por completo durante dias, depois dos quais reaparecia 
macilento e triste, mas com dinheiro nos bolsos.
Quanto a Aramis, nunca jogava. Era sem dvida o pior mosqueteiro e o mais maador conviva que se podia imaginar. Tinha sempre necessidade de trabalhar. s vezes, 
no meio de um jantar, quando todos, levados pelo vinho e no calor da conversa, julgavam que ainda tinham de ficar  mesa duas ou trs horas, Aramis consultava o 
relgio, levantava-se com um sorriso gracioso e despedia-se para ir, dizia, consultar um casusta com o qual marcara encontro. Outras vezes, regressava a casa para 
escrever uma tese e rogava aos amigos que no o interrompessem.
Entretanto, Athos sorria com o agradvel sorriso melanclico que to bem ficava  sua nobre figura, e Porthos bebia jurando que Aramis nunca passaria de um proco 
de aldeia.
Planchet, o criado de d'Artagnan, suportou nobremente a sua sorte. Recebia trinta soldos por dia e durante um ms regressava a casa alegre como um pardal e afvel 
para com o amo. Mas quando o vento da adversidade comeou a soprar sobre o lar da Rua dos Fossoyeurs, isto , quando as quarenta pistolas do rei Lus XIII foram 
comidas ou pouco mais, desatou numas lamrias que Athos achou nauseabundas, Porthos indecentes e Aramis ridculas.

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Athos aconselhou portanto d'Artagnan a despedir o patusco, Porthos foi de parecer que se lhe deviam dar primeiro umas bastonadas e Aramis declarou que um amo s 
devia dar ouvidos aos cumprimentos que lhe dirigissem.
- Isso  muito fcil de dizer - redarguiu d'Artagnan. - A vs, Athos, que viveis mudo com Grimaud, que o proibis de falar, e que portanto nunca trocais ms palavras 
com ele; a vs, Porthos, que tendes um nvel de vida magnfico e sois um deus para o vosso criado Mousqueton; a vs, finalmente, Aramis, que sempre absorvido nos 
vossos estudos teolgicos inspirais profundo respeito ao vosso criado Bazin, homem afvel e religioso; mas eu que sou um z-ningum sem recursos, eu que no sou 
mosqueteiro nem sequer guarda, que posso fazer para inspirar afeio, terror ou respeito a Planchet?
- O caso  grave - responderam os trs amigos. -  um assunto domstico; e tanto os criados como as mulheres devem ser postos imediatamente no p em que se deseja 
que fiquem. Reflecti, pois.
D'Artagnan reflectiu e resolveu, para comear, dar uma sova a Planchet, o que foi feito com a conscincia que d'Artagnan punha em todas as coisas; em seguida, depois 
de o ter sovado bem, proibiu-o de deixar o seu servio sem sua permisso.
- Porque - acrescentou - o futuro pertence-me; espero inevitavelmente tempos melhores. A tua fortuna estar portanto garantida se ficares comigo, e eu sou demasiado 
bom amo para te deixar perderes a tua fortuna concedendo-te a demisso que me pedes.
Esta maneira de agir inspirou muito respeito aos mosqueteiros pela poltica de d'Artagnan. Planchet ficou igualmente admiradssimo e nunca mais falou em se ir embora.
A vida dos quatro rapazes tornara-se comum; d'Artagnan, que no tinha nenhum hbito, pois chegara da provncia e cara no meio de um mundo inteiramente novo para 
si, adquiriu sem demora os hbitos dos amigos.
Levantavam-se por volta das oito horas no Inverno e por volta das seis no Vero e iam saber o santo-e-senha e como corriam as coisas ao palcio do Sr. de Trville. 
Embora no fosse mosqueteiro, d'Artagnan fazia o servio com uma pontualidade impressionante: estava sempre de guarda, pois fazia sempre companhia quele dos seus 
trs amigos que tivesse sido escalado para isso. Conheciam-no no aquartelamento dos mosqueteiros e todos o consideravam um bom camarada; o Sr. de Trville, que o 
apreciara  primeira vista de olhos e lhe dedicava sincera afeio, no se cansava de o recomendar ao rei.
Pela sua parte, os trs mosqueteiros gostavam muito do seu jovem camarada. A amizade que unia os quatro homens e a necessidade de se verem trs ou quatro vezes por 
dia, fosse para duelo, fosse para negcios, fosse por prazer, levava-os a correrem constantemente uns atrs dos outros como sombras; e encontrava-se sempre os inseparveis 
procurando-se do Luxemburgo  Praa de Saint-Sulpice, ou da Rua do Vieux-Colombier ao Luxemburgo.
Entretanto, as promessas do Sr. de Trville seguiam o seu caminho.

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Um belo dia, o rei ordenou ao Sr. Cavaleiro dos Essarts que alistasse d'Artagnan como cadete na sua companhia de guardas. D'Artagnan envergou suspirando o uniforme, 
que daria dez anos da sua existncia para trocar pela sobreveste de mosqueteiro. Mas o Sr. de Trville prometeu essa merc depois de um noviciado de dois anos - 
noviciado que de resto poderia ser abreviado se surgisse a oportunidade de d'Artagnan prestar qualquer servio ao rei ou praticar alguma aco brilhante. D'Artagnan 
retirou-se com esta promessa e no dia seguinte comeou o seu servio.
Foi ento a vez de Athos, Porthos e Aramis montarem guarda com d'Artagnan quando ele estava de servio. A companhia do Sr. Cavaleiro dos Essarts adquiriu assim quatro 
homens em vez de um no dia em que alistou d'Artagnan.


        VIII - UMA INTRIGA DE CORTE


        Entretanto, as quarenta pistolas do rei Lus XIII, como todas as coisas deste mundo, depois de terem um princpio tinham tido um fim, e a partir desse fim 
os nossos quatro companheiros caram na penria. Primeiro, Athos sustentara durante algum tempo a associao do seu prprio bolso. Sucedera-lhe Porthos, que, graas 
a um dos seus desaparecimentos aos quais estavam habituados, conseguira durante cerca de mais quinze dias satisfazer as necessidades de todos; por fim chegara a 
vez de Aramis, que se desobrigara dela de boa vontade e conseguira, dizia, vendendo os seus livros de teologia, arranjar algumas pistolas.
Como de costume, recorreram ento ao Sr. de Trville, que fez alguns adiantamentos sobre o soldo; mas esses adiantamentos no podiam levar muito longe trs mosqueteiros 
que tinham j muitas contas atrasadas e um guarda que ainda as no tinha.
Enfim, quando viram que o dinheiro ia faltar por completo, reuniram num derradeiro esforo oito ou dez pistolas que Porthos jogou. Infelizmente, estava em mar de 
azar e perdeu tudo e mais vinte e cinco pistolas sob palavra.
Ento a penria transformou-se em misria. Viram-nos famintos, seguidos dos criados, correr os cais e as casas de guarda e arrebanhar junto dos amigos de fora todos 
os jantares que lhe puderam apanhar; porque, na opinio de Aramis, devia-se na prosperidade distribuir refeies a torto e a direito para apanhar algumas na desgraa.
Athos foi convidado quatro vezes e de todas as vezes levou consigo os seus amigos e os respectivos criados, Porthos teve seis convites, dos quais fez igualmente 
beneficiar os seus camaradas, e Aramis teve oito. Como j tivemos ensejo de verificar, tratava-se de um homem que fazia pouco barulho e muito trabalho.

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Quanto a d'Artagnan, que ainda no conhecia ningum na capital, s arranjou um pequeno-almoo de chocolate em casa de um padre da sua regio e um jantar em casa 
de um porta-estandarte dos guardas. Mesmo assim, levou o seu exrcito a casa do padre, a quem devoraram as provises de dois meses, e a casa do porta-estandarte, 
que fez maravilhas; mas, como dizia Planchet, no se come apenas uma vez, mesmo quando se come muito.
D'Artagnan sentiu-se portanto muito humilhado por no ter conseguido mais do que refeio e meia, pois o pequeno-almoo em casa do padre s podia ser considerado 
meia refeio, para oferecer aos companheiros em troca dos festins que tinham arranjado Athos, Porthos e Aramis. Julgava-se a viver  custa dos amigos, esquecendo 
na sua boa f to juvenil que os alimentara durante um ms, e o seu esprito preocupado ps-se a trabalhar activamente. Considerou que aquela aliana de quatro homens 
novos, valentes, empreendedores e activos devia ter uma finalidade diferente dos passeios exibicionistas, das lies de esgrima e das chalaas mais ou menos espirituosas.
Com efeito, quatro homens como eles, quatro homens dedicados uns aos outros desde a bolsa at  vida, quatro homens que se ajudavam sempre, que nunca recuavam, que 
executavam isoladamente ou em conjunto as resolues tomadas em comum; quatro braos que ameaavam os quatro pontos cardeais ou se viravam para um nico ponto, tinham 
por fora, quer subterraneamente, quer  luz do dia, quer atravs da mina, quer atravs da trincheira, quer pela astcia, quer pela fora, de abrir caminho na direco 
do fim que pretendiam alcanar, por melhor defendido ou por mais afastado que estivesse. A nica coisa que surpreendia d'Artagnan era que os companheiros no tivessem 
pensado nisso.
Mas pensava ele, e at muito a srio, dando tratos ao miolo para encontrar uma direco quela fora nica, quatro vezes multiplicada, com a qual no duvidava que, 
como com a alavanca que procurava Arquimedes, conseguiriam levantar o mundo; e estava nisso quando bateram devagarinho  porta. D'Artagnan acordou Planchet e ordenou-lhe 
que fosse abrir.
Por esta frase "d'Artagnan acordou Planchet" no imagine o leitor que era de noite ou que o dia ainda no nascera. No! Acabavam de dar quatro horas da tarde. Duas 
horas antes, Planchet viera pedir almoo ao amo, o qual lhe respondera como provrbio: "Quem dorme almoa." E Planchet almoava dormindo.
Entrou um homem de ar bastante simples e aspecto de burgus.
Para lhe servir de sobremesa, Planchet no se importaria de ouvir a conversa; mas o burgus declarou a d'Artagnan que o que tinha para lhe dizer era to importante 
e confidencial que desejava ficar a ss com ele.
D'Artagnan mandou Planchet embora e convidou o visitante a sentar-se.
Houve um momento de silncio durante o qual os dois homens se observaram como que para estabelecerem um conhecimento prvio;

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depois disso, d'Artagnan inclinou-se em sinal de que escutava.
- Ouvi falar do Sr. d'Artagnan como de um jovem muito valente - disse o burgus -, e essa reputao de que goza com justia decidiu-me a confiar-lhe um segredo.
- Falai, senhor, falai - animou-o d'Artagnan, que instintivamente farejara algo vantajoso.
O burgus fez nova pausa e continuou:
- A minha mulher  roupeira da rainha, senhor, e no lhe falta sensatez nem beleza. Casei com ela est a fazer trs anos, apesar de s ter um pequeno dote. porque 
o Sr. de La Porte, o porta-manta da rainha,  seu padrinho e protege-a...
- E depois, senhor? - perguntou d'Artagnan.
- Depois... - repetiu o burgus - depois... senhor, a minha mulher foi raptada ontem de manh quando saa do trabalho.
- E quem a raptou?
- No tenho a certeza, senhor, mas desconfio de algum...
- E quem  a pessoa de quem desconfiais?
- Um homem que a perseguia havia muito tempo.
- Diabo!
- Mas permiti-me que vos diga, senhor - continuou o burgus -, que estou convencido de que h menos amor do que poltica em tudo isto.
- Menos amor do que poltica... - repetiu d'Artagnan, com ar muito pensativo. - De que suspeitais?
- No sei se deverei dizer-vos de que suspeito...
- Senhor, observo-vos que no vos pedi absolutamente nada. Vs  que me procurastes. Fostes vs que me dissestes que tnheis um segredo para me confiar. Fazei portanto 
como vos aprouver, pois ainda estais a tempo de vos retirar.
- No, senhor, no. Pareceis-me um jovem honesto e confiarei em vs. Creio, como dizia, que no foi por causa dos seus amores que a minha mulher foi presa, mas sim 
por causa dos de uma dama maior do que
ela.
- Ah, ah! Ter sido por causa dos amores da Sr.a de Bois-Tracy? - perguntou d'Artagnan, que quis dar-se ares, na presena do seu burgus, de estar ao corrente do 
que se passava na corte.
- Mais alto, senhor, mais alto.
- Da Sr.a de Aiguillon?
- Ainda mais alto.
- Da Sr.a de Chevreuse?
- Mais alto, muito mais alto!
- Da... - d'Artagnan deteve-se.
- Sim, senhor - respondeu to baixo que mal se ouviu o assustado burgus.
- E com quem?
- Com quem havia de ser seno com o duque de...

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- O duque de...
- Sim, senhor! - respondeu o burgus, dando  voz uma intonao ainda mais abafada.
- Mas como sabeis tudo isso?
- Ora, como sei!...
- Sim, como sabeis? Nada de meias confidncias ou.., Creio que compreendeis.
- Sei-o pela minha mulher, senhor, pela minha prpria mulher.
- Que o sabe por quem?
- Pelo Sr. de La Porte. No vos disse j que ela era afilhada do Sr. de La Porte, o homem de confiana da rainha? Pois bem, o Sr. de La Porte colocou-a junto de 
Sua Majestade para que a nossa pobre rainha tivesse ao menos algum em quem confiar, abandonada como est pelo rei, espiada como  pelo cardeal, atraioada como 
 por todos.
- Comeo a perceber - declarou d'Artagnan.
- Ora a minha mulher veio h quatro dias, senhor; uma das suas condies era vir ver-me duas vezes por semana; porque, como tive a honra de vos dizer, a minha mulher 
ama-me muito. Portanto, a minha mulher veio e confidenciou-me que a rainha estava cheia de medo...
- Deveras?
- Deveras. Ao que parece, o Sr. Cardeal persegue-a e importuna-a mais do que nunca. No lhe perdoa a histria da sarabanda. Conheceis a histria da sarabanda?
- Se conheo! - respondeu d'Artagnan, que no sabia absolutamente nada a tal respeito, mas queria ter o ar de estar ao corrente.
- De modo que, agora, j se no trata de dio, trata-se de vingana. -Sim?...
- E a rainha cr...
- Que cr a rainha?
- Cr que escreveram ao Sr. Duque de Buckingham em seu nome.
- Em nome da rainha?
- Sim, para o obrigar a vir a Paris, e uma vez em Paris atrarem-no a qualquer cilada.
- Diabo! Mas a vossa mulher, meu caro senhor, em que  metida e achada em tudo isso?
- Conhecem a sua dedicao  rainha e querem ou afast-la da ama ou intimid-la para saberem os segredos de Sua Majestade ou seduzi-la para se servirem dela como 
espia.
-  provvel - concordou d'Artagnan. - Mas conheceis o homem que a raptou?
- J vos disse que julgava conhec-lo.
- Como se chama?
- No sei; sei apenas que  criatura do cardeal, a sua alma danada.
- Mas alguma vez o vistes?
- Vi. A minha mulher mostrou-mo um dia.
- Tem alguma particularidade por onde se possa reconhec-lo?

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- Oh, evidentemente!  um fidalgo bem parecido, de cabelo preto, moreno, dentes brancos, olhar penetrante e uma cicatriz na tmpora.
- Uma cicatriz na tmpora! - exclamou d'Artagnan. - E alm disso dentes brancos, olhar penetrante, moreno, cabelo preto e bem parecido...  o meu homem de Meung!
-  o vosso homem, dizeis?
- Sim, sim; mas isso no vem para o caso. No, engano-me, isso simplifica tudo, pelo contrrio: se o vosso homem  o meu, matarei dois coelhos de uma cajadada. Mas 
onde se pode encontrar esse homem?
- No sei.
- No tendes nenhuma informao acerca da sua morada?
- Nenhuma. Um dia, quando acompanhava a minha mulher ao Louvre, ele saa na altura em que ela ia a entrar e ela indicou-mo.
- Diabo, diabo!... - murmurou d'Artagnan. - Tudo isso  muito vago. Por quem soubestes do rapto da vossa mulher?
- Pelo Sr. de La Porte.
- Deu-vos algum pormenor?
- No tinha nenhum.
- E no soubestes nada por outro lado?
- De facto, recebi...
- O qu?
- Mas no sei se no cometerei uma grande imprudncia...
- L voltais  mesma! Em todo o caso, sempre vos digo que desta vez  um pouco tarde para recuar.
- Por isso no recuo, com mil demnios! - exclamou o burgus, praguejando para mostrar que estava decidido. - Alis, palavra de Bonacieux.
- Chamais-vos Bonacieux? - interrompeu-o d'Artagnan.
- Sim,  o meu nome.
- Dizeis portanto: "Palavra de Bonacieux!" Desculpai ter-vos interrompido, mas pareceu-me que esse nome me no era desconhecido.
-  possvel, senhor. Sou o vosso senhorio.
- Ah, sim?! - exclamou d'Artagnan, soerguendo-se para o cumprimentar. - Sois ento o meu senhorio?...
- Pois sou, senhor, pois sou. E como desde que h trs meses sois meu inquilino, e distrado sem dvida pelas vossas grandes ocupaes, vos esquecestes de me pagar 
a renda; e como, insisto, no vos incomodei um s instante por isso, pensei que tereis em conta a minha delicadeza...
- Ora essa, meu caro Sr. Bonacieux! - redarguiu d'Artagnan. - Crede que vos estou reconhecidssimo por semelhante procedimento e que, como j vos disse, se puder 
ser-vos til nalguma coisa...
- Acredito, senhor, acredito, e como ia a dizer, palavra de Bonacieux, tenho confiana em vs.
- Acabai ento o que tnheis comeado a dizer-me.
O burgus tirou um papel da algibeira e estendeu-o a d'Artagnan.
- Uma carta! - exclamou o jovem.

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- Que recebi esta manh.
D'Artagnan abriu-a e como o dia comeava a escurecer aproximou-se da janela. O burgus seguiu-o.
"No procureis a vossa mulher", leu d'Artagnan. "Ser-vos- restituda quando j no precisarmos dela. Se fizerdes s que seja uma diligncia para a encontrar, estareis 
perdido."
- Aqui est uma coisa positiva - comentou d'Artagnan. - Mas, no fim de contas, no passa de uma ameaa.
- Sim, mas de uma ameaa que me assusta! Eu, senhor, no sou homem de espada e tenho medo da Bastilha.
- Hum!... - resmungou d'Artagnan. - Tambm no gosto mais da Bastilha do que vs. Se se tratasse apenas de umas estocadas, ainda v...
- Mas eu tinha contado convosco neste aperto, senhor! -Sim?
- Vendo-vos constantemente rodeado de mosqueteiros com um ar to soberbo, e reconhecendo que esses mosqueteiros eram os do Sr. de Trville e por consequncia inimigos 
do cardeal, pensei que vs e os vossos amigos, fazendo justia  nossa pobre rainha, ficareis encantados por pregar uma partida a Sua Eminncia.
- Sem dvida.
- E tambm pensei que devendo-me trs meses de renda, de que nunca vos falei...
- Claro, claro! J me apresentastes essa razo, que me parece excelente.
- Alm disso, se me derdes a honra de continuar a ser meu inquilino, prometo nunca mais falar nos alugueres futuros...
- ptimo!
- E acrescento, acaso seja necessrio, que tenciono oferecer-vos umas cinquenta pistolas se, contra todas as probabilidades, necessitardes de dinheiro neste momento.
- Maravilhoso! Sois portanto rico, meu caro Sr. Bonacieux?
- Vivo com desafogo,  o termo; amealhei qualquer coisa como dois ou trs mil escudos de rendimento no comrcio de retrosaria, e sobretudo colocando alguns fundos 
na ltima viagem do clebre navegador Jean Mocquet. De modo que, como compreendeis, senhor... Ah! Mas... - gritou o burgus.
- Que foi? - perguntou d'Artagnan.
- Que vedes ali?
- Onde?
- Na rua, diante das vossas janelas, no vo daquela porta: um homem envolto numa capa.
-  ele! - gritaram ao mesmo tempo d'Artagnan e o burgus, ao reconhecerem o seu homem.
- Ah, desta vez - gritou d'Artagnan saltando para a espada -, desta vez no me escapar!
E desembainhando a espada precipitou-se para fora do apartamento.

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Encontrou na escada Athos e Porthos que o vinham visitar. Afastaram-se e d'Artagnan passou entre eles como uma seta.
- Que  isso, aonde vais a correr assim? - gritaram-lhe ao mesmo tempo os dois mosqueteiros.
- O homem de Meung! - respondeu d'Artagnan, e desapareceu. D'Artagnan contara mais de uma vez aos amigos a sua aventura
com o desconhecido, assim como a apario da bela viajante, a quem o homem parecera confiar uma missiva importante.
Na opinio de Athos, d'Artagnan perdera a sua carta na zaragata. Segundo ele, um gentil-homem - e pela descrio que d'Artagnan fizera do desconhecido s podia ser 
um gentil-homem -, um gentil-homem seria incapaz da baixeza de roubar uma carta.
Porthos, por seu turno, vira apenas em tudo aquilo um encontro amoroso marcado por uma dama a um cavalheiro ou por um cavalheiro a uma dama, que fora perturbado 
pela presena de d'Artagnan e do seu cavalo amarelo.
Aramis declarara que, dada a natureza misteriosa dessas coisas, era prefervel no as aprofundar.
Compreenderam portanto, pelas poucas palavras proferidas por d'Artagnan, do que se tratava, e como pensaram que depois de apanhar o seu homem ou de o perder de vista 
d'Artagnan acabaria por regressar a casa, continuaram o seu caminho.
Quando entraram no quarto de d'Artagnan o quarto estava vazio: o senhorio, temendo as consequncias do recontro que sem dvida se verificaria entre o jovem e o desconhecido, 
julgara, de acordo com a exposio que ele prprio fizera do seu carcter, ser mais prudente pr-se ao fresco.


        IX - D'ARTAGNAN SALIENTA-SE


        Como Athos e Porthos tinham previsto, d'Artagnan regressou passada meia hora. Ainda desta vez perdera o seu homem de vista, o qual desaparecera como que 
por encanto. D'Artagnan correra, de espada em punho, todas as ruas vizinhas, mas no encontrara ningum parecido com quem procurava, e por fim chegara  concluso 
que talvez devesse ter comeado por bater  porta a que o desconhecido estava encostado; mas em vo fizera ressoar dez ou doze vezes seguidas a aldrabada: ningum 
respondera e os vizinhos que, atrados pelo barulho, tinham acorrido  soleira das suas portas ou deitado o nariz fora das suas janelas garantiram-lhe que aquela 
casa, que de resto tinha todas as janelas fechadas, estava completamente desabitada havia seis meses.
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Enquanto d'Artagnan corria as ruas e batia s portas, Aramis viera juntar-se aos seus dois camaradas, de modo que quando regressou a casa d'Artagnan encontrou a 
reunio completa.
- Ento? - perguntaram em unssono os trs mosqueteiros ao verem entrar d'Artagnan com o suor a escorrer-lhe da testa e o rosto desfigurado pela clera.       
- Ento - respondeu atirando a espada para cima da cama -, o homem deve ser o Diabo personificado; desapareceu como um fantasma, como uma sombra, como um espectro.
- Acreditais em aparies? - perguntou Athos e Porthos.
- S acredito no que vejo, e como nunca vi nenhuma apario no acredito nelas.
- A Bblia impe-nos o dever de acreditarmos: o fantasma de Samuel apareceu a Saul; trata-se de um artigo de f que me desagradaria ver pr em dvida, Porthos.
- Seja como for, homem ou diabo, corpo ou sombra, iluso ou realidade, esse homem nasceu para minha danao, pois a sua fuga faz-nos perder um negcio soberbo, meus 
senhores, um negcio em que havia cem pistolas e talvez mais a ganhar.
- Como assim?! - exclamaram ao mesmo tempo Porthos e Aramis. Quanto a Athos, fiel ao seu sistema de mutismo, limitou-se a interrogar d'Artagnan com a vista.
- Planchet - disse d'Artagnan ao criado, que metia naquele momento a cabea pela porta entreaberta para procurar surpreender alguns pedaos da conversa -, desci 
a casa do meu senhorio, Sr. Bonacieux, e dizei-lhe que nos mande meia dzia de garrafas de vinho de Beaugency.  o que prefiro.
- Ol! - exclamou Porthos. - Querer isso dizer que tendes crdito aberto junto do vosso senhorio?...
- Pois tenho - respondeu d'Artagnan. - Tenho a partir de hoje e podeis estar tranquilos que se o seu vinho no prestar o mandaremos arranjar outro.
- Convm usar mas no abusar - sentenciou Aramis.
- Sempre disse que d'Artagnan era a grande cabea de ns quatro - observou Athos, que depois de emitir esta opinio,  qual d'Artagnan respondeu com uma saudao, 
voltou a cair imediatamente no seu silncio habitual.
- Mas enfim, vejamos, que se passa? - perguntou Porthos.
- Sim - secundou-o Aramis -, dizei-nos, caro amigo, a menos que a honra de alguma dama possa ser afectada pela confidncia, pois nesse caso fareis melhor calar-vos.
- Estais tranquilos - respondeu d'Artagnan -, ningum ver a sua honra ferida pelo que tenho para vos dizer.
E ento contou, palavra por palavra, aos amigos o que acabara de se passar entre ele e o seu senhorio e como o homem que raptara a mulher do digno proprietrio era 
o mesmo com quem tinha contas a ajustar desde a estalagem do Franc Meunier.

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- O negcio no  mau - disse Athos, depois de provar o vinho como conhecedor e de indicar com um sinal de cabea que o achava bom. - De facto, poderemos apanhar 
a esse bom homem cinquenta a sessenta pistolas. S resta saber se valer a pena arriscar quatro cabeas por cinquenta a sessenta pistolas.
- No vos esqueais - gritou d'Artagnan - de que h uma mulher metida no caso! Uma mulher raptada, uma mulher que sem dvida ameaam, que talvez torturem, e tudo 
isso por ser fiel  sua ama!
- Cautela, d'Artagnan, cautela... - recomendou-lhe Aramis. - Na minha opinio, preocupai-vos de mais com a sorte da Sr.a Bonacieux. A mulher foi criada para nos 
perder e  dela que nos vm todos os males.
Ao ouvir esta sentena, Athos franziu o sobrolho e mordeu os lbios.
- No  a Sr.a Bonacieux que me preocupa - defendeu-se d'Artagnan -, mas sim a rainha, que o rei abandona, que o cardeal persegue e que v cair, uma aps outra, 
as cabeas de todos os seus amigos.
- Por que gosta ela do que ns mais detestamos no mundo, os Espanhis e os Ingleses?
- A Espanha  a sua ptria - respondeu d'Artagnan -, e  naturalssimo que goste dos Espanhis, que so filhos da mesma terra que ela. Quanto  segunda censura que 
lhe fazeis, ouvi dizer que gostava no dos Ingleses, mas sim de um ingls.
- E dou-vos a minha palavra de que esse ingls  bem digno de ser amado,  mister confess-lo - declarou Athos. - Nunca vi maior distino do que a sua.
- Sem contar que se veste como ningum - acrescentou Porthos. - Estava no Louvre no dia em que distribuiu as suas prolas e, por Deus, apanhei duas que vendi bem 
vendidas por dez pistolas cada uma. E tu, Aramis, conhece-lo?
- To bem como vs, meus senhores, pois fui um dos que o detiveram no jardim de Amiens, onde me introduzira o Sr. de Putange, o escudeiro da rainha. Estava no seminrio 
nessa poca e a aventura pareceu-me cruel para o rei.
- O que no me impediria - declarou d'Artagnan -, se soubesse onde est o duque de Buckingham, de lhe pegar na mo e conduzi-lo junto da rainha, quanto mais no 
fosse s para enraivecer o cardeal! Porque o nosso verdadeiro, o nosso nico, o nosso eterno inimigo, meus senhores,  o cardeal, e se consegussemos descobrir maneira 
de lhe pregar uma partida bastante cruel confesso que arriscaria na empresa, de boa vontade, a cabea.
- E o retroseiro disse-vos, d'Artagnan, que a rainha pensava que tinham mandado vir Buckingham com um falso aviso? - perguntou Athos.
- Ela receia que sim.
- Esperai - pediu Aramis.
- O qu? - perguntou Porthos.
- Ides muito depressa; procuro recordar-me das circunstncias.

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- E agora estou convencido - prosseguiu d'Artagnan - de que o rapto dessa criada da rainha est relacionado com os acontecimentos de que falamos, e talvez com a 
presena do Sr. de Buckingham em Paris.
- O gasco est cheio de ideias - comentou Porthos com admirao.
- Gosto muito de o ouvir falar - declarou Athos. - A sua linguagem diverte-me.
- Meus senhores - insistiu Aramis -, escutai isto.
- Estamos a escutar - responderam os trs amigos.
- Ontem, encontrava-me em casa de um sbio doutor em Teologia que s vezes consulto por causa dos meus estudos...
Athos sorriu.
- Ele mora num bairro deserto - continuou Aramis. - Os seus gostos e a sua profisso exigem-no. Ora, no momento em que saa de sua casa...
Aqui, Aramis deteve-se.
- Ento? - impacientaram-se os seus ouvintes. - No momento em que saeis de sua casa...
Aramis pareceu fazer um esforo sobre si mesmo, como um homem que em plena corrente de mentira se visse detido por algum obstculo imprevisto; mas os olhos dos seus 
trs companheiros estavam cravados nele e os seus ouvidos esperavam atentos e era impossvel recuar.
- O doutor tem uma sobrinha - continuou Aramis.
- Ah, tem uma sobrinha!... - exclamou Porthos.
- Senhora muito respeitvel - acrescentou Aramis. Os trs amigos desataram a rir.
- Ah, se rides ou se duvidais, no sabereis nada! - redarguiu Aramis.
- Somos crentes como maometanos e mudos como tmulos - adiantou Athos.
- Nesse caso, continuo - acedeu Aramis. - A sobrinha vai de vez em quando visitar o tio; ora ela encontrava-se l em casa ao mesmo tempo que eu, por acaso, e tive 
de me oferecer para a acompanhar  sua carruagem.
- Ah, ela tem carruagem, a sobrinha do doutor? - interrompeu Porthos, que tinha o defeito de uma grande incontinncia de linguagem. - Que rico conhecimento, meu 
amigo!
- Porthos - replicou Aramis -, j por mais de uma vez vos observei que reis muito indiscreto e que isso vos prejudicava junto das mulheres.
- Ento, meus senhores, meus senhores! - exclamou d'Artagnan, que entrevia o fundo da aventura. - O caso  srio; procuremos portanto no gracejar, se possvel. 
Continuai, Aramis, continuai.
- De sbito, um homem alto, moreno, de maneira de gentil-homem... olhai, do gnero do vosso, d'Artagnan.
- Talvez o mesmo - sugeriu este.

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-  possvel - admitiu Aramis. - ...Aproximou-se de mim, acompanhado de cinco ou seis homens que o seguiam dez passos atrs e disse, no tom mais delicado que se 
possa imaginar: "Sr. Duque, e vs, senhora", continuou dirigindo-se  dama que seguia pelo meu brao...
-  sobrinha do doutor?
- Silncio, Porthos! - interveio Athos. - Sois insuportvel.
- "Dignai-vos subir para essa carruagem, sem tentardes a mais pequena resistncia e sem fazerdes o mais pequeno barulho."
- Tomou-vos por Buckingham! - exclamou d'Artagnan.
- Creio que sim - respondeu Aramis.
- E a dama? - perguntou Porthos.
- Tomou-a pela rainha! - exclamou d'Artagnan.
- Justamente - respondeu Aramis.
- Este gasco  o Diabo! - exclamou Athos. - Nada lhe escapa.
- A verdade  que Aramis  da estatura e tem qualquer coisa do aspecto do belo duque - disse Porthos. - Mas mesmo assim parece-me que o uniforme de mosqueteiro...
- Eu tinha uma capa enorme - disse Aramis.
- Em Julho? - estranhou Porthos. - O doutor receia que sejas reconhecido?
- Compreendo agora que o espio se tenha deixado enganar pelo aspecto - disse Athos. - Mas o rosto...
- Eu tinha um grande chapu - esclareceu Aramis.
- Meu Deus, tantas precaues para estudar Teologia! - exclamou Porthos.
- Ento, meus senhores, ento - interveio d'Artagnan. - No percamos o nosso tempo com brincadeiras. Espalhemo-nos e procuremos a mulher do retroseiro, que  a chave 
da intriga.
- Uma mulher de condio inferior! Parece-vos, d'Artagnan? - perguntou Porthos, estendendo os lbios com desdm.
-  afilhada de La Porte, o criado de confiana da rainha. No vo-lo disse j, senhores? Alis, talvez tenha sido por clculo que Sua Majestade procurou desta vez 
apoios to baixos. As cabeas altas vem-se de longe e o cardeal tem boa vista.
- Bem, fixai primeiro o preo com o retroseiro, e bom preo - sugeriu Porthos.
-  intil - respondeu d'Artagnan -, pois creio que se ele no nos pagar seremos suficientemente pagos por outro lado.
Neste momento ouviu-se na escada o barulho de passos precipitados, a porta abriu-se com estrpito e o pobre retroseiro lanou-se no quarto onde estava reunido o 
conselho.
- Ah, meus senhores, salvai-me por amor de Deus, salvai-me! - gritou. - Vm a quatro homens para me prender. Salvai-me, salvai-me!
Porthos e Aramis levantaram-se.
- Um momento! - gritou d'Artagnan, fazendo-lhes sinal para embainharem as espadas j meio desembainhadas. - Um momento! O que  preciso aqui no  coragem,  prudncia.

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- Mas no vamos deixar... - comeou Porthos.
- Deixai agir d'Artagnan - interveio Athos -, que , repito, a grande cabea de todos ns. Pelo que me diz respeito, declaro que lhe obedecerei. Fazei o que quiserdes, 
d'Artagnan.
Neste momento os quatro guardas apareceram  porta da antecmara e ao verem quatro mosqueteiros de p e de espada ao lado hesitaram em ir mais longe.
- Entrai, meus senhores, entrai! - convidou-os d'Artagnan. - Estais em minha casa e somos todos fiis servidores do rei e do Sr. Cardeal.
- Nesse caso, senhores, no vos oporeis a que cumpramos as ordens que recebemos? - perguntou o que parecia o chefe do grupo.
- Pelo contrrio, senhores, e at vos ajudaremos se for preciso.
- Que diz ele? - murmurou Porthos.
- Que s um nscio - respondeu Athos. - Silncio.
- Mas tnheis-me prometido... - disse baixinho o pobre retroseiro.
- S vos podemos salvar se permanecermos livres - respondeu rapidamente e tambm baixinho d'Artagnan. - E se tentarmos defender-vos prender-nos-o juntamente convosco.
- Mas parece-me...
- Entrai, senhores, entrai - disse d'Artagnan em voz alta. - No tenho nenhum motivo para defender este senhor. Vi-o hoje pela primeira vez e ainda por cima numa 
pssima ocasio, como ele prprio vos dir, para me vir exigir o pagamento da renda. No  verdade, Sr. Bonacieux? Respondei!
-  a pura verdade - reconheceu o retroseiro -, mas, senhor, no vos disse...
- Silncio a meu respeito, silncio a respeito dos meus amigos, silncio a respeito da rainha, sobretudo, ou perdereis toda a gente sem vos salvardes! Ide, ide, 
senhores, levai este homem.
E d'Artagnan empurrou o retroseiro, completamente aturdido, para as mos dos guardas, dizendo-lhe:
- Sois um velhaco, meu caro; virdes pedir-me dinheiro a mim, um mosqueteiro! Para a priso, senhores! Repito, levai-o para a priso e mantei-o fechado  chave o 
mais tempo possvel, a ver se entretanto arranjo o dinheiro para lhe pagar.
Os esbirros desfizeram-se em agradecimentos e levaram o preso. Quando desciam, d'Artagnan bateu no ombro do chefe:
- E se bebssemos eu  vossa sade e vs  minha? - sugeriu, e encheu dois copos de vinho de Beaugency, que devia  liberalidade do Sr. Bonacieux.
-  uma honra para mim - respondeu o chefe dos esbirros - e aceito com reconhecimento.
- Portanto,  vossa, senhor... Como vos chamais?
- Boisrenard.
- Sr. Boisrenard!

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-  vossa, meu gentil-homem. E j agora como vos chamais, por favor?
- D'Artagnan.
-  vossa, Sr. d'Artagnan.
- E acima de todas - gritou d'Artagnan como que arrebatado pelo seu entusiasmo -  sade do rei e do cardeal!
O chefe dos esbirros talvez duvidasse da sinceridade de d'Artagnan se o vinho fosse mau; mas o vinho era bom e isso convenceu-o.
- Mas que diabo de vilania cometestes? - perguntou Porthos quando o aguazil-chefe se juntou aos seus homens e os quatro amigos ficaram ss. - Irra, quatro mosqueteiros 
deixarem prender no meio deles um desgraado que pedia socorro! Um gentil-homem brindar com um beleguim!
- Porthos - disse Aramis -, Athos j te preveniu que eras um nscio e eu sou da sua opinio. D'Artagnan, s um grande homem, e quando estiveres no lugar do Sr. de 
Trville pedir-te-ei proteco para me darem uma abadia.
- Agora  que no percebo nada - observou Porthos. - Aprovais o que d'Artagnan acaba de fazer?
- Meu Deus, sem dvida nenhuma! - respondeu Athos. - E no s aprovo o que acaba de fazer como ainda o felicito.
- E agora, meus senhores - disse d'Artagnan, sem se dar ao incmodo de explicar o seu comportamento a Porthos -, todos por um e um por todos,  a nossa divisa, no 
 verdade?
- Mas... - comeou Porthos.
- Estende a mo e jura! - gritaram ao mesmo tempo Athos e Aramis.
Vencido pelo exemplo, mas resmungando entre dentes, Porthos estendeu a mo e os quatro amigos repetiram em unssono a frmula ditada por d'Artagnan: "Todos por um 
e um por todos."
- E agora, retire-se cada um para sua casa - disse d'Artagnan, como se nunca tivesse feito outra coisa toda a vida seno comandar. - Mas cuidado, porque a partir 
deste momento estamos em guerra com o cardeal.


        X - UMA RATOEIRA DO SCULO XVII


        A inveno da ratoeira no data dos nossos dias; desde que as sociedades se formaram e inventaram um polcia de qualquer espcie, essa polcia inventou por 
seu turno a ratoeira.
Como os nossos leitores talvez no estejam ainda familiarizados com o vocabulrio da Rua de Jerusalm,

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e como desde que escrevemos - j l vo cerca de quinze anos -  a primeira vez que empregamos esta palavra neste sentido, expliquemos-lhes o que  uma ratoeira.
Quando numa casa, qualquer que ela seja, se prende um indivduo suspeito de um crime de qualquer natureza, conserva-se a priso secreta; colocam-se quatro ou cinco 
homens emboscados na primeira diviso, abre-se a porta a toda a gente que bata, fecha-se atrs de quem entrar e prendem-se essas pessoas; deste modo, ao cabo de 
dois ou trs dias apanham-se quase todos os frequentadores da casa.
 a isto que se chama uma ratoeira.
Armou-se portanto uma ratoeira em casa de mestre Bonacieux e quem l apareceu foi preso e interrogado pelos homens do Sr. Cardeal. Escusado ser dizer que como uma 
passagem particular conduzia ao primeiro andar, onde morava d'Artagnan, aqueles que o procuravam estavam isentos de qualquer devassa.
Alis, os trs mosqueteiros eram os nicos que o visitavam. Tinham-se posto em campo, cada um por seu lado, mas no tinham encontrado nada, nada tinham descoberto. 
Athos fora at ao extremo de interrogar o Sr. de Trville, coisa que, dado o mutismo habitual do digno mosqueteiro, surpreendera muito o seu capito. Mas o Sr. de 
Trville no sabia nada, excepto que da ltima vez que vira o cardeal, o rei e a rainha, o cardeal tinha um ar muito preocupado, o rei estava inquieto e os olhos 
vermelhos da rainha indicavam que ela no dormira ou chorara. Mas esta ltima circunstncia pouco o impressionara, pois desde o seu casamento a rainha dormia pouco 
e chorava muito.
O Sr. de Trville recomendou em todo o caso a Athos o servio do rei e sobretudo da rainha, e pediu-lhe que fizesse a mesma recomendao aos seus camaradas.
Quanto a d'Artagnan, no saa de casa. Convertera o quarto em observatrio. Das janelas via chegar aqueles que depois eram presos; em seguida, como tirara alguns 
ladrilhos do pavimento, furara o forro e conseguira assim que apenas um tecto simples o separasse do quarto de baixo, onde procediam aos interrogatrios, ouvia tudo 
o que se passava entre os inquiridores e os acusados.
Os interrogatrios, precedidos de uma revista minuciosa da pessoa detida, eram quase sempre assim concebidos:
- A Sr.a Bonacieux entregou-vos alguma coisa para o marido ou para qualquer outra pessoa?
- O Sr. Bonacieux entregou-vos alguma coisa para a mulher ou para qualquer outra pessoa?
- Um e outro fizeram-vos qualquer confidncia de viva voz?
"Se soubessem alguma coisa, no interrogavam assim", disse para consigo d'Artagnan. "Mas que ser que procuram saber agora? Se o duque de Buckingham se encontra 
em Paris e se teve ou ter algum encontro com a rainha?"
D'Artagnan fixou-se nesta ideia, que depois de tudo o que ouvira no era improvvel.

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Entretanto, a ratoeira funcionava permanentemente e a vigilncia de d'Artagnan tambm.
No dia seguinte ao da priso do pobre Bonacieux,  noite, quando Athos acabava de deixar d'Artagnan para ir ao palcio do Sr. de Trville, acabavam de dar nove horas 
e Planchet, que ainda no fizera a cama, comeava a sua tarefa, bateram  porta da rua; a porta abriu-se e fechou-se imediatamente: acabava de cair algum na ratoeira.
D'Artagnan correu para o stio desladrilhado, deitou-se de bruos e escutou.
No tardou a ouvir gritos e depois gemidos que procuravam abafar. De interrogatrio, nada.
"Diabo", disse d'Artagnan para consigo, " parece-me que  uma mulher; revistam-na, resiste... violentam-na... os miserveis!"
E d'Artagnan, apesar da sua prudncia, continha-se a custo para no interferir na cena que se passava debaixo de si.
- Mas repito-vos que sou a dona da casa, meus senhores; repito-vos que sou a Sr.a Bonacieux; repito-vos que estou ao servio da rainha! - gritava a pobre mulher.
- A Sr.a Bonacieux! - murmurou d'Artagnan. - Terei tanta sorte que descobri o que toda a gente procura?
- Era precisamente vs quem espervamos - insistiram os interrogadores.
A voz tornou-se cada vez mais abafada; um movimento tumultuoso fez vibrar os madeiramentos. A vtima resistia tanto quanto uma mulher pode resistir a quatro homens.
- Perdo, senhores, per... - murmurou a voz, que depois s conseguiu emitir sons inarticulados.
- Amordaam-na, vo-na levar! - exclamou d'Artagnan, levantando-se como que impelido por uma mola. - A minha espada? Bom, tenho-a ao lado. Planchet!
- Senhor?
- Corre a buscar Athos, Porthos e Aramis. Um dos trs estar com certeza em casa, talvez todos os trs tenham j recolhido. Que peguem nas armas e venham, que corram. 
Ah, agora me lembro: Athos est com o Sr. de Trville!
- Mas aonde ides, senhor, aonde ides?
- Deso pela janela a fim de chegar mais cedo. Coloca os ladrilhos no seu lugar, varre o cho, sai pela porta e corre aonde te disse.
- Oh, senhor, senhor, ides matar-vos! - gritou Planchet.
- Cala-te, imbecil - redarguiu d'Artagnan.
E agarrando-se com as mos ao rebordo da janela, deixou-se cair do primeiro andar, que felizmente no era alto, sem fazer um arranho. Depois foi imediatamente bater 
 porta, murmurando:
- Vou deixar-me cair na ratoeira e ai dos gatos que se atirarem a semelhante rato!...
Assim que a aldraba ressoou pela mo do jovem, o tumulto cessou, aproximaram-se passos, a porta abriu-se e d'Artagnan,

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de espada desembainhada, lanou-se no apartamento de mestre Bonacieux, cuja porta, sem dvida accionada por uma mola, se fechou por si mesma atrs dele.
Ento aqueles que ainda se encontravam na malfadada casa de Bonacieux e os vizinhos mais prximos ouviram grandes gritos, correrias, tinido de espadas e rudo prolongado 
de mveis. Pouco depois, aqueles que surpreendidos pelo barulho tinham vindo s janelas para averiguarem a sua causa, viram a porta tornar a abrir-se e quatro homens 
vestidos de preto, no sarem, mas sim levantarem voo como corvos espavoridos, deixando no cho e nas esquinas das mesas penas da asas, isto , farrapos dos seus 
fatos e restos das suas capas.
D'Artagnan sara vencedor sem muita dificuldade, deve-se dizer, pois s um aguazil estava armado e esse mesmo apenas se defendeu por honra da firma.  certo que 
os outros trs tinham tentado agredir o jovem com as cadeiras, os bancos e as louas; mas dois ou trs arranhes feitos pelo espadalho do gasco tinham bastado 
para os assustar. Dez minutos chegaram para a sua derrota e d'Artagnan ficara senhor do campo de batalha.
Os vizinhos, que tinham aberto as janelas com o sangue-frio caracterstico dos habitantes de Paris naqueles tempos de motins e rixas permanentes, fecharam-nas assim 
que viram fugir os quatro homens de preto: o seu instinto dizia-lhes que de momento tudo terminara.
Alis, era tarde, e ento como hoje as pessoas deitavam-se cedo no Bairro do Luxemburgo.
D'Artagnan ficou sozinho com a Sr.a Bonacieux e virou-se para ela: a pobre mulher estava cada num cadeiro e meio desmaiada. D'Artagnan examinou-a numa rpida vista 
de olhos.
Era uma encantadora mulher de vinte e cinco ou vinte e seis anos, morena, de olhos azuis, nariz levemente arrebitado, dentes admirveis e tez marmoreada de cor-de-rosa 
e opala. Terminavam a, porm, os sinais que podiam levar a confundi-la com uma grande dama. As mos eram brancas, mas sem delicadeza; os ps no revelavam a mulher 
de raa. Felizmente, d'Artagnan no se preocupava ainda com tais pormenores.
Enquanto d'Artagnan examinava a Sr.a Bonacieux, e se lhe detinha nos ps, como dissemos, viu no cho um fino leno de cambraia, que apanhou como de costume e num 
canto do qual reconheceu o mesmo monograma que vira no leno que quase o levara a cortar a garganta a Aramis... ou vice-versa.
Desde ento, d'Artagnan desconfiava dos lenos brasonados; meteu portanto, sem dizer nada, o que apanhara na algibeira da Sr.a Bonacieux.
Nesse momento, a Sr.a Bonacieux recuperou os sentidos. Abriu os olhos, olhou com terror  sua volta, viu que a casa estava vazia e se encontrava sozinha com o seu 
libertador. Estendeu-lhe imediatamente as mos, sorrindo. A Sr.a Bonacieux possua o mais encantador sorriso do mundo.

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- Ah, senhor, salvastes-me! Permiti-me que vos agradea.
- Minha senhora, limitei-me a fazer o que qualquer gentil-homem faria no meu lugar - respondeu d'Artagnan. - No me deveis portanto nenhum agradecimento.
- Isso  que devo, senhor, isso  que devo! E espero provar-vos que no fostes til a uma ingrata. Mas que me queriam aqueles homens, que primeiro tomei por ladres, 
e por que motivo o Sr. Bonacieux no est em casa?
- Minha senhora, aqueles homens eram muito mais perigosos do que ladres, pois eram agentes do Sr. Cardeal, e quanto ao vosso marido, o Sr. Bonacieux, no est em 
casa porque ontem vieram busc-lo para o levarem para a Bastilha.
- Meu marido na Bastilha! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - Oh, meu Deus, que fez ele? Pobre homem, ele  a inocncia personificada!
E qualquer coisa como um sorriso surgiu no rosto ainda assustado da jovem mulher.
- Que fez ele, senhora? Creio que o seu nico crime  ter ao mesmo tempo a felicidade e a infelicidade de ser vosso marido.
- Mas, senhor, sabeis ento que...
- Sei que fostes raptada, senhora.
- E por quem, sabeis? Oh, se o sabeis, dizei-mo!
- Por um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, de cabelo preto, moreno e com uma cicatriz na tmpora esquerda.
-  isso,  isso! Mas o seu nome?
- O seu nome?  o que ignoro.
- E o meu marido sabia que eu fora raptada?
- Foi prevenido por uma carta que lhe escreveu o prprio raptor.
- E desconfiou por que me raptaram? - perguntou a Sr.a Bonacieux, embaraada.
- Creio que atribuiu o rapto a motivo poltico.
- Ao princpio duvidei que fosse esse o motivo, mas agora penso como ele. Portanto o querido Sr. Bonacieux no desconfiou um s instante...?
- Ah, longe disso, minha senhora! Estava at muito orgulhoso da vossa sensatez e sobretudo do vosso amor.
Segundo sorriso quase imperceptvel aflorou aos lbios rosados da bela mulher.
- Mas como fugistes? - perguntou d'Artagnan.
- Aproveitei um momento em que me deixaram sozinha e como sabia desde manh a que atribuir o meu rapto, desci pela janela com o auxlio dos meus lenis. Depois, 
como julgava que o meu marido estivesse em casa, corri para c.
- Para vos colocardes sob a sua proteco?
- Oh, no, pobre homem! Sabia perfeitamente que era incapaz de me defender; mas como podia servir-nos para outra coisa, queria preveni-lo.
- De qu?


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- Oh, esse segredo no me pertence; no posso portanto revelar-vo-lo!
- Alis - comeou d'Artagnan, mas interrompeu-se para dizer: - Perdo, minha senhora, se pelo facto de ser guarda vos aconselho prudncia. Mas, como ia a dizer, 
creio que no estamos aqui em lugar conveniente para fazer confidncias. Os homens que pus em fuga vo regressar com reforos, e se nos encontram estamos perdidos. 
 certo que mandei avisar trs dos meus amigos, mas quem sabe se foram encontrados em casa!
- Sim, sim, tendes razo - concordou a Sr.a Bonacieux, assustada.
- Fujamos, salvemo-nos!
Aps estas palavras, deu o brao a d'Artagnan e puxou-o vivamente.
- Mas fugir para onde? Salvarmo-nos como? - redarguiu d'Artagnan.
- Primeiro afastemo-nos desta casa e depois veremos.
E os dois jovens, sem se darem ao trabalho de fechar a porta, desceram rapidamente a Rua dos Fossoyeurs, meteram pela Rua dos Fosses-Monsieur-le-Prince e s pararam 
na Praa de Saint-Sulpice.
- E agora que vamos fazer? Aonde quereis que vos leve? - perguntou d'Artagnan.
- Confesso que no sei que vos responda - disse a Sr.a Bonacieux.
- A minha inteno era mandar prevenir o Sr. de La Porte pelo meu marido, para que o Sr. de La Porte nos dissesse precisamente o que se passara no Louvre h trs 
dias e se no havia perigo para mim em apresentar-me l.
- Mas eu posso ir prevenir o Sr. de La Porte - declarou d'Artagnan.
- Sem dvida; h apenas um bice: no Louvre conhecem o Sr. Bonacieux e deix-lo-iam entrar, ao passo que a vs no vos conhecem e fechar-vos-o a porta na cara.
- Bom, mas com certeza tendes em qualquer entrada do Louvre um porteiro que vos seja dedicado e que graas a um santo-e-senha...
A Sr.a Bonacieux olhou fixamente o rapaz.
- E se vos desse esse santo-e-senha esquec-lo-eis assim que vos tivsseis servido dele?
- Palavra de honra,  f de gentil-homem! - respondeu d'Artagnan com um acento de sinceridade de que no havia que duvidar.
- Acredito em vs; pareceis-me bom rapaz e talvez a vossa fortuna coroe vossa dedicao.
- Farei sem promessas e conscientemente tudo o que puder para servir o rei e ser agradvel  rainha - disse d'Artagnan. - Disponde portanto de mim como de um amigo.
- Mas onde me esconderei entretanto?
- No tendes ningum a casa de quem o Sr. de La Porte possa ir-vos buscar?
- No, e no quero confiar em ningum.

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- Esperai - disse d'Artagnan. - Estamos  porta de Athos. Sim,  isso...
- Quem  Athos?
- Um dos meus amigos.
- Mas se est em casa e me v?
- No est e ficarei com a chave depois de vos fazer entrar no seu apartamento.
- E se volta?
- No voltar. Alis, dir-lhe-ia que arranjara uma mulher e que essa mulher estava em sua casa.
- Mas isso comprometer-me-ia muito, bem sabeis!
- E depois? Ningum vos conhece! De resto, estamos numa situao em que temos de passar por cima de algumas convenincias!
- Vamos l ento a casa do vosso amigo. Onde  que ele mora?
- Na Rua Frou, a dois passos daqui.
- Vamos.
E ambos se puseram de novo a caminho. Como previra d'Artagnan, Athos no estava em casa. Pediu a chave, que costumavam dar-lhe como a um amigo da casa, subiu a escada 
e introduziu a Sr.a Bonacieux no apartamentozinho que j descrevemos.
- Estais em vossa casa - disse ele. - Fechai a porta por dentro e no abrais a ningum, a no ser que ouais trs pancadas, assim... - e bateu trs vezes: duas pancadas 
seguidas e bastante fortes e uma mais afastada e fraca.
- Est bem - respondeu a Sr.a Bonacieux. - Agora  a minha vez de vos dar as minhas instrues.
- s ordens.
- Apresentai-vos na entrada do Louvre do lado da Rua da chelle e perguntai pelo Germain.
- Muito bem. E depois?
- Ele perguntar-vos- o que quereis e responder-lhe-eis com estas duas palavras: "Tours e Bruxelas." Pr-se- imediatamente s vossas ordens.
- E que lhe ordenarei?
- Que v chamar o Sr. de La Porte, o criado grave da rainha.
- E quando o Sr. de La Porte chegar?
- Mandar-mo-eis.
- Est bem, mas onde e como vos tornarei a ver?
- Tendes muita vontade de me tornar a ver?...
- Certamente.
- Nesse caso, deixai isso comigo e ficai tranquilo.
- Confio na vossa palavra.
- Podeis confiar.
D'Artagnan cumprimentou a Sr.a Bonacieux, envolveu-a no olhar mais apaixonado que lhe foi possvel concentrar na sua encantadora pessoa e, enquanto descia a escada, 
ouviu a porta fechar-se atrs de si, com duas voltas de chave. Pouco depois estava no Louvre.


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Quando chegava  entrada da chelle davam dez horas. Todos os acontecimentos que acabamos de narrar se tinham verificado em cerca de meia hora. Correu tudo como 
previra a Sr.a Bonacieux. Ao ouvir o santo-e-senha convencionado, Germain inclinou-se; dez minutos mais tarde, La Porte estava no cubculo do porteiro. D'Artagnan 
p-lo ao corrente do que se passava e disse-lhe onde estava a Sr.a Bonacieux. La Porte assegurou-se por duas vezes da exactido da morada e saiu a correr. Mas mal 
deu dez passos voltou para trs.
- Um conselho - disse a d'Artagnan. -Qual?
- Podeis ser inquietado pelo que acaba de se passar.
- Parece-vos?
- Tendes algum amigo cujo relgio se atrase?
- Que quereis dizer?
- Ide visit-lo para que possa testemunhar que estveis em sua casa s nove e meia. Em justia isso chama-se um libi.
D'Artagnan achou o conselho prudente. Estugou o passo e entrou no palcio do Sr. de Trville; mas em vez de se dirigir para o salo, como toda a gente, pediu para 
entrar no seu gabinete. Como d'Artagnan era um dos frequentadores habituais do palcio, ningum ps qualquer obstculo ao seu pedido; o criado limitou-se a ir prevenir 
o Sr. de Trville de que o seu jovem compatriota tinha algo importante a dizer-lhe e solicitava uma audincia particular. Cinco minutos depois o Sr. de Trville 
perguntava a d'Artagnan em que lhe podia ser til e o que significava a sua visita a hora to adiantada.
- Perdo, senhor - disse d'Artagnan, que aproveitara o momento em que ficara sozinho para atrasar o relgio trs quartos de hora -, pensei que como eram apenas nove 
horas e vinte e cinco minutos ainda no fosse tarde para vos procurar.
- Nove horas e vinte e cinco minutos! - exclamou o Sr. de Trville, olhando o relgio de sala. - Mas  impossvel!
- Como vedes, o relgio no engana, senhor - observou d'Artagnan.
- Tendes razo - admitiu o Sr. de Trville. - Juraria que era mais tarde... Mas vejamos, que me quereis?
Ento, d'Artagnan contou ao Sr. de Trville uma longa histria a respeito da rainha. Exps-lhe os temores que concebera acerca de Sua Majestade e contou-lhe o que 
ouvira dizer dos projectos do cardeal relativamente a Buckingham, e tudo isto com uma calma e um -vontade que iludiu tanto mais facilmente o Sr. de Trville quanto 
 certo que ele prprio, como j dissemos, notara algo estranho entre o cardeal, o rei e a rainha.
Quando deram dez horas, d'Artagnan deixou o Sr. de Trville, que lhe agradeceu as suas informaes, lhe recomendou que tivesse sempre a peito o servio do rei e 
da rainha e voltou para o salo. Mas ao fundo da escada d'Artagnan lembrou-se de que se esquecera da bengala. Por isso, voltou a subir precipitadamente, entrou no 
gabinete, com uma volta de dedo recolocou o relgio na hora exacta para que no dia seguinte se no descobrisse que fora atrasado, e certo de que dali em diante teria 
uma testemunha para provar o seu libi, desceu a escada e no tardou a encontrar-se na rua.


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        XI - A INTRIGA PROGRIDE



        Feita a sua visita ao Sr. de Trville, d'Artagnan tomou, muito pensativo, o caminho mais longo para regressar a casa.
Em que pensava d'Artagnan que o afastava assim da sua rota e o levava a olhar as estrelas do cu, ora suspirando, ora sorrindo?
Pensava na Sr.a Bonacieux. Para um aprendiz de mosqueteiro, a jovem mulher era quase uma idealidade amorosa. Bonita, misteriosa, iniciada em quase todos os segredos 
do corao, que emprestavam tanta encantadora gravidade s suas feies graciosas, dava ideia de no ser insensvel aos galanteios, o que constitua uma atraco 
irresistvel para os apaixonados inexperientes. Alm disso, d'Artagnan arrancara-a das mos daqueles demnios que queriam revist-la e maltrat-la, e esse importante 
servio estabelecera entre ambos um desses sentimentos de reconhecimento que adquirem muito facilmente carcter mais terno. D'Artagnan via-se j - de tal forma os 
sonhos andam depressa nas asas da imaginao - abordado por um mensageiro da jovem, que lhe entregava um bilhete a marcar um encontro, um fio de ouro ou um diamante. 
J dissemos que os jovens cavalheiros recebiam sem vergonha dinheiro do seu rei; acrescentemos que naqueles tempos de moral fcil no tinham mais vergonha em o receber 
das suas amantes e que estas lhe deixavam quase sempre preciosas e duradouras recordaes, como se precisassem de conquistar a fragilidade dos sentimentos do amado 
com a solidez das suas ddivas.
Progredia-se na vida por intermdio das mulheres, sem corar. As que eram apenas belas, davam a sua beleza, e da provm sem dvida o provrbio de que a mais bela 
mulher do mundo s pode dar o que tem. As que eram ricas davam alm disso parte do seu dinheiro, e podera-mos citar numerosos heris daquela poca galante que no 
teriam ganhado nem as suas esporas, primeiro, nem as suas batalhas, depois, sem a bolsa mais ou menos fornecida que a amante lhe prendia ao aro da sela.
D'Artagnan no possuia nada; a timidez do provinciano, verniz superficial, flor efmera, penugem de pssego, evaporara-se levada pelo vento dos conselhos pouco ortodoxos 
que os trs mosqueteiros davam ao amigo. De acordo com o estranho costume do tempo, d'Artagnan via-se em Paris como se estivesse em campanha, e nada mais, nada menos 
do que na Flandres:

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os Espanhis num lado, a mulher noutro. Por todos os lados inimigos a combater, contribuies a cobrar.
Mas, digamo-lo, de momento, d'Artagnan era dominado por um sentimento mais nobre e desinteressado. O retroseiro dissera-lhe que era rico; o jovem adivinhara sem 
dificuldade que com um nscio como o Sr. Bonacieux quem devia ter a chave da burra era a mulher. Mas isso no influra em nada no sentimento produzido pela vista 
da Sr.a Bonacieux, e o interesse permanecera quase estranho ao comeo de amor que se lhe seguira. Dizemos "quase" porque a ideia de que uma jovem mulher, ela, graciosa, 
cheia de esprito, e ao mesmo tempo rica em nada diminui esse comeo de amor, e muito pelo contrrio corrobora-o.
A riqueza  acompanhada de numerosas preocupaes e caprichos aristocrticos inerentes  beleza. Umas meias finas e brancas, um vestido de seda, um leno de pescoo 
de renda, uns bonitos sapatos nos ps, uma fita engraada na cabea, no tornam bonita uma mulher feia, mas tornam bela uma mulher bonita, sem contar com as mos, 
que levam a palma a tudo isso; as mos, sobretudo nas mulheres, necessitam de permanecer ociosas para se conservarem belas.
Depois d'Artagnan, como o leitor sabe, a quem no ocultmos o estado da sua fortuna, d'Artagnan no era um milionrio; esperava vir a s-lo um dia, mas o tempo que 
fixara a si mesmo para essa feliz mudana era bastante longo. Entretanto, que desespero ver uma mulher que se ama desejar esses mil nadas com que as mulheres constrem 
a sua felicidade e no lhe poder dar esses mil nadas! Ao menos, quando a mulher  rica e o amante o no , o que ele lhe no pode oferecer oferece-o ela a si mesma; 
e embora seja geralmente com o dinheiro do marido que obtm esse prazer,  raro que seja ele a receber o reconhecimento.
Depois d'Artagnan, disposto a ser o amante mais terno, era entretanto um amigo dedicadssimo. No meio dos seus projectos amorosos acerca da mulher do retroseiro, 
no esquecia os seus planos. A bonita Sr.a Bonacieux era mulher para passear na plancie de Saint-Denis ou na feira de Saint-Germain em companhia de Athos, Porthos 
e Aramis, aos quais d'Artagnan teria orgulho em mostrar semelhante conquista. Depois, quando se nada muito tempo, vem a fome; havia algum tempo que d'Artagnan notara 
isso... Fariam desses jantarinhos encantadores onde se toca de um lado a mo de um amigo e do outro o p de uma amante. Enfim, nos momentos prementes, nas situaes 
extremas, d'Artagnan seria o salvador dos amigos.
E o Sr. Bonacieux, que d'Artagnan entregara nas mos dos esbirros, renegando em voz alta o pobre homem depois de lhe prometer em voz baixa salv-lo? Devemos confessar 
aos nossos leitores que d'Artagnan no pensava nele de modo algum, ou, se pensava, era para dizer a si mesmo que estava muito bem onde estava, fosse onde fosse. 
O amor  a mais egosta de todas as paixes.
No entanto, tranquilizem-se os nossos leitores: se d'Artagnan esquece o seu senhorio, ou finge esquec-lo, a pretexto de no saber para onde o levaram, ns no o 
esquecemos e sabemos onde est. Mas de momento faamos como o gasco apaixonado.

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Quanto ao digno retroseiro, ocupar-nos-emos dele mais tarde.
Enquanto pensava nos seus futuros amores, enquanto falava  noite, enquanto sorria s estrelas, d'Artagnan subia a Rua do Cherche-Midi ou Chasse-Midi, como se chamava 
ento. Como se encontrava no bairro de Aramis, lembrou-se de fazer uma visita ao amigo para lhe dar algumas explicaes acerca do motivo que o levara a mandar Planchet 
convid-lo a dirigir-se imediatamente  ratoeira. Ora, se Aramis estivesse em casa quando Planchet o procurara, correra sem dvida  Rua dos Fossoyeurs, onde no 
encontrara ningum excepto, talvez, os seus dois outros companheiros, sem que nem uns nem outros soubessem o que tudo aquilo queria dizer. Tal incmodo merecia portanto 
uma explicao, como dizia em voz alta d'Artagnan.
Depois, baixinho, pensava que era para si uma oportunidade de falar da bonita Sr.a Bonacieux, da qual o seu esprito, seno o seu corao, estava j repleto. No 
 de esperar discrio acerca de um primeiro amor. Um primeiro amor  acompanhado de to grande alegria que  necessrio deixar transbordar essa alegria, que de 
contrrio nos asfixiaria. Depois das dez horas, Paris era sombrio e comeava a ficar deserto. Davam onze horas em todos os relgios do Arrabalde de Saint-Germain 
e estava um tempo agradvel. D'Artagnan seguia por uma ruela situada no ponto onde passa hoje a Rua de Assas, respirando as emanaes perfumadas que o vento trazia 
da Rua de Vaugirard e enviavam os jardins refrescados pelo orvalho e pela brisa da noite. Ao longe ecoavam, abafados por bons guarda-ventos, os cantos dos bebedores 
nalguns botequins perdidos na plancie. Chegado ao fim da ruela, d'Artagnan virou  esquerda. O prdio onde morava Aramis ficava situado entre a Rua Cassette e a 
Rua Servandoni.
D'Artagnan acabava de ultrapassar a Rua Cassette e reconhecia j a porta do prdio do amigo, escondida por um macio de sicmoros e clematites que formavam uma vasta 
arcada por cima dela, quando distinguiu qualquer coisa como uma sombra que saa da Rua Servandoni. Essa qualquer coisa estava envolta numa capa e d'Artagnan julgou 
ao princpio tratar-se de um homem; mas pela baixa estatura, pela incerteza da atitude e pela hesitao do passo no tardou a reconhecer uma mulher. Alm disso, 
a mulher, como se no estivesse bem certa da casa que procurava, levantava os olhos para se certificar, parava, voltava para trs e regressava novamente. D'Artagnan 
estava intrigado.
"Vou oferecer-lhe os meus servios!", pensou. "Pelo aspecto, v-se que  nova; talvez bonita. Oh, sim! Mas uma mulher que anda na rua a estas horas s sai para ir 
encontrar-se com o amante. N, perturbar-lhe o encontro seria m porta para entrar em relaes!..."
Entretanto, a jovem continuava a avanar, contando as casas e as janelas. Alis, isso no era coisa demorada nem difcil. S havia trs palcios naquela parte da 
rua e duas janelas com vista para essa mesma rua: uma era de um pavilho paralelo ao que ocupava Aramis e a outra a do prprio Aramis.

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"Com a breca", pensou d'Artagnan, a quem a sobrinha do telogo acudia ao esprito, "com a breca, teria piada se esta pomba retardatria procurasse a casa do nosso 
amigo! Pela minha salvao se no parece mesmo isso... Ah, meu caro Aramis, desta vez tenho de tirar isto a limpo!"
E d'Artagnan, encolhendo-se o mais possvel, escondeu-se no canto mais escuro da rua, junto de um banco de pedra situado ao fundo de um nicho.
A jovem continuou a avanar, pois alm da ligeireza do seu andar, que a atraioara, acabava de deixar escapar uma tossezinha que denunciava uma voz das mais frescas. 
D'Artagnan pensou que aquela tosse era um sinal.
Entretanto, fosse porque tivessem respondido  tosse com outro sinal equivalente que tivesse posto termo s irresolues da nocturna indagadora, fosse porque sem 
auxlio estranho tivesse reconhecido que chegara ao seu destino, aproximou-se resolutamente da persiana de Aramis e bateu com trs intervalos iguais, com o dedo 
recurvado.
- No h dvida que procurava Aramis - murmurou d'Artagnan. - Ah, senhor hipcrita, apanhei-vos s voltas com a teologia!...
Mal as trs pancadas soaram abriu-se a janela interior e surgiu uma luz atravs da persiana.
- Ah, ah!... - exclamou o escutador, no s portas, mas sim s janelas. - Ah, ah, a visita era esperada! Agora a persiana vai-se abrir e a dama entrar por escalamento. 
Muito bem!
Mas com grande espanto de d'Artagnan a persiana permaneceu fechada. Alm disso, a luz que brilhara um instante desapareceu e tudo mergulhou nas trevas.
D'Artagnan pensou que aquilo no podia ficar assim e continuou a olhar de olhos bem abertos e a escutar de ouvidos bem atentos.
Tinha razo: passados alguns segundos soaram l dentro duas pancadas secas.
A jovem da rua respondeu com uma nica pancada e a persiana entreabriu-se.
Imagine-se com que avidez olhava e escutava d'Artagnan!
Infelizmente, a luz fora levada para outra diviso. Mas os olhos do jovem estavam habituados  noite. Alis, os olhos dos gasces possuem, ao que se afirma, a propriedade 
de verem de noite, como os dos gatos.
D'Artagnan viu portanto que a jovem tirava da algibeira um objecto branco, que desdobrou vivamente e tomou a forma de um leno. Uma vez o objecto desdobrado, ela 
chamou a ateno do seu interlocutor para um canto.
Isso recordou a d'Artagnan o leno que encontrara aos ps da Sr.a Bonacieux, o qual lhe recordara o que encontrara aos ps de Aramis. .
Que diabo significaria aquele leno?
Colocado onde estava, d'Artagnan no podia ver a cara de Aramis - dizemos de Aramis porque o jovem no tinha nenhuma dvida de ser o amigo quem dialogava do interior 
com a dama do exterior -, mas a curiosidade levou a melhor  prudncia e,

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aproveitando a preocupao em que a vista do leno parecia mergulhar as duas personagens que pusemos em cena, d'Artagnan saiu do seu esconderijo e, rpido como um 
relmpago, mas abafando o rudo dos seus passos, foi-se colar a uma esquina da parede donde o seu olhar podia mergulhar perfeitamente no interior do apartamento 
de Aramis.
Chegado a, d'Artagnan quase soltou um grito de surpresa: no era Aramis quem conversava com a visitante nocturna, era uma mulher. Pelo menos, d'Artagnan via-a o 
suficiente para reconhecer a forma do seu vesturio, mas no o bastante para lhe distinguir as feies.
No mesmo instante, a mulher do apartamento tirou segundo leno da algibeira e trocou-o por aquele que acabavam de lhe mostrar. Depois, as duas mulheres trocaram 
algumas palavras. Por fim, a persiana fechou-se; a mulher que se encontrava da parte de fora da janela virou-se e passou a quatro passos de d'Artagnan, baixando 
o capuz da capa. Mas a precauo fora tomada demasiado tarde: d'Artagnan j reconhecera a Sr.a Bonacieux.
A Sr.a Bonacieux! A suspeita de ser ela j lhe atravessara o esprito, quando a jovem tirara o leno da algibeira. Mas como era possvel que a Sr.a Bonacieux, que 
o mandara buscar o Sr. de La Porte para a acompanhar ao Louvre, corresse as ruas de Paris sozinha s onze e meia da noite, com risco de ser raptada segunda vez?
S por um assunto muito importante. E qual o assunto mais importante para uma mulher de vinte e cinco anos? O amor.
Mas era por sua conta ou por conta doutra pessoa que se expunha a semelhantes perigos? Eis o que perguntava a si mesmo o jovem, a quem o demnio do cime mordia 
o corao, nem mais nem menos do que morderia a um amante autntico.
Tinha de resto uma maneira muito simples de descobrir aonde ia a Sr.a Bonacieux: segui-la. E essa maneira era to simples que d'Artagnan a utilizou to natural como 
instintivamente.
Mas ao ver o jovem destacar-se da parede como uma esttua do seu nicho e ao ouvir-lhe os passos soarem atrs de si, a Sr.a Bonacieux soltou um gritinho e fugiu.
D'Artagnan correu atrs dela. No era nada difcil para ele apanhar uma mulher a quem a capa estorvava. Apanhou-a portanto percorrido um tero da rua por onde ela 
metera. A pobrezinha estava exausta, no de fadiga, mas sim de terror, e quando d'Artagnan lhe pousou a mo no ombro ela caiu sobre um joelho e gritou com voz estrangulada:
- Matai-me, se quiserdes, mas no sabereis nada!
D'Artagnan levantou-a, passando-lhe o brao  volta da cintura; mas como sentisse pelo peso da jovem que esta estava prestes a perder os sentidos, apressou-se a 
tranquiliz-la com protestos de dedicao. Mas tais protestos no valiam nada para a Sr.a Bonacieux, pois semelhantes protestos podiam ocultar as piores intenes 
do mundo; a voz, porm, era tudo.

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A jovem julgou reconhecer o som daquela voz; abriu os olhos, deitou uma olhadela ao homem que lhe metera tanto medo e reconhecendo d'Artagnan, soltou um grito de 
alegria.
- Oh, sois vs, sois vs! Obrigada, meu Deus!
- Sim, sou eu - respondeu d'Artagnan -, eu a quem Deus enviou para velar por vs.
- Era com essa inteno que me segueis? - perguntou com um sorriso cheio de garridice a jovem, cujo temperamento um pouco trocista vinha ao de cima, e em quem todo 
o medo desaparecera desde o momento em que reconhecera um amigo naquele que tomara por inimigo.
- No - respondeu d'Artagnan. - No, confesso. Foi o acaso que me trouxe ao vosso caminho; vi uma mulher bater  janela de um dos meus amigos...
- De um dos vossos amigos? - interrompeu-o a Sr.a Bonacieux.
- Sem dvida; Aramis  um dos meus melhores amigos.
- Aramis! Que quereis dizer?
- Ento, no me digais que no conheceis Aramis...
-  a primeira vez que ouo pronunciar esse nome.
-  tambm a primeira vez que vindes a esta casa?
- Sem dvida.
- E ignorveis que era habitada por um homem?
- Ignorava.
- Por um mosqueteiro?
- Claro.
- No foi portanto a ele que viestes procurar?
- De modo nenhum. Alis, como bem vistes, a pessoa com quem falei era uma mulher.
-  verdade; mas essa mulher  uma amiga de Aramis.
- No sei nada a tal respeito.
- Uma vez que mora com ele.
- No tenho nada com isso.
- Mas quem  ela?
- Oh, esse  o meu segredo!
- Querida Sr.a Bonacieux, sois encantadora; mas ao mesmo tempo sois a mulher mais misteriosa...
- E isso prejudica-me?
- No; pelo contrrio, torna-vos adorvel.
- Ento, dai-me o brao.
- Com muito prazer. E agora?
- E agora acompanhai-me.
- Aonde?
- Aonde vou.
- Mas aonde ides?
- V-lo-eis, pois deixar-me-eis  porta.
- Deverei esperar-vos?
- Seria til.
- Regressareis portanto sozinha?
- Talvez sim e talvez no...

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- Mas a pessoa que vos acompanhar depois ser homem ou mulher?
- Por ora no sei.
- Sab-lo-ei eu!
- Como?
- Esperar-vos-ei para vos ver sair.
- Nesse caso, adeus!
- Que dizeis?
- Que no preciso de vs.
- Mas pedistes-me...
- Pedi a ajuda de um gentil-homem e no a vigilncia de um espio.
- A palavra  um pouco dura!
- Como se chamam aqueles que seguem as pessoas sem elas quererem?
- Indiscretos.
- A palavra  demasiado suave.
- Pronto, senhora, j vejo que se tem de fazer tudo o que quereis.
- Por que vos privastes do mrito de o fazer imediatamente?
- No dais a ningum o direito de se arrepender?
- E vs arrependeis-vos realmente?
- Nem eu prprio j sei. Mas o que sei  que vos prometo fazer tudo o que desejardes, se me deixardes acompanhar-vos aonde ides.
- E deixar-me-eis depois?
- Sim.
- Sem me espiardes  sada?
- Sim.
- Palavra de honra?
- Palavra de gentil-homem!
- Dai-me o brao e vamos ento.
D'Artagnan ofereceu o brao  Sr.a Bonacieux, que lho tomou, meio risonha, meio trmula, e ambos chegaram ao cimo da Rua de La Harpe. Uma vez a, a jovem pareceu 
hesitar, como j lhe acontecera na Rua de Vaugirard. No entanto, por certos indcios, pareceu reconhecer uma porta, da qual se aproximou.
- E agora, senhor,  aqui que venho. Mil vezes obrigada pela vossa honrosa companhia, que me preservou de todos os perigos a que sozinha me teria exposto. Mas chegou 
o momento de cumprirdes a vossa palavra: cheguei ao meu destino.
- E no tereis nada a recear na volta?
- S teria de recear os ladres.
- E isso no  nada?
- Que poderiam roubar-me? No trago um ceitil comigo.
- Esqueceis esse belo leno bordado, brasonado. -Qual?
- O que encontrei a vossos ps e meti na vossa algibeira.
- Calai-vos, calai-vos, desgraado! - exclamou a jovem. - Quereis perder-me?

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- Bem vedes que ainda existe perigo para vs, visto uma s palavra vos fazer tremer e confessardes que se algum ouvisse essa palavra estareis perdida. Vamos, senhora, 
vamos! - exclamou d'Artagnan, pegando-lhe na mo e envolvendo-a num olhar ardente. - Sede mais generosa e confiai em mim. No vedes nos meus olhos que s h dedicao 
e simpatia por vs no meu corao?
- Pois vejo - respondeu a Sr.a Bonacieux. - Por isso, pedi-me que vos revele os meus segredos e revelar-vo-los-ei; mas os dos outros,  diferente.
- Nesse caso, descobri-los-ei - respondeu d'Artagnan. - Uma vez que esses segredos podem influenciar a vossa vida, tenho de os conhecer.
- Guardai-vos bem disso! - exclamou a jovem, com uma seriedade que fez estremecer d'Artagnan mal-grado seu. - Oh, no interfirais em nada do que me diz respeito 
nem procureis ajudar-me no que fao, peo-vos em nome do interesse que vos inspiro, em nome do servio que me prestastes e que no esquecerei enquanto viver! Acreditai 
no que vos digo. No percais mais tempo comigo, fazei de conta que j no existo para vs, procedei como se nunca me tivsseis visto.
- Aramis deve fazer o mesmo que eu, senhora? - perguntou d'Artagnan, fremente.
- J pronunciastes esse nome duas ou trs vezes, senhor, e outras tantas vos disse que o no conhecia.
- No conheceis o homem  janela do qual batestes? Ento, senhora, no me julgueis assim to crdulo!
- Confessai que  para me fazerdes falar que inventais essa histria e criais essa personagem.
- No invento nada, senhora, no crio nada; digo a pura verdade.
- E afirmais que um dos vossos amigos mora naquela casa?
- Afirmo! Digo-o e repito-o pela terceira vez: aquela casa  onde mora o meu amigo e esse amigo  Aramis.
- Tudo isso se esclarecer mais tarde - murmurou a jovem. - Agora, senhor, calai-vos.
- Se pudsseis ver o meu corao todo a descoberto - disse d'Artagnan - lereis nele tanta curiosidade que tereis piedade de mim, e tanto amor que satisfareis 
imediatamente a minha curiosidade. No temos nada a temer daqueles que nos amam.
- Falais demasiado depressa de amor, senhor! - redarguiu a jovem, abanando a cabea.
- Porque o amor se apoderou de mim depressa e pela primeira vez, e ainda no tenho vinte anos.
A jovem olhou-o de soslaio.
- Escutai, comeo a compreender - disse d'Artagnan. - H trs meses quase tive um duelo com Aramis por causa de um leno idntico a esse que mostrastes  mulher 
que estava em casa dele; por um leno marcado da mesma maneira, tenho a certeza.
- Senhor, juro-vos que j comeo a estar cansada com tanta pergunta.

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- Mas j que sois to prudente, senhora, pensai nisto: se fsseis presa com esse leno e esse leno fosse apanhado, no ficareis comprometida?
- Porqu, no so as minhas iniciais: C. B., Constance Bonacieux?
- Ou Camille de Bois-Tracy...
- Silncio, senhor; mais uma vez silncio! Ah, j que os riscos que eu prpria corro no vos detm, pensai nos que podeis correr!
-Eu?
- Sim, vs. H perigo de priso e perigo de morte em me conhecer.
- Ento j vos no deixo.
- Senhor - disse a jovem, com ar suplicante e juntando as mos -, senhor, em nome do Cu, em nome da honra de um militar, em nome da cortesia de um gentil-homem, 
retirai-vos. Olhai, est a dar meia-noite;  a hora a que me esperam.
- Senhora - disse o jovem, inclinando-se -, no sei recusar nada a quem mo pede assim. Faa-se a vossa vontade: retiro-me.
- E no me seguireis nem espiareis?
- Vou imediatamente para casa.
- Ah, bem sabia que reis um rapaz decente! - exclamou a Sr.a Bonacieux, estendendo-lhe uma das mos e pousando a outra na aldraba de uma portinha quase invisvel 
na parede.
D'Artagnan pegou na mo que ela lhe estendia e beijou-a ardentemente.
- Preferia nunca vos ter visto! - exclamou d'Artagnan, com essa brutalidade ingnua que as mulheres quase sempre apreciam mais do que as denguisses da polidez, pois 
revela o fundo do pensamento e prova que o sentimento se sobrepe  razo.
- Bom - redarguiu a Sr.a Bonacieux, em voz quase acariciadora e apertando a mo de d'Artagnan, que no largara a dela -, bom, no direi tanto como vs: o que hoje 
est perdido no est perdido para sempre. Quem sabe se, quando um dia estiver desobrigada, no satisfarei a vossa curiosidade?
- E fazeis a mesma promessa em relao ao meu amor? - perguntou d'Artagnan, no cmulo da alegria.
- Oh, por esse lado no me quero comprometer; depender dos sentimentos que souberdes inspirar-me!
- Portanto hoje, senhora...
- Hoje, senhor, apenas vos estou reconhecida.
- Sois deveras encantadora - disse d'Artagnan com tristeza -, mas abusais do meu amor.
- No, utilizo a vossa generosidade, apenas. Mas acreditai que com certas pessoas tudo se recupera.
- Oh, tornais-me o mais feliz dos homens! No esqueais esta noite, no esqueais essa promessa.
- Ficai tranquilo, oportunamente lembrar-me-ei de tudo. E agora ide, ide, por amor de Deus! Esperavam  meia-noite em ponto e j estou atrasada.

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- Cinco minutos.
- Pois sim, mas em certas circunstncias cinco minutos so cinco sculos.
- Quando se ama.
- E quem vos diz que me no vou encontrar com um apaixonado?
-  um homem que vos espera? - gritou d'Artagnan. - Um homem!
- Pronto, l vai a discusso recomear... - observou a Sr.a Bonacieux com um meio sorriso no isento de certos laivos de impacincia.
- No, no, vou-me embora, retiro-me. Creio em vs, quero ter todo o mrito da minha dedicao, mesmo que a minha dedicao seja uma estupidez. Adeus, senhora, adeus!
E como se s a custo fosse capaz de largar a mo que segurava nas suas, afastou-se a correr, enquanto a Sr.a Bonacieux batia, como na persiana, trs pancadas lentas 
e regulares. Chegado  esquina da rua, o jovem virou-se; a porta abrira-se e fechara-se, a bonita retroseira desaparecera.
D'Artagnan continuou o seu caminho. Dera a sua palavra de que no espiaria a Sr.a Bonacieux e ainda que a sua vida dependesse do lugar aonde ela ia ou da pessoa 
que a devia acompanhar, d'Artagnan regressaria a casa, pois dissera que regressaria. Cinco minutos depois estava na Rua dos Fossoyeurs.
- Pobre Athos - ia dizendo -, no perceber nada disto. Adormeceu  minha espera ou voltou para casa, e ao entrar ficou a saber que esteve l uma mulher. Uma mulher 
em casa de Athos! No fim de contas - continuou d'Artagnan -, tambm havia uma em casa de Aramis. Tudo isto  muito estranho e estou cheio de curiosidade por saber 
como acabar.
- Mal, senhor, mal - respondeu uma voz que o jovem reconheceu ser a de Planchet; porque enquanto ia monologando em voz alta, como as pessoas muito preocupadas, entrara 
no corredor ao fundo do qual ficava a escada que levava ao seu quarto.
- Como, mal? Que queres dizer, imbecil? Que aconteceu? - perguntou d'Artagnan.
- Toda a espcie de infelicidades.
- Quais?
- Primeiro, o Sr. Athos foi preso.
- Preso! Athos foi preso? Porqu?
- Encontraram-no em vossa casa e tomaram-no por vs.
- E por quem foi preso?
- Pela guarda que foram buscar os homens de preto que pusestes em fuga.
- Por que no se identificou? Por que no disse que era estranho ao caso?
- Porque no quis, senhor. Pelo contrrio, aproximou-se de mim e disse-me: "O teu amo  que precisa da sua liberdade neste momento e no eu, pois ele sabe tudo e 
eu no sei nada. Julg-lo-o preso e isso dar-lhe- tempo.

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Daqui a trs dias direi quem sou e tero de pr-me em liberdade."
- Bravo, Athos! Nobre corao - murmurou d'Artagnan. - Reconheo-o bem nisso! E que fizeram os esbirros?
- Quatro levaram-no no sei para onde, para a Bastilha ou para o For-l'vque; dois ficaram com os homens de preto, que revistaram tudo e se apoderaram de todos 
os papis. Finalmente os dois ltimos montaram guarda  porta durante a diligncia; depois, quando tudo acabou, foram-se embora deixando a casa vazia e as portas 
escancaradas.
- E Porthos e Aramis?
- No os encontrei e portanto no vieram.
- Mas podem vir de um momento para o outro. No lhe deixaste recado de que os esperava?
- Deixei, senhor.
- Bom, no saias daqui; se eles vierem, conta-lhes o que me aconteceu e diz-lhes que me esperem no botequim da Pomme de Pin. Aqui seria perigoso, pois a casa pode 
estar vigiada. Vou num instante ao palcio do Sr. de Trville contar-lhe tudo isto e depois irei ter com eles.
- Pois sim, senhor - respondeu Planchet.
- Mas tu ficars e no ters medo! - gritou d'Artagnan, voltando atrs para recomendar coragem ao criado.
- Ide sossegado, senhor - respondeu Planchet. - Ainda me no conheceis; sou corajoso quando me meto nas coisas, o caso  meter-me nelas... E sou picardo.
- Ento, est combinado, mais depressa te deixars matar do que abandonars o teu posto - disse d'Artagnan.
- Sim, senhor. No h nada que no faa para vos provar que vos sou dedicado.
"Bom", disse para consigo d'Artagnan, "parece que o mtodo que empreguei com o rapaz  decididamente bom. Voltarei a us-lo se for necessrio."
E a toda a velocidade das suas pernas, j um pouco cansadas das correrias do dia, d'Artagnan dirigiu-se para a Rua do Colombier.
O Sr. de Trville no estava no palcio; a sua companhia estava de guarda ao Louvre e ele estava no Louvre com a sua companhia.
Era necessrio chegar at ao Sr. de Trville; era importante preveni-lo do que se passava. D'Artagnan resolveu tentar entrar no Louvre. A sua farda de guarda da 
companhia do Sr. dos Essarts deveria servir-lhe de passaporte.
Desceu pois a Rua dos Petits-Augustins e subiu o cais para tomar a Ponte Nova. Por instantes pensara em atravessar de barca, mas ao chegar  beira-d'gua metera 
maquinalmente a mo na algibeira e verificara que no tinha com que pagar ao barqueiro.
Por altura da Rua Gungaud, viu desembocar da Rua Dauphine um grupo constitudo por duas pessoas cujo aspecto lhe chamou a ateno.

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As duas pessoas que constituam o grupo eram: uma, um homem; a outra, uma mulher.
A mulher tinha a figura da Sr.a Bonacieux e o homem parecia-se extraordinariamente com Aramis.
Alm disso, a mulher tinha a capa preta que d'Artagnan ainda via desenhar-se na persiana da Rua de Vaugirard e na porta da Rua de La Harpe.
Por outro lado, o homem envergava o uniforme dos mosqueteiros.
A mulher tinha o capuz descido e o homem cobria a cara com o leno; em ambos a dupla precauo indicava que lhes interessava no serem reconhecidos.
Meteram pela ponte: era o caminho de d'Artagnan, pois d'Artagnan dirigia-se para o Louvre; d'Artagnan seguiu-os.
Ainda no dera vinte passos quando d'Artagnan se convenceu de que a mulher era a Sr.a Bonacieux e o homem Aramis.
Sentiu imediatamente todas as desconfianas resultantes do cime que lhe agitava o corao.
Fora duplamente trado, pelo amigo e por aquela que amava j como uma amante. A Sr.a Bonacieux jurara-lhe por todos os seus santinhos que no conhecia Aramis e um 
quarto de hora depois de lhe fazer esse juramento encontrava-a pelo brao de Aramis.
D'Artagnan no reflectiu sequer que conhecia a bonita retroseira havia apenas trs horas, que ela no lhe devia nada a no ser um pouco de reconhecimento por a ter 
livrado das mos dos homens de preto que a queriam violentar e que no lhe prometera nada. Mesmo assim, considerou-se um amante ultrajado, trado, escarnecido; o 
sangue e a clera subiram-lhe ao rosto e resolveu pr tudo em pratos limpos.
A mulher e o homem tinham notado que eram seguidos e haviam estugado o passo. D'Artagnan correu, ultrapassou-os e depois voltou para trs, ao seu encontro, no momento 
em que se encontravam diante da Samaritana, iluminada por um candeeiro que projectava a sua luz sobre toda aquela parte da ponte.
D'Artagnan parou diante deles e eles pararam diante dele.
- Que quereis, senhor? - perguntou o mosqueteiro, recuando um passo, e com uma pronncia estrangeira que provava a d'Artagnan que se enganara numa parte das suas 
conjecturas.
- No  Aramis! - exclamou.
- No, senhor, no sou Aramis, e pela vossa exclamao vejo que me tomastes por outro e perdoo-vos.
- Perdoais-me! - gritou d'Artagnan.
- Perdoo - respondeu o desconhecido. - Deixai-me pois passar, visto nada terdes a ver comigo.
- Tendes razo, senhor - redarguiu d'Artagnan. - No  convosco que tenho a ver,  com a senhora.
- Com a senhora? - No a conheceis - observou o estrangeiro.
- Enganai-vos, senhor, conheo-a.
- Oh! - exclamou a Sr.a Bonacieux em tom de censura.

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- Oh, senhor, tinha a vossa palavra de militar e de gentil-homem; esperava poder contar com elas!
- E eu, senhora - disse d'Artagnan, embaraado -, tnheis-me prometido...
- Tomai o meu brao, senhora - disse o estrangeiro -, e continuemos o nosso caminho.
Entretanto, d'Artagnan, aturdido, aterrado, aniquilado por tudo o que lhe acontecia, permanecia de p e de braos cruzados diante do mosqueteiro e da Sr.a Bonacieux.
O mosqueteiro deu dois passos em frente e afastou d'Artagnan com a mo.
D'Artagnan deu um salto  retaguarda e puxou da espada.
Ao mesmo tempo e com a rapidez do relmpago o desconhecido desembainhou a sua.
- Em nome do Cu, milorde! - gritou a Sr.a Bonacieux, lanando-se entre os combatentes e segurando as espadas com as mos.
- Milorde! - exclamou d'Artagnan, iluminado por uma ideia sbita. - Milorde!... Perdo, senhor, mas se soubesse que reis...
- Milorde duque de Buckingham - disse a Sr.a Bonacieux a meia voz. - E agora podeis perder-nos a todos.
- Milorde, senhora, perdo, cem vezes perdo; mas eu amava-a, milorde, e tinha cimes. Sabeis o que  amar, milorde. Perdoai-me e dizei-me como me posso fazer matar 
por Vossa Graa.
- Sois um excelente rapaz - disse Buckingham, estendendo a d'Artagnan uma mo que este apertou respeitosamente. - Ofereceis-me os vossos servios e eu aceito-os; 
segui-nos a vinte passos at ao Louvre; e se algum nos espiar, matai-o!
D'Artagnan meteu a espada nua debaixo do brao, deixou que a Sr. a Bonacieux e o duque se afastassem vinte passos e seguiu-os, pronto a executar  letra as instrues 
do nobre e elegante ministro de Carlos I.
Mas felizmente o jovem no teve nenhuma oportunidade de dar ao duque a prova de dedicao que pretendia, e a mulher e o belo mosqueteiro entraram no Louvre pela 
porta da chelle sem terem sido incomodados.
Quanto a d'Artagnan, dirigiu-se imediatamente para o botequim da Pomme de Pin, onde encontrou Porthos e Aramis, que o esperavam.
Mas sem lhes dar qualquer explicao acerca do incmodo que lhes causara, disse-lhes que conclura sozinho o caso para o qual julgara necessitar do seu auxlio.
E agora, levados pela nossa narrativa, deixemos os nossos trs amigos voltarem para suas casas e sigamos no labirinto do Louvre o duque de Buckingham e a sua guia.

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        XII - GEORGES VILLIERS, DUQUE DE BUCKINGHAM


        A Sr.a Bonacieux e o duque entraram no Louvre sem dificuldade. A Sr.a Bonacieux era conhecida por estar ao servio da rainha; o duque envergava o uniforme 
dos mosqueteiros do Sr. de Trville, que, como dissemos, estava de guarda naquela noite. Alis, Germain era dedicado  rainha, e se acontecesse alguma coisa a Sr.a 
Bonacieux seria acusada de ter introduzido o amante no Louvre e mais nada. A jovem tomaria sobre si o crime: a sua reputao estaria perdida,  certo, mas que valor 
tinha na sociedade a reputao de uma modesta retroseira?
Uma vez dentro do ptio, o duque e a jovem seguiram junto  parede durante cerca de vinte e cinco passos. Percorrido esse espao, a Sr.a Bonacieux empurrou uma portinha 
de servio, aberta de dia, mas habitualmente fechada de noite. A porta cedeu; ambos entraram e se encontraram na obscuridade, mas a Sr.a Bonacieux conhecia todos 
os cantos e recantos daquela parte do Louvre, destinada s pessoas do servio real. A jovem fechou a porta atrs de si, pegou na mo do duque, deu alguns passos 
tacteando, agarrou um corrimo, tocou com um p num degrau e comeou a subir uma escada. O duque contou dois andares. Ento a Sr.a Bonacieux virou  direita, seguiu 
por um comprido corredor, desceu um andar, deu mais alguns passos, meteu uma chave numa fechadura, abriu uma porta e empurrou o duque para uma sala iluminada apenas 
por uma lamparina, dizendo:
- Ficai aqui, milorde-duque, e esperai.
Depois saiu pela mesma porta, que fechou  chave, de forma que o duque se encontrou literalmente prisioneiro.
No entanto, por mais isolado que se encontrasse, devemos dizer que o duque de Buckingham no experimentou um instante sequer de temor; um dos aspectos caractersticos 
do seu temperamento era a procura da aventura e do amor romanesco. Bravo, ousado, empreendedor, no era a primeira vez que arriscava a vida em semelhantes tentativas. 
Soubera que a pretensa mensagem de Ana de ustria que o trouxera a Paris era uma cilada, e em vez de voltar para Inglaterra tinha abusado da posio que conquistara, 
declarado  rainha que no partiria sem a ver. A rainha recusara terminantemente primeiro, mas depois receara que o duque, exasperado, cometesse alguma loucura. 
J estava decidida a receb-lo e a suplicar-lhe que partisse imediatamente quando, na prpria noite dessa deciso, a Sr.a Bonacieux, que estava encarregada de ir 
buscar o duque e conduzi-lo ao Louvre, fora raptada. Durante dois dias ignorou-se por completo o que lhe acontecera e tudo ficou em suspenso. Mas uma vez livre, 
uma vez posta em comunicao com La Porte, as coisas tinham retomado o seu curso e a jovem acabava de cumprir a perigosa empresa que, sem a sua priso, teria executado 
trs dias mais cedo.
Uma vez s, Buckingham aproximou-se de um espelho. Aquela farda de mosqueteiro ficava-lhe maravilhosamente.
Aos trinta e cinco anos, que contava ento, passava com justia por ser o mais belo gentil-homem e o mais elegante cavaleiro de Frana e de Inglaterra.
Favorito de dois reis, milionrio, todo-poderoso num reino que perturbava consoante a sua fantasia e acalmava conforme o seu capricho, Georges Villiers, duque de 
Buckingham, dedicara-se a levar uma dessas existncias fabulosas que permanecem no curso dos sculos como um assombro para a posteridade.
Por isso, seguro de si mesmo, convicto do seu poder, certo de que as leis que regiam os outros homens o no podiam atingir, ia direito ao fim que se fixara, ainda 
que esse fim fosse to elevado e deslumbrante que para outro seria loucura imagin-lo sequer. Fora assim que conseguira aproximar-se vrias vezes da bela e orgulhosa 
Ana de ustria e lev-la a am-lo,  fora de a deslumbrar.
Georges Villiers colocou-se portanto diante de um espelho, como dissemos, restituiu  sua bela cabeleira loura as ondas que o peso do chapu lhe fizera perder, cofiou 
o bigode e, com o corao a transbordar de alegria, feliz e orgulhoso por estar perto o momento que to longamente desejara, sorriu a si mesmo de orgulho e esperana.
Neste momento uma porta oculta na parede abriu-se e apareceu uma mulher. Buckingham viu-a surgir no espelho e soltou um grito: era a rainha!
Ana de ustria contava ento vinte e seis ou vinte e sete anos, isto , encontrava-se em todo o esplendor da sua beleza.
A sua maneira de andar era a de uma rainha ou de uma deusa; os seus olhos, que emitiam reflexos de esmeralda, eram perfeitamente belos e ao mesmo tempo cheios de 
doura e majestade.
Tinha a boca pequena e vermelha, e embora o seu lbio inferior, como o dos prncipes da Casa de ustria, se salientasse ligeiramente do outro, o seu sorriso era 
to gracioso quando descontrado como desdenhoso quando queria demonstrar desprezo.
A sua pele era citada pela sua suavidade e pelo seu aveludado, as mos e os braos eram de uma beleza espantosa, e todos os poetas da poca os cantavam como incomparveis.
Finalmente o cabelo, que de louro que fora na sua juventude se tornara castanho, e que usava frisado e com muito p, emoldorava-lhe admiravelmente o rosto, no qual 
o censor mais rgido desejaria ver apenas um pouco menos de carmim e o estaturio mais exigente um pouco mais de delicadeza no nariz.
Buckingham ficou um instante deslumbrado; nunca Ana de ustria lhe aparecera to bela no meio dos bailes, das festas, dos torneios, como lhe aparecia naquele momento, 
envergando um simples vestido de cetim branco e acompanhada de Dona Estefnia, a nica das suas criadas espanholas que no fora expulsa pelo cime do rei e pelas 
perseguies de Richelieu.
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Ana de ustria deu dois passos em frente; Buckingham precipitou-se de joelhos e antes que a rainha tivesse tempo de lho impedir beijou-lhe a fmbria do vestido.
- Duque, j sabeis que no fui eu que vos mandei escrever.
- Claro, claro, senhora! Claro, Majestade! - exclamou o duque. - Sei que tenho sido um louco, um insensato, em crer que a neve se animaria, que o mrmore aqueceria; 
mas que quereis, quando se ama acredita-se facilmente no amor; de resto, no perdi tudo nesta viagem, uma vez que vos vejo.
- Sim - respondeu Ana -, mas sabeis porqu e como vos vejo, milorde. Vejo-vos por compaixo para convosco; vejo-vos porque, insensvel a todos os meus sofrimentos, 
vos obstinastes em permanecer numa cidade onde, ficando, correis perigo de morte e pondes em perigo a minha honra; vejo-vos para vos dizer que tudo nos separa, as 
profundezas do mar, a inimizade dos reinos, a santidade dos juramentos.  sacrilgio lutar contra tantas coisas, milorde. Vejo-vos finalmente para vos dizer que 
no nos devemos ver mais.
- Falai, senhora; falai, rainha - pediu Buckingham. - A doura da vossa voz abafa a dureza das vossas palavras. Falais de sacrilgio! Mas o sacrilgio est na separao 
de coraes que Deus formou um para o outro.
- Milorde, esqueais que nunca vos disse que vos amava! - protestou a rainha.
- Mas tambm nunca me dissestes que me no amveis; e realmente, dizer-me semelhantes palavras seria da parte de Vossa Majestade uma enorme ingratido. Porque, dizei-me, 
onde encontrareis um amor igual ao meu, um amor que nem o tempo, nem a ausncia, nem o desespero, conseguem extinguir; um amor que se contenta com uma fita extraviada, 
um olhar perdido, uma palavra escapada? H trs anos, senhora, que vos vi pela primeira vez, e h trs anos que vos amo assim. Quereis que vos diga como estveis 
vestida da primeira vez que vos vi? Quereis que descreva cada um dos adornos da vossa indumentria? Ainda vos vejo... Estveis sentada em almofadas,  moda de Espanha; 
tnheis um vestido de cetim verde, com bordados de ouro e prata; mangas pendentes e apanhadas nos vossos belos braos, nesses braos admirveis, com grandes diamantes; 
tnheis uma gargantilha fechada e uma touquinha na cabea, da cor do vestido, encimada por uma pena de gara-real. Oh, esperai, fecho os olhos e vejo-vos tal como 
estveis ento! Abro-os e vejo-vos tal como sois agora, isto , cem vezes ainda mais bela!
- Que loucura! - murmurou Ana de ustria, que no tinha coragem de se zangar com o duque por ter conservado to bem o seu retrato no corao. - Que loucura alimentar 
uma paixo intil com semelhantes recordaes!
- E com que quereis que viva? S tenho recordaes... So a minha felicidade, o meu tesouro, a minha esperana. Cada vez que vos vejo  mais um diamante que guardo 
no escrnio do meu corao. Este  o quarto que deixais cair e que apanho;

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porque em trs anos, senhora, s vos vi quatro vezes: a primeira de que acabo de vos falar, a segunda em casa da Sr.a de Chevreuse, a terceira nos jardins de Amiens.
- Duque, no faleis dessa noite - pediu a rainha, corando.
- Oh, pelo contrrio, falemos dela, senhora, falemos! Foi a noite mais feliz e radiosa da minha vida. Lembrai-vos da bonita noite que estava? Como o ar estava suave 
e perfumado, como o cu estava azul e todo cravejado de estrelas! Dessa vez, senhora, pude estar um instante sozinho convosco; dessa vez estveis pronta a dizer-me 
tudo, a contar-me o isolamento da vossa vida, os desgostos do vosso corao. Estveis apoiada no meu brao... neste. Sentia, inclinando a cabea para o vosso lado, 
os vossos belos cabelos aforarem-me o rosto, e todas as vezes que o afloravam estremecia da cabea aos ps. Oh, rainha, rainha! No sabeis tudo o que existe de felicidades 
do Cu, de alegrias do Paraso, encerradas num momento assim. Daria os meus bens, a minha fortuna, a minha glria, tudo o que me resta de vida, por um instante assim, 
por uma noite idntica! Porque naquela noite, senhora, naquela noite, amveis-me, juro-vo-lo.
- Milorde,  possvel, sim, que a influncia do lugar, que o encanto dessa bonita noite, que a fascinao do vosso olhar, que as mil circunstncias, enfim, que se 
conjugam s vezes para perder uma mulher se tenham congregado  minha volta nessa noite fatal; mas como vistes, milorde, a rainha veio em socorro da mulher que fraquejava: 
 primeira palavra que ousastes dizer,  primeira audcia a que tive de responder, chamei-a.
- Sim, sim, isso  verdade, e outro amor que no fosse o meu sucumbiria a essa prova; mas o meu amor saiu dela mais ardente e eterno. Julgastes fugir-me regressando 
a Paris, julgastes que no ousaria deixar o tesouro pelo qual o meu amo e senhor me encarregara de velar. Que me importam a mim todos os tesouros do mundo e todos 
os reis da Terra! Oito dias depois estava de regresso, senhora. Dessa vez no tivestes nada para me dizer: arrisquei o meu valimento, a minha vida, para vos ver 
um segundo, nem sequer vos toquei na mo, e perdoastes-me ao ver-me to submisso e arrependido.
- Pois sim, mas a calnia apoderou-se de todas essas loucuras, para as quais em nada contribu como bem sabeis, milorde. O rei, espicaado pelo Sr. Cardeal, fez 
um barulho terrvel: a Sr.a de Vernet foi expulsa, Putange exilado, a Sr.a de Chevreuse caiu em desgraa, e quando quisestes voltar como embaixador em Frana o prprio 
rei, lembrai-vos, milord, o prprio rei se ops.
- Sim, e a Frana vai pagar com uma guerra a recusa do seu rei. Se no posso tornar a ver-vos, senhora, pois bem: quero que todos os dias ouais falar de mim. Que 
fim pensveis que tiveram a expedio  R e a que julgais dever-se a liga com os protestantes de La Rochelle que projecto? Ao prazer de vos ver. No espero penetrar 
 mo armada at Paris, bem o sei; mas esta guerra poder conduzir a uma paz, essa paz necessitar de um negociador e esse negociador serei eu.

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Ningum ousar voltar a recusar-me ento, e virei a Paris, ver-vos-ei e serei feliz um instante. Milhares de homens,  certo, pagaro com a vida a minha felicidade; 
mas que me importar isso, desde que vos torne a ver! Tudo isto talvez seja louco, talvez seja insensato; mas dizei-me, que mulher tem um homem mais apaixonado? 
Que rainha tem servidor mais ardente?
- Milorde, milorde invocais em vossa defesa coisas que ainda vos acusam; milorde, todas essas provas de amor que me quereis dar so quase crimes.
- Porque me no amais, senhora. Se me amsseis, vereis tudo doutra maneira; se me amsseis... Oh, se me amsseis seria demasiada felicidade para mim e enlouqueceria! 
A Sr.a de Chevreuse, de quem falveis h pouco, a Sr.a de Chevreuse foi menos cruel do que vs: Holland amou-a e ela correspondeu ao seu amor.
- A Sr.a de Chevreuse no era rainha - murmurou Ana de ustria, vencida, mal-grado seu, pela expresso de um amor to profundo.
- Amar-me-eis portanto se o no fsseis, senhora? Dizei, amar-me-eis? Posso pois crer que  apenas a dignidade da vossa posio que vos torna cruel para mim? Posso 
pois crer que se fsseis a Sr.a de Chevreuse o pobre Buckingham poderia ter esperana? Obrigado por essas doces palavras,  minha bela rainha, cem vezes obrigado!
- Mas, milorde, percebestes mal, interpretastes mal; no quis dizer...
- Silncio! Silncio! - exclamou o duque. - Se sou feliz por via de um erro no tenhais a crueldade de mo roubar. Vs prpria o dissestes, atraram-me a uma cilada 
onde talvez deixe a vida, porque,  estranho, mas h algum tempo tenho o pressentimento de que vou morrer.
E o duque sorriu, com um sorriso triste e encantador ao mesmo tempo.
- Oh, meu Deus! - exclamou Ana de ustria com um acento de terror que provava que um interesse maior do que queria confessar a ligava ao duque.
- No vos digo isto para vos assustar, senhora, no;  at ridculo que vo-lo diga, e acreditai que nada me preocupam semelhantes sonhos. Mas as palavras que acabais 
de dizer, essa esperana que quase me destes, tudo pagaria, at a minha vida.
- Tambm eu, duque, tenho pressentimentos, tambm sonho - declarou Ana de ustria. - E sonhei que vos via cado, a sangrar de um ferimento.
- Do lado esquerdo, no  verdade, com uma faca? - interrompeu-a Buckingham.
- Sim,  isso. Milorde,  isso: do lado esquerdo com uma faca. Quem poderia dizer-vos que tive este sonho? S o confiei a Deus, nas minhas oraes.
- No quero saber mais nada: amais-me, senhora, no h dvida.
- Amo-vos, eu?
- Sim, vs. Mandar-vos-ia Deus os mesmos sonhos que a mim se me no amsseis? Teramos os mesmos pressentimentos se as nossas duas existncias no estivessem ligadas 
pelo corao? Amais-me,  rainha! Chorar-me-eis?
- Oh, meu Deus, meu Deus! - exclamou Ana de ustria. - Isto  mais do que posso suportar. Duque, em nome do Cu, parti, retirai-vos; no sei se vos amo ou se no 
vos amo; mas o que sei  que no serei perjura. Tende pois piedade de mim e ide-vos embora. Oh, se fsseis ferido em Frana, se morrsseis em Frana, se pudesse 
supor que o vosso amor por mim fora a causa da vossa morte, nunca me conformaria, enlouqueceria! Parti, pois, parti, suplico-vos.
- Como sois bela assim! Como vos amo! - exclamou Buckingham.
- Parti, parti, suplico-vos, e voltai mais tarde! Voltai como embaixador, voltai como ministro, voltai rodeado de guardas que vos defendam, de servidores que velem 
por vs, e ento no recearei mais pelos vossos dias e terei prazer em tornar a ver-vos.
-  verdade o que dizeis?
- ...
- Ento, dai-me um penhor da vossa indulgncia, um objecto que vos pertena e que me recorde que no sonhei; qualquer coisa que tenhais usado e que eu possa usar 
por minha vez, um anel, um colar, um cordo.
- E partireis, partireis se vos desse o que me pedis? -Sim.
- Imediatamente?
- Imediatamente.
- Deixareis a Frana e regressareis a Inglaterra?
- Sim, juro-vo-lo!
- Esperai ento, esperai.
E Ana de ustria reentrou nos seus aposentos e saiu quase imediatamente trazendo na mo um cofrezinho de pau-rosa com o seu monograma, todo incrustado de ouro.
- Tomai, milorde-duque, tomai, guardai isto como recordao minha.
Buckingham pegou no cofre e caiu segunda vez de joelhos.
- Prometestes-me partir - disse a rainha.
- E mantenho a minha palavra. A vossa mo, a vossa mo, senhora, e parto.
Ana de ustria estendeu-lhe a mo, fechou os olhos e apoiou-se com a outra em Estefnia, pois sentia que as foras lhe iam faltar.
Buckingham colou com paixo os lbios quela bela mo e depois disse, levantando-se:
- Dentro de seis meses, se no estiver morto, voltarei a ver-vos, senhora, nem que tenha de revolver o mundo para isso.
E fiel  promessa que fizeram correu para fora da sala. No corredor encontrou a Sr.a Bonacieux, que o esperava, e que com as mesmas precaues e a mesma felicidade 
o fez sair do Louvre.

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        XIII O SR. BONACIEUX


        Havia no meio disto, como oportunamente se viu, uma personagem com a qual, apesar da sua precria situao, ningum pareceu preocupar-se seno muito superficialmente; 
essa personagem era o Sr. Bonacieux, respeitvel mrtir das intrigas polticas e amorosas que se entrelaavam to bem umas nas outras naquela poca simultaneamente 
to cavalheiresca e to galante.
Felizmente - quer o leitor se lembre, quer se no lembre -, felizmente prometemos no o perder de vista.
Os polcias que o tinham prendido conduziram-no direito  Bastilha, onde o fizeram passar todo trmulo diante de um peloto de soldados que carregavam os mosquetes.
Da, introduzido numa galeria semi-subterrnea, foi alvo por parte dos que o tinham trazido das mais grosseiras injrias e do mais feroz tratamento. Os esbirros, 
viam que no estavam a tratar com um gentil-homem e procediam para com ele como se fosse um autntico labrego.
Ao cabo de meia hora, pouco mais ou menos, um escrivo veio pr fim s suas torturas, mas no suas inquietaes, ordenando que conduzissem o Sr. Bonacieux  cmara 
dos interrogatrios. Habitualmente interrogavam os prisioneiros em sua casa, mas com o Sr. Bonacieux no tinham estado com tantas consideraes.
Dois guardas apoderaram-se do retroseiro, fizeram-no atravessar um ptio e entrar num corredor onde havia trs sentinelas, abriram uma porta e empurraram-no para 
uma salita baixa onde todo o mobilirio era constitudo apenas por uma mesa, uma cadeira e... um comissrio. O comissrio estava sentado na cadeira e ocupado a escrever 
em cima da mesa.
Os dois guardas conduziram o prisioneiro diante da mesa e a um sinal do comissrio afastaram-se para fora do alcance da voz.
O comissrio, que at ali estivera de cabea baixa sobre os seus papis, levantou-a para ver quem tinha na sua frente.
O comissrio era um homem de cara rebarbativa, nariz adunco, mas-do-rosto plidas e salientes, olhos pequenos mas esquadrinhadores e vivos e fisionomia meio de 
fuinha, meio de raposa. A cabea, suportada por um pescoo comprido e mvel, saa-lhe da larga toga preta balouando-se num movimento mais ou menos idntico ao da 
tartaruga quando deita a cabea fora da carapaa.
Comeou por perguntar ao Sr. Bonacieux nome, idade, estado e domiclio.
O acusado respondeu que se chamava Jacque-Michel Bonacieux, que tinha cinquenta e um anos de idade, era retroseiro reformado e residia na Rua dos Fossoyeurs, nmero 
onze.

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Ento, em vez de continuar o interrogatrio, o comissrio fez-lhe um grande discurso sobre o perigo que corria um burgus obscuro em meter-se em coisas pblicas.
A este exrdio juntou uma exposio do poder e dos actos do Sr. Cardeal, esse ministro incomparvel, esse mulo dos ministros passados, esse exemplo dos ministros 
futuros: actos e poder que ningum contrariava impunemente.
Depois desta segunda parte do seu discurso, fixou o olhar de gavio no pobre Bonacieux e convidou-o a reflectir na gravidade da sua situao.
As reflexes do retroseiro estavam todas feitas: dava ao Diabo o momento em que o Sr. de La Porte tivera a ideia de o casar com a afilhada e sobretudo o momento 
em que a afilhada fora aceite como roupeira da rainha.
O fundo do carcter de mestre Bonacieux era constitudo por um profundo egosmo de mistura com uma avareza srdida, tudo temperado por uma cobardia extrema. O amor 
que lhe inspirara a jovem esposa era um sentimento muito secundrio que no podia competir com os sentimentos primitivos que acabamos de enumerar.
Bonacieux reflectiu, com efeito, mas sobre o que acabavam de lhe dizer.
- Mas, Sr. Comissrio - disse timidamente -, acreditai que conheo e aprecio mais que ningum o mrito da incomparvel Eminncia pela qual temos a honra de ser governados.
- Deveras? - perguntou o comissrio em ar de dvida. - Se fosse realmente assim, como se compreenderia que estivsseis na Bastilha?
- Como c estou, ou antes por que c estou - respondeu o Sr. Bonacieux -, -me absolutamente impossvel dizer-vos, pois eu prprio o ignoro; mas sem dvida nenhuma 
no  por ter ofendido, pelo menos conscientemente, o Sr. Cardeal.
- No entanto, deveis ter cometido um crime, pois estais aqui acusado de alta traio.
- De alta traio?! - gritou Bonacieux, espantado. - De alta traio?! E como quereis que um pobre retroseiro que detesta os huguenotes e abomina os Espanhis seja 
acusado de alta traio? Reflecti, senhor; isso  materialmente impossvel.
- Sr. Bonacieux - disse o comissrio, olhando o acusado como se os seus olhinhos possussem a faculdade de ler at ao fundo dos coraes -, Sr. Bonacieux, no tendes 
uma mulher?
- Tenho, senhor - respondeu o retroseiro, todo trmulo, adivinhando que era por ali que o caso se ia complicar. - Isto , tinha.
- Como, tnheis?! Que fizestes dela se j a no tendes?
- Raptaram-na, senhor.
- Raptaram-na? - repetiu o comissrio. - Ah!...
Bonacieux sentiu que com este "ah!..." o assunto se complicava cada vez mais.
- Raptaram-vo-la! - tornou o comissrio. - E sabeis que homem cometeu esse rapto?

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- Julgo conhec-lo.
- Quem ?
- Notai que no afirmo nada, Sr. Comissrio, que desconfio apenas...
- De quem desconfiais? Vamos, respondei francamente.
O Sr. Bonacieux estava na maior perplexidade: deveria negar tudo ou dizer tudo? Se negasse tudo, poderiam crer que tinha muito que confessar; se dissesse tudo, daria 
prova de boa vontade. Resolveu portanto dizer tudo.
- Desconfio de um homem alto, moreno, de rosto altivo, com todo o ar de um grande senhor; seguiu-nos vrias vezes, parece-me, quando esperava a minha mulher diante 
da porta do Louvre para a levar para casa.
O comissrio pareceu experimentar certa inquietao.
- E o seu nome? - perguntou.
- Quanto ao seu nome, no sei nada, mas se alguma vez o encontrar reconhec-lo-ei imediatamente, garanto-vos, ainda que seja no meio de mil pessoas.
A fronte do comissrio ensombrou-se.
- Reconhec-lo-eis entre mil, dizeis?
- Isto  - respondeu Bonacieux ao ver que enveredara por mau caminho -, isto ...
- Respondestes que o reconhecereis - sublinhou o comissrio. - Est bem, basta por hoje. Antes de irmos mais longe, algum tem de ser prevenido de que conheceis 
o raptor da vossa mulher.
- Mas se no vos disse que o conhecia! - gritou Bonacieux, desesperado. - Pelo contrrio, disse-vos...
- Levai o prisioneiro - ordenou o comissrio aos dois guardas.
- E para onde deve ser conduzido? - perguntou o escrivo.
- Para um calabouo. - Qual?
- Meu Deus, para o primeiro que esteja livre, contanto que feche bem - respondeu o comissrio com uma indiferena que encheu de horror o pobre Bonacieux.
"Meu Deus, meu Deus, a desgraa desabou sobre a minha cabea! A minha mulher cometeu algum crime horrvel, julgam-me seu cmplice e castigar-me-o com ela. Decerto 
falou e confessou que me dissera tudo... Uma mulher  to fraca! Um calabouo, o primeiro que esteja livre.  isso: uma noite passa depressa, e amanh... para a 
roda, para a forca! Oh, meu Deus, tende piedade de mim!"
Alheios s lamentaes de mestre Bonacieux, a quem de resto j deviam estar habituados, os dois guardas agarraram o prisioneiro pelos braos e levaram-no, enquanto 
o comissrio escrevia  pressa uma carta que o seu escrivo esperava.
Bonacieux no pregou olho, no porque o seu calabouo fosse de todo desagradvel, mas sim porque as suas preocupaes eram demasiado grandes. Ficou toda a noite 
sentado num banco, estremecendo ao
menor rudo; e quando os primeiros raios de luz lhe entraram na cela, a aurora pareceu-lhe ter adquirido tons fnebres.
De sbito, ouviu correr os ferrolhos e teve um sobressalto terrvel. Julgava que o vinham buscar para o conduzir ao cadafalso. Por isso, quando viu pura e simplesmente 
aparecer, em vez do carrasco que esperava, o comissrio e o escrivo da vspera, esteve quase a saltar-lhes ao pescoo.
- O vosso caso complicou-se muito desde ontem  noite, meu pobre homem - disse-lhe o comissrio -, e aconselho-vos a dizer toda a verdade, pois s o vosso arrependimento 
pode conjurar a clera do cardeal.
- Mas estou pronto a dizer tudo! - gritou Bonacieux. - Ao menos tudo o que saiba. Perguntai, suplico-vos.
- Primeiro, onde est a vossa mulher?
- Como vos disse, raptaram-na.
- Pois sim, mas ontem, s cinco horas da tarde, graas a vs, fugiu.
- A minha mulher fugiu?! - gritou Bonacieux. - Oh, a desgraada! Senhor, se ela fugiu no foi por minha culpa, juro-vos.
- Que fostes ento fazer a casa do Sr. d'Artagnan, vosso vizinho, com o qual tivestes uma longa conferncia?...
- Ah, sim, Sr. Comissrio,  verdade, e confesso que fiz mal! Fui de facto a casa do Sr. d'Artagnan.
- Qual foi o fim dessa visita?
- Pedir-lhe que me ajudasse a encontrar a minha mulher. Julgava ter o direito de a reclamar; mas enganava-me, ao que parece, e peo-vos perdo.
- E que respondeu o Sr. d'Artagnan?
- O Sr. d'Artagnan prometeu-me a sua ajuda, mas no tardei a perceber que me atraioava.
- Estais a enganar a justia! O Sr. d'Artagnan fez um pacto convosco e em virtude desse pacto ps em fuga os homens da Polcia que tinham prendido a vossa mulher 
e subtraiu-a a todas as buscas.
- O Sr. d'Artagnan raptou a minha mulher? Essa agora!... Mas por que me dizeis isso?
- Felizmente, o Sr. d'Artagnan est nas nossas mos e ides ser acareado com ele.
- Palavra de honra que no desejo outra coisa! - exclamou Bonacieux. - Sempre  uma cara conhecida...
- Mandai entrar o Sr. d'Artagnan - ordenou o comissrio aos dois guardas.
Os guardas mandaram entrar Athos.
- Sr. d'Artagnan - disse o comissrio, dirigindo-se a Athos -, declarai o que se passou entre vs e este senhor.
- Mas este no  o Sr. d'Artagnan! - gritou Bonacieux.
- Como, no  o Sr. d'Artagnan?! - exclamou por seu turno o comissrio.
- De modo nenhum - respondeu Bonacieux.

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- Ento como  que se chama este senhor? - perguntou o comissrio.
- No vo-lo posso dizer, porque no o conheo.
- No o conheceis?... -No.
- Nunca o vistes?
- Vi-o, mas no sei como se chama.
- O vosso nome? - perguntou o comissrio.
- Athos - respondeu o mosqueteiro.
- Mas isso no  nome de homem,  nome de montanha! - gritou o pobre inquiridor, que comeava a perder a cabea.
-  o meu nome - respondeu tranquilamente Athos.
- Mas dissestes-me que vos chamveis d'Artagnan. -Eu?
- Sim, vs.
- Bom, perguntaram-me: "Sois o Sr. d'Artagnan?" E eu respondi: "Tendes a certeza?" Os meus guardas redarguiram-me que tinham e eu no os quis contrariar. Alis, 
podia estar enganado.
- Insultais a majestade da justia, senhor!
- De modo nenhum - respondeu tranquilamente Athos.
- Sois o Sr. d'Artagnan.
- Como vedes, sois vs que o continuais a dizer.
- Mas - interveio o Sr. Bonacieux - se vos digo, Sr. Comissrio, que no h a mais pequena dvida! O Sr. d'Artagnan  meu inquilino, e portanto, embora no me pague 
as rendas, e precisamente por causa disso, devo conhec-lo. O Sr. d'Artagnan  um jovem de dezanove ou vinte anos apenas e este senhor tem pelo menos trinta. O Sr. 
d'Artagnan est nos guardas do Sr. dos Essarts e este senhor est na companhia dos mosqueteiros do Sr. de Trville. Vede o uniforme, Sr. Comissrio, vede o uniforme.
-  verdade - murmurou o comissrio. - Por Deus,  verdade!
Neste momento a porta abriu-se vivamente e um mensageiro introduzido por um dos carcereiros da Bastilha entregou uma carta ao comissrio.
- Oh, a desgraada! - gritou o comissrio.
- Como? Que dizeis? De quem falais? Espero que no seja da minha mulher!
- Pelo contrrio,  dela. O vosso caso est cada vez pior...
- Homessa! - gritou o retroseiro, exasperado. - Fazei-me o favor de me dizer, senhor, como  que o meu caso pode piorar por via do que faz a minha mulher enquanto 
estou preso!
- Porque o que ela faz  executar um plano estabelecido entre vs, um plano infernal!
- Juro-vos, Sr. Comissrio, que lavrais no mais profundo erro, que no sei absolutamente nada do que devia fazer a minha mulher, que sou inteiramente estranho ao 
que ela tem feito e que, se cometeu tolices, a renego, a desminto, a amaldioo.


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- Bom - disse Athos ao comissrio -, se no necessitais mais de mim aqui mandai-me para qualquer parte, pois o vosso Sr. Bonacieux  muito aborrecido.
- Reconduzi os prisioneiros s suas celas - ordenou o comissrio, designando com o mesmo gesto Athos e Bonacieux - e que sejam guardados mais rigorosamente do que 
nunca.
- No entanto - interveio Athos com a sua calma habitual -, se  com o Sr. d'Artagnan que precisais de vos entender, no vejo muito bem em que o possa substituir.
- Fazei o que vos disse! - gritou o comissrio. - E o segredo mais absoluto, ouvistes?
Athos seguiu os seus guardas encolhendo os ombros e o Sr. Bonacieux soltando lamentos capazes de cortar o corao de um tigre.
Fecharam o retroseiro na mesma cela onde passara a noite e a o deixaram todo o dia. E durante todo o dia Bonacieux chorou como um autntico retroseiro, visto no 
ser de modo nenhum homem de espada, como ele prprio j nos disse.
 noite, por volta das nove horas, no momento em que se ia decidir a meter-se na cama, ouviu passos no seu corredor. Os passos aproximaram-se da sua cela, a porta 
abriu-se e apareceram guardas.
- Acompanhai-nos - ordenou-lhe um graduado que vinha atrs dos guardas.
- Acompanhar-vos? - protestou Bonacieux. - Acompanhar-vos a esta hora? E para onde, meu Deus?
- Para onde temos ordem de vos conduzir.
- Mas isso no  resposta.
-  a nica que vos podemos dar.
- Ah, meu Deus, meu Deus - murmurou o pobre retroseiro -, desta vez estou perdido!
E seguiu maquinalmente e sem resistncia os guardas que o tinham vindo buscar.
Seguiu pelo mesmo corredor que j percorrera, atravessou um primeiro ptio e depois segundo corpo de edifcios; por fim, encontrou  porta do ptio de entrada uma 
carruagem rodeada por quatro guardas a cavalo. Mandaram-no entrar para a carruagem, o graduado sentou-se a seu lado, fechou a portinhola  chave e ambos se encontraram 
numa priso rolante.
A carruagem ps-se em movimento, lenta como uma carreta funerria. Atravs da porta gradeada, o prisioneiro via os prdios e o pavimento empedrado, mas mais nada. 
No entanto, como verdadeiro parisiense que era, Bonacieux identificava cada rua pelos marcos, pelas tabuletas e pelos candeeiros. Ao chegarem a Saint-Paul, onde 
executavam os condenados da Bastilha, quase desmaiou e benzeu-se duas vezes. Julgara que a carruagem pararia ali, mas no parou.
Mais adiante, novo e enorme terror se apoderou dele, quando seguiram ao longo do Cemitrio de Saint-Jean, onde sepultavam os criminosos de Estado. Apenas uma coisa 
o tranquilizou um pouco: antes de os sepultarem cortavam-lhes geralmente a cabea, e ele ainda tinha a cabea em cima dos ombros.

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Mas quando viu que a carruagem tomava o caminho da Greve e distinguiu os telhados em bico da Cmara Municipal, e viu a carruagem meter por debaixo da arcada, julgou 
que tudo terminara para si, quis-se confessar ao graduado e perante a sua recusa soltou gritos to lamentosos que o graduado lhe disse que, se continuasse a berrar 
assim o amordaava.
Esta ameaa tranquilizou um pouco Bonacieux: se o fossem executar na Greve, no valeria a pena amorda-lo, visto estarem praticamente no local da execuo. Com 
efeito, a carruagem atravessou a praa fatal sem se deter. Agora, a nica coisa a temer era a Croix-du-Trahoir: a carruagem tomou justamente esse caminho.
Desta vez, no havia dvida; era na Croix-du-Trahoir que executavam os criminosos subalternos. Bonacieux persuadira-se de que era digno de Saint-Paul ou da Praa 
de Greve; afinal, era na Croix-du-Trahoir que iam acabar a sua viagem e o seu destino! Ainda no podia ver a malfadada cruz, mas sentia-a de certo modo vir ao seu 
encontro. Quando se encontrou apenas a uma vintena de passos, ouviu um rumor e a carruagem parou. Era mais do que podia suportar o pobre Bonacieux, j esmagado pelas 
sucessivas emoes por que passara; soltou um gemido fraco, que se poderia tomar pelo derradeiro suspiro de um moribundo, e desmaiou.


        XIV- O HOMEM DE MEUNG


        Havia ali um ajuntamento produzido no pela espera de um homem destinado a ser enforcado, mas sim pela contemplao de um j enforcado.
A carruagem parou um instante, depois retomou o seu andamento, atravessou a multido, continuou o seu caminho, meteu pela Rua de Saint-Honor, virou para a Rua dos 
Bons-Enfants e parou diante de uma porta baixa.
A porta abriu-se e dois guardas receberam nos braos Bonacieux amparado pelo graduado. Empurraram-no para um passadio, fizeram-no subir uma escada e depositaram-no 
numa antecmara.
Todos estes movimentos foram executados maquinalmente por ele.
Caminhara como se caminha em sonhos; entrevira os objectos atravs de um nevoeiro; os seus ouvidos tinham distinguido sons sem os compreender; poderiam t-lo executado 
naquele momento que no esboaria um gesto de defesa nem soltaria um grito a implorar piedade.
Ficou assim no banco, encostado  parede e com os braos pendentes, no mesmo stio onde os guardas o tinham depositado.
No entanto, como ao olhar  sua volta no visse nenhum objecto ameaador, como nada indicasse que corria um perigo real, como o banco estivesse convenientemente 
estofado, como a parede estivesse forrada de belo couro de Crdova e como grandes cortinados de damasco vermelho adejasem diante da janela, seguros por cordes dourados, 
compreendeu pouco a pouco que o seu terror era exagerado e comeou a mexer a cabea da direita para a esquerda e de baixo para cima.
Com este movimento, a que ningum se ops, ganhou um pouco de coragem e arriscou-se a estender uma perna e depois a outra; por fim, apoiando-se nas mos, levantou-se 
do banco e encontrou-se em p.
Neste momento, um oficial de aspecto agradvel abriu um reposteiro, continuou a trocar ainda algumas palavras com uma pessoa que se encontrava na diviso vizinha 
e por fim virou-se para o prisioneiro e perguntou-lhe:
- Sois vs que vos chamais Bonacieux?
- Sou, sim, Sr. Oficial - balbuciou o retroseiro, mais morto do que vivo. - Para vos servir...
- Entrai - disse o oficial.
E desviou-se para que o retroseiro pudesse passar. Este obedeceu sem protestar e entrou na sala onde parecia ser esperado.
Era um grande gabinete com as paredes guarnecidas de armas ofensivas e defensivas, fechado e estofado, e no qual havia j lume, embora se estivesse apenas em fins 
de Setembro. Uma mesa quadrada, coberta de livros e papis, sobre os quais estava desenrolado um mapa enorme da cidade de La Rochelle, ocupava o meio do aposento.
De p diante da chamin encontrava-se um homem de estatura mediana, de rosto altivo e orgulhoso, olhos penetrantes, testa larga e corpo magro, que parecia ainda 
mais esguio devido  pra e ao bigode que usava. Embora aquele homem contasse apenas trinta e seis ou trinta e sete anos, j tinha o cabelo, o bigode e a pra grisalhos. 
Aquele homem, apesar de no usar espada, tinha todo o aspecto de um homem de guerra, e as suas botas de pele de bfalo, ainda levemente cobertas de poeira, indicavam 
que montara a cavalo durante o dia.
Aquele homem era Armand-Jean Duplessis, cardeal de Richelieu. no como no-lo representam, alquebrado como um velho, sofrendo como um mrtir, curvado, a voz apagada, 
enterrado numa grande poltrona como numa tumba antecipada, vivendo apenas graas  fora do seu gnio e j s sustentando a luta com a Europa atravs da eterna aplicao 
do seu pensamento; mas tal como era realmente naquela poca, isto , hbil e galante cavaleiro, j fraco de corpo, mas sustentado pela energia moral que o tornou 
um dos homens mais extraordinrios que jamais existiram. Naquele momento, depois de ter mantido o duque de Nevers no seu ducado de Mntua e de tomar Nimes, Castres 
e Uzs, preparava-se para expulsar os Ingleses da ilha de R e cercar La Rochelle.
 primeira vista nada denotava portanto o cardeal e era impossvel queles que o no conheciam adivinhar diante de quem se encontravam.
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O pobre retroseiro permaneceu de p  porta, enquanto os olhos da personagem que acabamos de descrever se fixavam nele e pareciam querer penetrar at ao fundo do 
seu passado.
-  este o tal Bonacieux? - perguntou aps um momento de silncio.
- , sim, monsenhor - respondeu o oficial.
- Est bem, dai-me aqueles papis e deixai-nos.
O oficial pegou da mesa os papis designados, entregou-os a quem os pedira, inclinou-se at ao cho e saiu.
Bonacieux reconheceu naqueles papis os seus interrogatrios na Bastilha. De vez em quando o homem da chamin levantava os olhos dos depoimentos e cravava-os como 
dois punhais at ao fundo do corao do pobre retroseiro.
Ao cabo de dez minutos de leitura e dez segundos de exame, o cardeal estava elucidado.
- Aquela cabea nunca conspirou - murmurou. - Mas no importa, vejamos sempre.
- Sois acusado de alta traio - disse lentamente o cardeal.
- Foi o que j me disseram, monsenhor - disse Bonacieux, dando ao inquiridor o ttulo que ouvira dar-lhe o oficial. - Mas juro-vos que estou inocente.
O cardeal reprimiu um sorriso.
- Conspirastes com a vossa mulher, com a Sr.a de Chevreuse e com milorde o duque de Buckingham.
- De facto, monsenhor, ouvi pronunciar todos esses nomes - respondeu o retroseiro.
- E em que ocasio?
- Ela dizia que o cardeal de Richelieu atrara o duque de Buckingham a Paris para o perder e perder a rainha com ele.
- Ela dizia isso? - gritou o cardeal, com violncia.
- Dizia, sim, monsenhor. Mas eu disse-lhe que fazia mal em estar com semelhantes conversas, pois Sua Eminncia era incapaz...
- Calai-vos, sois um imbecil - interrompeu-o o cardeal.
- Foi exactamente o que a minha mulher me respondeu, monsenhor.
- Sabeis quem raptou a vossa mulher?
- No, monsenhor.
- Mas tendes desconfianas?
- Pois tenho, monsenhor; mas essas desconfianas pareceram contrariar o Sr. Comissrio e j as no tenho.
- Sabeis que a vossa mulher fugiu?
- No, monsenhor. Soube-o desde que estou preso e sempre por intermdio do Sr. Comissrio, um homem muito amvel!
O cardeal reprimiu segundo sorriso.
- Ignorais ento o que foi feito da vossa mulher desde a sua fuga?
- Completamente, monsenhor. Mas deve ter regressado ao Louvre.
-  uma hora da madrugada ainda l no tinha regressado.

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- Oh, meu Deus! Nesse caso, que lhe ter acontecido?
- Sab-lo-emos, estai tranquilo. No se esconde nada ao cardeal; o cardeal sabe tudo.
- Sendo assim, monsenhor, parece-vos que o cardeal consentir em dizer-me que foi feito da minha mulher?
- Talvez. Mas primeiro  preciso que digais tudo o que sabeis a respeito das relaes da vossa mulher com a Sr.a de Chevreuse.
- Mas, monsenhor, no sei nada, nunca a vi.
- Quando eis buscar a vossa mulher ao Louvre ela ia directamente
para vossa casa?
- Quase nunca: tinha negcios com comerciantes de panos e eu
levava-a l.
- E quantos eram esses comerciantes de panos?
- Dois, monsenhor.
- Onde moravam?
- Um, na Rua de Vaugirard; o outro, na Rua de La Harpe.
- Entrveis em casa deles com ela?
- Nunca, monsenhor; esperava-a  porta.
- E que pretexto vos dava ela para entrar assim sozinha?
- Nenhum; dizia-me para esperar e eu esperava.
- Sois um marido complacente, meu caro Sr. Bonacieux! - disse o cardeal.
- "Trata-me por seu caro senhor!", disse para consigo mesmo o retroseiro. "O caso parece bem encaminhado!"
- Reconhecereis essas portas?
- Reconheceria, sim.
- Sabeis os nmeros?
- Sei.
- Quais so?
- Na Rua de Vaugirard o nmero 25; na Rua de la Harpe o nmero 75.
- Est bem - disse o cardeal.
Depois destas palavras pegou numa campainha de prata e tocou; o oficial voltou a entrar.
- Ide buscar-me Rochefort - disse a meia voz. - Que venha imediatamente se j regressou.
- O conde est c - informou o oficial - e pede instantemente para falar a Vossa Eminncia!
- A Vossa Eminncia... - murmurou Bonacieux, que sabia ser esse o ttulo que davam habitualmente ao Sr. Cardeal. - A Vossa Eminncia!
- Que venha ento, que venha! - ordenou vivamente Richelieu.
O oficial correu para fora do gabinete, com a rapidez usada habitualmente por todos os servidores do cardeal no cumprimento das suas ordens.
- A Vossa Eminncia! - murmurava Bonacieux, rolando os olhos
apavorado.

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Ainda no tinham passado cinco segundos desde que o oficial saira quando a porta se abriu e entrou nova personagem.
-  ele! - exclamou Bonacieux.
- Ele, quem? - perguntou o cardeal.
- O que raptou a minha mulher.
O cardeal tocou segunda vez. O oficial reapareceu.
- Entregai este homem aos seus guardas e que espere que o volte a chamar  minha presena.
- No, monsenhor, no! Isso no! - gritou Bonacieux. - No  ele, enganei-me,  outro que no se parece nada com ele! Este senhor  um homem honesto.
- Levai esse imbecil! - ordenou o cardeal.
O oficial agarrou Bonacieux por baixo do brao e reconduziu-o  antecmara, onde os guardas o esperavam.
A nova personagem que acabava de entrar seguiu com a vista, impacientemente, Bonacieux, at este sair, e logo que a porta se fechou atrs dele disse, aproximando-se 
vivamente do cardeal:
- Encontraram-se.
- Quem? - perguntou Sua Eminncia.
- Ela e ele.
- A rainha e o duque? - perguntou Richelieu. -Sim.
- Onde?
- No Louvre.
- Tendes a certeza?
- Absoluta.
- Quem vo-lo disse?
- A Sr.a de Lannoy, que  dedicadssima a Vossa Eminncia, como sabeis.
- Por que no disse isso mais cedo?
- Quer por acaso, quer por desconfiana, a rainha mandou a Sr.a de Fargis dormir no seu quarto e reteve-a todo o dia.
- Est bem, fomos batidos. Procuremos tirar a nossa vingana.
- Ajudar-vos-ei com toda a minha alma, monsenhor, estai tranquilo.
- Como foi que isso aconteceu?
-  meia-noite e meia hora a rainha estava com as suas damas...
- Onde?
- No quarto de dormir...
- Bem.
- Quando vieram entregar-lhe um leno da parte da roupeira...
- E depois?
- A rainha manifestou imediatamente grande emoo e, apesar do carmim que lhe cobria a cara, empalideceu.
- Depois, depois!
- Entretanto, levantou-se e disse com voz alterada: "Minhas senhoras, esperai-me dez minutos; volto j." E abriu a porta da alcova e saiu.
- Porque no foi a Sr.a de Lannoy prevenir-vos imediatamente?

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- Ainda no havia a certeza de nada; alm disso, a rainha dissera: "Minhas senhoras, esperai-me", e ela no ousava desobedecer  rainha.
- E quanto tempo esteve a rainha fora do quarto?
- Trs quartos de hora.
- Nenhuma das suas damas a acompanhava?
- Apenas Dona Estefnia.
- E depois regressou?
- Regressou, mas para ir buscar um cofrezinho de pau-rosa com o seu monograma, e saiu imediatamente.
- E quando voltou, mais tarde, trazia consigo o cofre? -No.
- A Sr.a de Lannoy sabia o que havia no cofre?
- Sabia: as agulhetas de diamantes que Sua Majestade deu  rainha.
- E regressou sem o cofre?
- Regressou.
- A opinio da Sr.a de Lannoy  que ela as entregou ento a Buckingham?
- Tem a certeza disso.
- Como assim?
- Durante o dia, a Sr.a de Lannoy, na sua qualidade de aafata da rainha, procurou o cofre, pareceu inquieta por no o encontrar e acabou por perguntar por ele  
rainha.
- E a rainha?
- A rainha corou muito e respondeu que partira na vspera uma das agulhetas e a mandara consertar ao seu joalheiro.
-  preciso passar por l e verificar se isso  verdade ou no.
- J passei.
- Bom, e o joalheiro?
- O joalheiro no ouviu falar de nada.
- ptimo, ptimo! Nem tudo est perdido, Rochefort, e talvez... talvez tudo esteja agora melhor!
- A verdade  que no duvido que o gnio de Vossa Eminncia...
- Repare as tolices do meu agente, no ?
- Era exactamente o que ia dizer, se Vossa Eminncia me tivesse deixado acabar a frase.
- E agora, sabeis onde se escondem a duquesa de Chevreuse e o duque de Buckingham?
- No, monsenhor, os meus homens no conseguiram dizer-me nada de positivo a tal respeito.
- Sei-o eu.
- Vs, monsenhor?
- Sim. Ou pelo menos julgo saber. Devem estar escondidos um na Rua de Vaugirard, nmero 25, e o outro na Rua de La Harpe, nmero 75.
- Vossa Eminncia quer que os mande prender?
- Talvez seja demasiado tarde, j devem ter partido.

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- No importa, podemos verificar.
- Levai dez homens das minhas guardas e revistai as duas casas.
- Imediatamente, monsenhor.
E Rochefort correu para fora do gabinete.
O cardeal ficou s, reflectiu um instante e tocou pela terceira vez.
Reapareceu o mesmo oficial.
- Mandai entrar o prisioneiro - ordenou-lhe o cardeal.
Mestre Bonacieux foi introduzido de novo e a um sinal do cardeal o oficial retirou-se.
- Enganastes-me - disse severamente o cardeal.
- Eu?! - exclamou Bonacieux. - Eu, enganar Vossa Eminncia?!
- A vossa mulher, quando ia  Rua de Vaugirard e  Rua de La Harpe, no ia a casa de mercadores de panos.
- Ento aonde ia, Santo Deus?
- ia a casa da duquesa de Chevreuse e a casa do duque de Buckingham.
-  verdade - declarou Bonacieux, depois de apelar para todas as suas recordaes. - Sim,  isso, Vossa Eminncia tem razo. Disse vrias vezes  minha mulher que 
era estranho negociantes de panos morarem em casas daquelas, em casas sem tabuleta, e de todas as vezes a minha mulher desatou a rir. Ah, monsenhor - continuou Bonacieux, 
lanando-se aos ps de Sua Eminncia -, ah, sois bem o cardeal, o grande cardeal, o homem de gnio que toda a gente admira!
Por muito medocre que fosse o triunfo obtido sobre um indivduo to vulgar como Bonacieux, o cardeal nem por isso o saboreou menos durante um instante; depois, 
quase imediatamente, como se um novo pensamento lhe acudisse ao esprito, um sorriso franziu-lhe os lbios. Estendendo a mo ao retroseiro, disse-lhe:
- Levantai-vos, meu amigo: sois um homem honrado.
- O cardeal tocou-me na mo! Toquei na mo do grande homem! - exclamou Bonacieux. - O grande homem chamou-me seu amigo!
- Sim, meu amigo, sim! - repetiu o cardeal no tom paternal que sabia empregar s vezes, mas que s enganava quem o no conhecia. - E como suspeitaram injustamente 
de vs, tendes direito a uma indemnizao. Tomai, aceitai esta bolsa de cem pistolas e perdoai-me.
- Perdoar-vos, monsenhor? - repetiu Bonacieux, hesitante em pegar na bolsa, com receio, sem dvida, de que a pretensa ddiva no passasse de uma brincadeira de mau 
gosto. - Mas tendes todo o direito de me mandar prender, de me mandar torturar, de me mandar enforcar! Sois o senhor e no teria nada que me queixar. Perdoar-vos, 
monsenhor! Vamos, no penseis nisso!
- Vejo que sois generoso, meu caro Sr. Bonacieux, e agradeo-vos. Aceitais por tanto esta e ides-vos embora sem ser muito aborrecido?
- Vou-me embora encantado, monsenhor.
- Adeus, ento, ou antes at  vista, pois espero que nos voltemos a encontrar.
- Quando monsenhor quiser estarei s ordens de Vossa Eminncia.

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- No faltaro ocasies, podeis estar tranquilo, pois encontrei um encanto extremo na vossa conversao.
- Oh, monsenhor!
- At  vista, Sr. Bonacieux, at  vista.
E o cardeal fez-lhe um sinal com a mo, ao qual Bonacieux correspondeu inclinando-se at ao cho; depois saiu s arrecuas e quando chegou  antecmara o cardeal 
ouviu-o, no seu entusiasmo, gritar a plenos pulmes: "Viva monsenhor! Viva Sua Eminncia! Viva o grande cardeal!" O cardeal ouviu sorrindo esta brilhante manifestao 
dos sentimentos entusiastas de mestre Bonacieux; depois, quando os gritos de Bonacieux foram abafados pela distncia, murmurou:
- Aqui est um homem que de futuro ser capaz de morrer por mim.
E o cardeal ps-se a examinar com a maior ateno o mapa de la Rochelle que, como dissemos, estava estendido em cima da sua secretria, e traou com um lpis a linha 
onde devia passar o famoso dique que dezoito anos mais tarde fecharia o porto da cidade sitiada.
Quando estava mais profundamente absorto nas suas meditaes estratgicas, a porta abriu-se e entrou Rochefort.
- Ento? - perguntou vivamente o cardeal, levantando-se com uma rapidez que provava o grau de importncia que atribua  comisso de que encarregara o conde.
- Ento - respondeu este -, uma mulher de vinte e seis a vinte e oito anos e um homem de trinta e cinco a quarenta residiram efectivamente, um quatro dias e o outro 
cinco, nas casas indicadas por Vossa Eminncia; mas a mulher partiu esta noite e o homem esta manh.
- Eram eles! - gritou o cardeal, que olhava para o relgio. - E agora  demasiado tarde para correr atrs deles: a duquesa est em Tours e o duque em Bolonha.  
em Londres que  preciso procur-los.
- Quais so as ordens de Vossa Eminncia?
- Nem uma palavra do que se passou; que a rainha permanea em perfeita segurana; que ignore que sabemos o seu segredo; que julgue que andamos  procura de uma conspirao 
qualquer. Mandai-me o chanceler Sguier.
- E quanto quele homem, que decidiu Vossa Eminncia?
- Qual homem? - perguntou o cardeal.
- O tal Bonacieux.
- Aproveit-lo o melhor possvel. Fiz dele espio da mulher.
O conde de Rochefort inclinou-se como um homem que reconhece a grande superioridade do mestre e retirou-se.
Quando ficou s, o cardeal voltou a sentar-se, escreveu uma carta que lacrou com o seu sinete particular e depois tocou. O oficial entrou pela quarta vez.
- Mandai-me chamar Vitray e dizei-lhe que se prepare para uma viagem.
Pouco depois o homem que convocara estava de p diante dele, de botas e esporas.

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- Vitray - disse-lhe o cardeal -, ides partir a toda a pressa para Londres. No vos detereis um instante no caminho. Entregai esta carta a Milady. Aqui tendes um 
vale de duzentas pistolas; procurai o meu tesoureiro e levantai o dinheiro. Recebereis outro tanto se estiverdes aqui, de regresso, dentro de seis dias e vos tiverdes 
desempenhado cabalmente da minha comisso.
Sem responder uma s palavra, o mensageiro inclinou-se, pegou na carta e no vale de duzentas pistolas e saiu.
Eis o que continha a carta:


        Milady:


        Ide ao primeiro baile a que assista o duque de Buckingham. Ele ter no gibo doze agulhetas de diamantes. Aproximai-vos e cortai-lhes duas.
Assim que as agulhetas estiverem em vosso poder, preveni-me.

        XV- GENTE DE TOGA E GENTE DE ESPADA


        No dia seguinte quele em que estes acontecimentos se verificaram, como Athos no tivesse reaparecido, o Sr. de Trville fora avisado por d'Artagnan e por 
Porthos do seu desaparecimento.
Quanto a Aramis, pedira uma dispensa de cinco dias e encontrava-se em Ruo, dizia-se, por assuntos de famlia.
O Sr. de Trville era o pai dos seus soldados. O mais insignificante e desconhecido deles, desde que usasse o uniforme da companhia, podia estar to certo da sua 
ajuda e do seu apoio como da ajuda e do apoio de um prprio irmo.
Dirigiu-se portanto imediatamente ao tenente do crime, mandaram chamar o oficial que comandava o posto da Croix-Rouge e pelas informaes subsequentes souberam que 
Athos estava momentaneamente detido no For-l'vque.
Athos passara por todas as provaes que vimos Bonacieux sofrer.
Assistimos  cena da acareao entre os dois cativos. Athos, que nada dissera at ali com receio de que d'Artagnan, tambm inquieto, no tivesse disposto do tempo 
de que precisava, Athos declarou a partir daquele momento que se chamava Athos e no d'Artagnan.
Acrescentou que no conhecia nem o senhor nem a Sr.a Bonacieux e que nunca falara nem com uma nem com outro; que fora por volta das dez horas da noite visitar o 
Sr. d'Artagnan, seu amigo, mas que at quela hora estivera no palcio do Sr. de Trville, onde jantara. Vinte testemunhas, acrescentou, podiam atestar o facto, 
e mencionou diversos gentis-homens distintos, entre outros o Sr. Duque de La Trmouille.

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O segundo comissrio ficou to aturdido como o primeiro com a declarao simples e firme do mosqueteiro, do qual bem desejaria tirar a desforra que a gente de toga 
tanto gosta de obter da gente de espada; mas o nome do Sr. de Trville, bem como o do Sr. Duque de La Trmouille mereciam reflexo.
Athos foi tambm enviado ao cardeal, mas infelizmente o cardeal estava no Louvre com o rei.
Foi precisamente nesse momento que o Sr. de Trville, depois de falar com o tenente do crime e com o governador do For-l'vque, mas sem ter encontrado Athos, chegou 
aos aposentos de Sua Majestade.
Como capito dos mosqueteiros o Sr. de Trville tinha acesso ao rei em qualquer momento.
Sabemos quais eram as prevenes do rei contra a rainha, prevenes habilmente alimentadas pelo cardeal que, no tocante a intrigas, desconfiava infinitamente mais 
das mulheres do que dos homens. Uma das grandes causas dessa preveno era sobretudo a amizade de Ana de ustria pela Sr.a de Chevreuse. Estas duas mulheres preocupavam-no 
mais do que as guerras com a Espanha, as questinculas com a Inglaterra e as dificuldades financeiras. A seus olhos e segundo a sua convico a Sr.a de Chevreuse 
servia a rainha no s nas suas intrigas polticas, mas tambm, o que o atormentava ainda mais, nas suas intrigas amorosas.
Logo s primeiras palavras que dissera o Sr. Cardeal - que a Sr.a de Chevreuse, exilada em Tours e que julgavam naquela cidade, viera a Paris e durante os cinco 
dias que permanecera na capital despistara a Polcia - o rei entrara numa clera furiosa. Caprichoso e infiel, o rei queria ser cognominado Lus, o Justo, e Lus, 
o Casto. A posteridade compreenderia dificilmente semelhante carcter, que a Histria s explica atravs de factos e nunca de raciocnios.
Mas quando o cardeal acrescentou que no s a Sr.a de Chevreuse viera a Paris, como ainda a rainha reatara com o seu auxlio uma das suas correspondncias misteriosas 
a que na poca se chamava cabala; quando afirmou que ele, cardeal, ia desenredar os fios mais ocultos dessa intriga e, precisamente no momento de apanhar os criminosos 
com a boca na botija, em flagrante delito, munido de todas as provas, o emissrio da rainha junto da exilada, um mosqueteiro, ousara interromper violentamente o 
curso da justia caindo, de espada em punho, sobre respeitveis agentes da lei encarregados de examinar com imparcialidade todo o caso para o apresentar ao rei - 
Lus XIII no se conteve mais e deu um passo para os aposentos da rainha, com a plida e muda indignao que, quando explodia, levava o prncipe at  mais fria 
crueldade.
E contudo, naquilo que dissera, o cardeal ainda se no referira ao duque de Buckingham.
Foi ento que o Sr. de Trville entrou, frio, polido, e impecavelmente vestido.
Avisado do que acabava de se passar pela presena do cardeal e pela alterao da cara do rei, o Sr. de Trville sentiu-se forte como Sanso diante dos Filisteus.

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Lus XIII punha j a mo na maaneta da porta; ouvindo o rudo que fez o Sr. de Trville ao entrar, virou-se.
- Chegais em boa altura, senhor - disse o rei que, quando as suas paixes subiam a certo ponto, no sabia dissimular. - Contaram-me belas coisas a respeito dos vossos 
mosqueteiros.
- E eu - redarguiu friamente o Sr. de Trville - tenho belas coisas a contar a Vossa Majestade acerca dos seus magistrados.
- Que dizeis? - volveu-lhe o rei, com altivez.
- Tenho a honra de informar Vossa Majestade - continuou o Sr. de Trville no mesmo tom - que um grupo de procuradores, comissrios e agentes da Polcia, pessoas 
muito respeitveis, mas igualmente muito obstinadas, ao que parece, contra o uniforme, se permitiram prender numa casa, de conduzir em plena rua e de lanar no For-l'vque, 
tudo isto mediante uma ordem que se recusaram a apresentar-me, um dos meus mosqueteiros, ou antes dos vossos, Sire, de um comportamento irrepreensvel, de uma reputao 
quase ilustre, e que Vossa Majestade conhece favoravelmente, o Sr. Athos.
- Athos? - disse o rei, maquinalmente. - Sim, de facto, conheo esse nome.
- Procurai record-lo, Majestade - insistiu o Sr. de Trville. - O Sr. Athos  aquele mosqueteiro que no desagradvel duelo que sabeis teve a infelicidade de ferir 
gravemente o Sr. de Cahusac. A propsito, monsenhor - continuou Trville dirigindo-se ao cardeal -, o Sr. de Cahusac est completamente restabelecido, no est?
- Est, obrigado! - respondeu o cardeal, contraindo os lbios de clera.
- O Sr. Athos fora visitar um dos seus amigos, ento ausente - continuou o Sr. de Trville -, um jovem bearns cadete dos guardas de Sua Majestade, companhia dos 
Essarts; mas mal acabara de se instalar em casa do amigo e de pegar num livro para ler enquanto o esperava, um enxame de beleguins e de soldados cercou a casa, arrombou 
vrias portas...
O cardeal fez ao rei um sinal que significava: "Trata-se do caso de que vos falei."
- Sabemos tudo isso - replicou o rei -, porque tudo isso foi feito em nosso servio.
- Nesse caso - disse Trville -, foi tambm em servio de Vossa Majestade que prenderam um dos meus mosqueteiros inocente, que o colocaram entre dois guardas como 
um malfeitor e que passearam no meio de uma populaa insolente esse homem garboso, que verteu dez vezes o seu sangue ao servio de Vossa Majestade e est pronto 
a vert-lo de novo.
- Ora! - exclamou o rei, abalado. - As coisas passaram-se assim?
- O Sr. de Trville no diz - interveio o cardeal com a maior fleuma - que esse mosqueteiro inocente, que esse homem garboso, correra  espadeirada, uma hora antes,

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quatro comissrios instrutores delegados por mim para instrurem um processo da mais alta importncia.
- Desafio Vossa Eminncia a provar o que diz! - exclamou o Sr. de Trville com a sua franqueza muito gasc e a sua rudeza muito militar. - Uma hora antes, o Sr. 
Athos, que, para elucidao de Vossa Majestade,  um homem da mais alta qualidade, dava-me a honra, depois de jantar comigo, de conversar no salo do meu palcio 
com o Sr. Duque de La Trmouille e com o Sr. Conde de Chalus, que l se encontravam.
O rei olhou o cardeal.
- Levantou-se um auto - disse o cardeal, respondendo em voz alta  interrogao muda de Sua Majestade - e as pessoas maltratadas elaboraram este que tenho a honra 
de apresentar a Vossa Majestade.
- Um auto de gente de toga vale mais do que a palavra de honra de gente de espada? - perguntou orgulhosamente Trville.
- Ento, ento, Trville, calai-vos - disse o rei.
- Se Sua Eminncia tem alguma suspeita contra um dos meus mosqueteiros - redarguiu Trville -, a justia do Sr. Cardeal  suficientemente conhecida para que eu prprio 
pea um inqurito.
- Na casa onde a devassa foi feita - continuou o cardeal, impassvel -, mora, segundo creio, um bearns amigo do mosqueteiro.
- Vossa Eminncia refere-se ao Sr. d'Artagnan?
- Refiro-me a um jovem que protegeis, Sr. de Trville.
- Exacto, Eminncia,  isso mesmo.
- No suspeitais que esse rapaz possa ter dado maus conselhos...
- Ao Sr. Athos, um homem com o dobro da sua idade? - interrompeu-o o Sr. de Trville. - No, monsenhor. Alis, o Sr. d'Artagnan passou a noite comigo.
- Sim?... - disse o cardeal. - Pelos vistos, toda a gente passou a noite convosco...
- Vossa Eminncia duvida da minha palavra? - perguntou Trville, rubro de clera.
- No, no. Deus me defenda! - respondeu o cardeal. - Mas apenas uma pergunta: a que horas esteve ele convosco?
- Oh, quanto a isso posso responder conscientemente a Vossa Eminncia! De facto, quando entrou reparei que eram nove e meia no relgio do meu gabinete, embora julgasse 
ser mais tarde.
- E a que horas saiu do vosso palcio?
- s dez e meia: uma hora depois do acontecimento.
- Mas enfim - respondeu o cardeal, que no duvidava um instante da lealdade de Trville e que sentia a vitria fugir-lhe -, mas enfim, Athos foi encontrado na casa 
da Rua dos Fossoyeurs...
-  proibido a um amigo visitar um amigo? A um mosqueteiro da minha companhia confraternizar com um guarda da companhia do Sr. dos Essarts?
- , quando a casa em que confraterniza com esse amigo  suspeita?

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- De facto, essa casa  suspeita, Trville - confirmou o rei. - Talvez o no soubsseis?
- Efectivamente, Sire, ignorava-o. Em todo o caso, pode ser suspeita em geral, mas nego que o seja na parte habitada pelo Sr. d'Artagnan; pois posso afirmar-vos, 
Sire, que a julgar pelas suas palavras no existe servidor mais dedicado de Vossa Majestade, nem admirador mais profundo do Sr. Cardeal.
- No foi esse d'Artagnan que feriu um dia Jussac no malfadado recontro que se deu perto do convento dos Carmelitas Descalos? - perguntou o rei, olhando para o 
cardeal, que corou de despeito.
- E no dia seguinte Bernajoux. - Sim, Sire, foi ele; Vossa Majestade tem boa memria.
- Ento, que resolvemos? - perguntou o rei.
- O caso diz mais respeito a Vossa Majestade do que a mim - respondeu o cardeal. - Eu afirmaria a culpabilidade.
- E eu nego-a - disse Trville. - Mas Sua Majestade tem juzes e os seus juzes decidiro.
-  verdade - concordou o rei -, levemos a causa perante os juizes: o seu ofcio  julgar e eles julgaro.
- Mas no deixa de ser muito triste - acrescentou Trville - que nos tempos infelizes em que nos encontramos a vida mais pura, a virtude mais incontestvel, no 
isentem um homem da infmia e da perseguio. Por isso o Exrcito ficar pouco satisfeito, posso garanti-lo, por estar exposto a tratamentos rigorosos a propsito 
de casos de polcia.
A tirada era imprudente; mas o Sr. de Trville lanara-a com conhecimento de causa. Queria uma exploso, porque numa exploso a mina faz fogo e o fogo ilumina.
- Casos de polcia! - gritou o rei, sublinhando as palavras do Sr. de Trville. - Casos de polcia! E que sabeis disso, senhor? Ocupai-vos dos vossos mosqueteiros 
e no me faais perder a pacincia. Quem vos ouvisse diria que se por desgraa se prende um mosqueteiro a Frana fica em perigo. Tanto barulho por causa de um mosqueteiro! 
Mandarei prender dez, com mil demnios! At cem; toda a companhia! E no admito comentrios.
- A partir do momento em que so suspeitos a Vossa Majestade - disse Trville - os mosqueteiros so culpados; por isso me vedes, Sire, pronto a entregar-vos a minha 
espada. Porque, depois de acusar os meus soldados, o Sr. Cardeal, no tenho qualquer dvida a tal respeito, acabar por me acusar a mim mesmo; portanto, mais vale 
que me constitua prisioneiro com o Sr. Athos, que j est preso, e com o Sr. d'Artagnan, que decerto vo prender.
- Gasco casmurro, quereis acabar com isso? - pediu o rei.
- Sire - respondeu Trville sem baixar a voz -, ordenai que me restituam o meu mosqueteiro ou que seja julgado.
- Ser julgado - interveio o cardeal.
- Tanto melhor; porque nesse caso pedirei a Sua Majestade permisso para o defender em juzo.
O rei receou uma exploso.
- Se Sua Eminncia no tivesse pessoalmente motivos... O cardeal viu aproximar-se o rei e foi ao seu encontro.
- Perdo - disse -, mas uma vez que Vossa Majestade v em mim um juiz predisposto, retiro-me.
- Vejamos - disse o rei -, jurais-me por meu pai que o Sr. Athos estava convosco quando se deram os acontecimentos e no tomou parte neles?
- Pelo vosso glorioso pai e por vs prprio, que sois o que mais amo e venero no mundo, juro-o!
- Reflecti, Sire - interveio o cardeal. - Se soltamos assim o prisioneiro no poderemos descobrir a verdade.
- O Sr. Athos estar sempre disponvel para responder quando aprouver aos magistrados interrog-lo - declarou o Sr. de Trville. - No desertar, Sr. Cardeal; estai 
tranquilo, eu responderei por ele.
- Claro que no desertar - disse o rei. - Estar sempre disponvel, como diz o Sr. de Trville. Alis - acrescentou, baixando a voz e olhando com ar suplicante 
Sua Eminncia -, confiar nele  um acto poltico.
O conceito de poltica de Lus XIII fez sorrir Richelieu.
- Ordenai, Sire - disse -, tendes direito de graa.
- O direito de graa s se aplica aos culpados - interveio Trville, que queria ter a ltima palavra - e o meu mosqueteiro est inocente. No  portanto um acto 
de graa que ides fazer, Sire,  um acto de justia.
- Ele est no For-l'vque? - perguntou o rei.
- Est, sim, Sire; e no segredo, num calabouo, como o ltimo dos criminosos.
- Diabo, diabo! - murmurou o rei. - Que  preciso fazer?
- Assinar o mandado de soltura e pronto - respondeu o cardeal. - Creio, como Vossa Majestade, que a garantia do Sr. de Trville  mais do que suficiente.
Trville inclinou-se respeitosamente, com uma alegria em que se misturava algum receio; teria preferido uma resistncia pertinaz do cardeal quela sbita facilidade.
O rei assinou o mandado de soltura e Trville apoderou-se imediatamente dele.
No momento em que ia a sair o cardeal dirigiu-lhe um sorriso amistoso e disse ao rei:
- Reina boa harmonia entre os chefes e os soldados nos vossos mosqueteiros, Sire; a est uma coisa muito proveitosa para o servio e honrosa para todos.
"No tardar a pregar-me qualquer partida", pensou Trville. "Nunca se tem a ltima palavra com semelhante homem. Mas apressemo-nos, porque o rei pode mudar de opinio 
de um momento para o outro. E no fim de contas  mais difcil voltar a meter na Bastilha ou no For-l'vque um homem que de l tenha sado do que conservar um prisioneiro 
de que se no tenha aberto mo."

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O Sr. de Trville entrou triunfalmente no For-l'vque e libertou o mosqueteiro, que no perdera a sua calma indiferena. Mas da primeira vez que viu d'Artagnan 
disse-lhe:
- Escapastes  justa; est paga a vossa estocada a Jussac. Falta ainda a de Bernajoux, mas essa fica para depois.
De resto, o Sr. de Trville tinha razo em desconfiar do cardeal e pensar que nem tudo estava acabado, pois mal o capito dos mosqueteiro fechou a porta atrs de 
si Sua Eminncia disse ao rei:
- Agora que estamos ss, vamos conversar seriamente, se apraz a Vossa Majestade. Sire, o Sr. de Buckingham esteve em Paris durante cinco dias e s partiu esta manh.


        XVI - ONDE O SR. CHANCELER SGUIER PROCUROU
        MAIS UMA VEZ O SINO PARA O TOCAR, COMO FAZIA
        NOUTRO TEMPO


         impossvel fazer ideia da impresso que estas poucas palavras produziram em Lus XIII. Corou e empalideceu sucessivamente; e o cardeal verificou imediatamente 
que acabava de conquistar de um s golpe todo o terreno que perdera.
- O Sr. de Buckingham em Paris! - gritou. - E que veio c fazer?
- Sem dvida conspirar com os nossos inimigos, os huguenotes e os Espanhis.
- No, por Deus, no! Conspirar contra a minha honra com a Sr.a de Chevreuse, a Sr.a de Longueville e os Condes!
- Oh, Sire, que ideia! A rainha  demasiado sensata e sobretudo ama muito Vossa Majestade.
- A mulher  fraca, Sr. Cardeal - redarguiu o rei. - E quanto a amar-me muito, tenho a minha opinio formada acerca desse amor.
- Mesmo assim sustento que o duque de Buckingham veio a Paris por um projecto exclusivamente poltico - insistiu o cardeal.
- E eu estou certo de que veio por outra coisa, Sr. Cardeal. Mas se a rainha  culpada, ela que trema!
- De facto - disse o cardeal -, por muito que me repugne deter o esprito em semelhante traio, Vossa Majestade deu-me que pensar: a Sr.a de Lannoy que, de acordo 
com as ordens de Vossa Majestade, interroguei vrias vezes, disse-me esta manh que a noite passada Sua Majestade esteve levantada at muito tarde, que esta manh 
chorou muito e passou vrias horas a escrever.
-  isso: a ele, sem dvida! - exclamou o rei. - Cardeal, preciso dos papis da rainha.
- Mas como obt-los, Sire? Parece-me que nem eu nem Vossa Majestade podemos encarregar-nos de semelhante misso.
- Como procederam com a marechala de Ancre? - gritou o rei no mais alto grau da clera. - Revistaram-lhe os armrios e at a revistaram a ela mesma.
- A marechala de Ancre era apenas a marechala de Ancre, uma aventureira florentina, Sire, e mais nada; ao passo que a augusta esposa de Vossa Majestade  Ana de 
ustria, rainha de Frana, isto , uma das maiores princesas do mundo.
- S por isso  mais culpada, Sr. Cardeal! Quanto mais esquece a alta posio que ocupa, mais baixo desce. De resto, h muito tempo que estou decidido a acabar com 
todas essas intrigazinhas de poltica e amor. Tem tambm junto dela um tal La Porte...
- Que julgo ser a trave mestra de tudo, confesso - acrescentou o cardeal.
- Pensais portanto, como eu, que ela me engana? - perguntou o rei.
- Creio, e repito-o a Vossa Majestade, que a rainha conspira contra o poder do seu rei, mas no disse nada contra a sua honra.
- Pois eu digo-vos contra ambos; digo-vos que a rainha no me ama; digo-vos que ama outro; digo-vos que ama esse infame duque de Buckingham! Por que no o mandastes 
prender enquanto esteve em Paris?
- Prender o duque? Prender o primeiro-ministro do rei Carlos I? Pensais isso, Sire? Que escndalo! E se ento as suspeitas de Vossa Majestade (do que continuo a 
duvidar) tivessem alguma consistncia, que escndalo terrvel! Que escndalo desesperante!
- Mas uma vez que se arriscava como um vagabundo e um ladro, precisava...
O prprio Lus XIII se deteve, horrorizado com o que ia dizer, enquanto Richelieu, esticando o pescoo, esperava inutilmente a palavra que ficara nos lbios do rei.
- Precisava?...
- Nada - disse o rei -, nada. Mas durante todo o tempo que esteve em Paris no o perdestes de vista?
- No, Sire.
- Onde morava?
- Na Rua de La Harpe, nmero 75.
- Onde fica isso?
- Para os lados do Luxemburgo.
- E tendes a certeza de que a rainha e ele no se viram?
- Considero a rainha muito respeitadora dos seus deveres, Sire.
- Mas tm-se correspondido, foi a ele que a rainha esteve a escrever tanto tempo! Sr. Duque, quero essas cartas!
- Mas, Sire...
- Sr. Duque, quero-as custe o que custar.
- Devo no entanto observar a Vossa Majestade...
- Tambm me atraioarias, Sr. Cardeal, para vos opordes sempre assim  minha vontade? Tambm estais mancomunado com o Espanhol e com o Ingls, com a Sr.a de Chevreuse 
e com a rainha?

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- Sire, julgava-me ao abrigo de semelhante suspeita - respondeu o cardeal, suspirando.
- Sr. Cardeal, ouvistes o que disse: quero essas cartas.
- S deve haver um meio... - Qual?
- Encarregar dessa misso o Sr. Chanceler Sguier. O caso cabe completamente nos deveres do seu cargo.
- Mandem-no chamar imediatamente!
- Deve estar em minha casa, Sire; tinha-lhe mandado pedir que passasse por l e quando vim para o Louvre deixei ordem, caso ele aparecesse, para o mandarem esperar.
- Que o vo buscar imediatamente!
- As ordens de Vossa Majestade sero cumpridas; mas...
- Mas o qu?
- Mas a rainha talvez se recuse a obedecer.
- s minhas ordens?
- Sim, se ignorar que as ordens vm do rei.
- Pois para que no tenha dvidas eu prprio a prevenirei.
- Vossa Majestade no esquecer que tenho feito tudo o que tenho podido para evitar um rompimento.
- Sim, duque, sei que sois muito indulgente com a rainha, demasiado indulgente talvez; e desde j vos previno que teremos de falar a esse respeito mais tarde.
- Quando aprouver a Vossa Majestade; mas sentir-me-ei sempre feliz e orgulhoso, Sire, por me sacrificar  boa harmonia que desejo ver reinar entre vs e a rainha 
de Frana.
- Pois sim, cardeal, pois sim; mas entretanto mandai buscar o Sr. Chanceler. Eu vou falar com a rainha.
E Lus XIII abriu a porta de comunicao e meteu pelo corredor que levava aos seus aposentos e aos de Ana de ustria.
A rainha estava no meio das suas damas, Sr.as de Guitaut, de Sabl, de Montbazan e de Gumne. A um canto encontrava-se a camareira espanhola Dona Estefnia, que 
a acompanhara de Madrid. A Sr.a de Gumne lia e toda a gente escutava com ateno a leitora, excepto a rainha, que pelo contrrio provocara a leitura a fim de 
poder, fingindo escutar, seguir o fio dos seus prprios pensamentos.
Tais pensamentos, por mais dourados que fossem por um derradeiro reflexo de amor, nem por isso eram menos tristes. Ana de ustria, privada da confiana do marido, 
perseguida pelo dio do cardeal, que no lhe perdoava ter repelido um sentimento mais doce, tendo diante dos olhos o exemplo da rainha-me, a quem esse dio atormentara 
toda a vida - embora Maria de Mdicis, a dar crdito s memrias do tempo, tivesse comeado por conceder ao cardeal o sentimento que Ana de ustria acabara sempre 
por lhe recusar -, Ana de ustria vira cair  sua volta os servidores mais dedicados, os seus mais ntimos confidentes e os seus mais queridos favoritos. Como esses 
infelizes dotados de um dom funesto, trazia a desgraa a tudo em que tocava e a sua amizade
era um indcio fatal que atraa a perseguio. A Sr.a de Chevreuse e a Sr.a de Vernel estavam exiladas e La Porte no ocultava  sua ama e senhora que esperava ser 
preso de um momento para o outro.
Foi quando estava mergulhada na mais profunda sombra destas reflexes que a porta se abriu e o rei entrou.
A leitora calou-se imediatamente, todas as damas se levantaram e fez-se profundo silncio.
Quanto ao rei, no demonstrou qualquer delicadeza; apenas disse, com a voz alterada, parando diante da rainha:
- Senhora, ides receber a visita do Sr. Chanceler, que vos comunicar certas diligncias de que o encarreguei.
A pobre rainha, a quem ameaavam constantemente de divrcio, de exlio e at de julgamento, empalideceu debaixo do carmim e no conseguiu impedir-se de perguntar:
- Mas porqu essa visita, Sire? Que me dir o Sr. Chanceler que Vossa Majestade me no possa dizer pessoalmente?
O rei deu meia volta sem responder e quase no mesmo instante o capito dos guardas, Sr. de Guitaut, anunciou a visita do Sr. Chanceler.
Quando o chanceler apareceu, o rei j saira por outra porta.
O chanceler entrou meio sorridente, meio ruborizado. Como provavelmente o tornaremos a encontrar no decurso desta histria, no h inconveniente em os leitores travarem 
desde j conhecimento com ele.
O chanceler era um homem curioso. Foi Des Roches le Masle, cnego de Notre-Dame e que fora outrora criado de quarto do cardeal, quem o props a Sua Eminncia como 
um homem dedicadssimo. O cardeal acreditou no cnego e no se arrependeu.
Contavam-se a seu respeito certas histrias e entre elas esta:
Depois de uma juventude tempestuosa, retirara-se para um convento a fim de espiar, pelo menos durante algum tempo, as loucuras da adolescncia.
Mas quando entrara no santo lugar o pobre penitente no conseguira fechar a porta to depressa que as paixes de que fugia no entrassem com ele. Constantemente 
obsidiado por isso, confiou a sua desgraa ao superior, o qual, querendo tanto quanto estava na sua mo, proteg-lo, lhe recomendou que, para conjurar o Demnio 
tentador, recorresse  corda do sino e o tocasse com toda a fora. Ao ouvirem o toque denunciador, os frades saberiam que a tentao assediava um irmo e toda a 
comunidade se entregaria  orao.
O conselho pareceu bom ao futuro chanceler. De facto, conjurou o esprito maligno a poder de oraes dos frades; mas como o Diabo no se deixa desapossar facilmente 
de uma praa onde meteu guarnio,  medida que redobravam os exorcismos ele redobrava as tentaes, de forma que o sino tocava dia e noite com toda a fora, anunciando 
o extremo desejo de mortificao que experimentava o penitente.
Os frades no tinham um instante de repouso. De dia, s faziam subir e descer as escadas que levavam  capela; de noite,

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alm das completas e das matinas, ainda eram obrigados a saltar vinte vezes da cama e prosternarem-se no lajedo das celas.
Ignora-se se foi o Diabo que desistiu ou os frades que se cansaram; mas passados trs meses o penitente reapareceu na sociedade com a reputao do mais terrvel 
possesso que jamais existira.
Quando saiu do convento entrou para a magistratura, tornou-se juiz-presidente do Supremo Tribunal de Justia no lugar do tio, abraou o partido do cardeal, o que 
s provou a sua sagacidade, tornou-se chanceler, serviu Sua Eminncia com zelo no seu dio contra a rainha-me e na sua vingana contra Ana de ustria, estimulou 
os juzes no caso de Chalais, encorajou as experincias do Sr. de Laffemas, couteiro-mor de Frana, e por fim, investido de toda a confiana do cardeal - confiana 
que to bem conquistara -, recebeu a singular comisso para cumprimento da qual se apresentava  rainha.
A rainha estava ainda de p quando ele entrou, mas mal o viu voltou a sentar-se no seu cadeiro e fez sinal s suas damas para reocuparem as suas almofadas e os 
seus bancos; e num tom de suprema altivez perguntou:
- Que desejais, senhor, com que fim vos apresentais aqui?
- Venho proceder em nome do rei, senhora, e salvo todo o respeito que tenho a honra de dever a Vossa Majestade, a uma busca rigorosa nos vossos papis.
- Que dizeis, senhor? Uma busca nos meus papis... nos meus... Mas isso  uma coisa indigna!
- Dignai-vos perdoar-me, senhora, mas nesta circunstncia no passo do instrumento de que o rei se serve. Sua Majestade no acaba de sair daqui e no vos convidou 
pessoalmente a aceitardes esta visita?
- Passai a busca, senhor; ao que parece, sou uma criminosa. Estefnia, dai-lhe as chaves das minhas mesas e das minhas secretrias.
O chanceler revistou pr-forma todos os mveis, mas bem sabia que no era num mvel que a rainha fechara a carta importante que escrevera naquele dia.
Depois de o chanceler abrir e fechar vinte vezes as gavetas das secretrias, teve, apesar das hesitaes que experimentava, teve, repito, de proceder  ltima parte 
da busca, isto , de revistar a prpria rainha. O chanceler dirigiu-se portanto para Ana de ustria e disse-lhe, num tom muito perplexo e com ar deveras embaraado:
- E agora - resta-me fazer a busca principal...
- Qual? - perguntou a rainha, que no compreendia, ou antes, no queria compreender.
- Sua Majestade tem a certeza de que escrevestes hoje uma carta e sabe que essa carta ainda no foi remetida ao seu destinatrio. Como no se encontra nem nas vossas 
mesas nem nas vossas secretrias,  evidente que est noutro lado.
- Ousareis pr a mo na vossa rainha? - perguntou Ana de ustria, empertigando-se e cravando no chanceler uns olhos cuja expresso se tornara quase ameaadora.
- Sou um fiel sbdito do rei, senhora, e fao tudo o que Sua Majestade me ordena.
- Tendes razo - disse Ana de ustria -, os espies do Sr. Cardeal serviram-no bem. De facto escrevi hoje uma carta e essa carta ainda no partiu. Est aqui.
E a rainha levou a bela mo ao corpete.
- Ento, dai-ma, senhora - pediu o chanceler.
- S a darei ao rei, senhor - respondeu Ana.
- Se o rei quisesse que a carta lhe fosse entregue, senhora, ele prprio a teria pedido. Mas, repito-vos, foi a mim que encarregou de vo-la reclamar, e se a no 
entregardes...
- Que acontecer?
- Bom, serei ainda eu que terei de vo-la tirar.
- Como, que quereis dizer?
- Que as minhas ordens vo longe senhora, e que estou autorizado a procurar o documento suspeito na prpria pessoa de Vossa Majestade.
- Que horror! - gritou a rainha.
- Dignai-vos, pois, senhora, agir mais sensatamente.
- Esse comportamento  de uma violncia infame; no o sabeis, senhor?
- O rei ordena, senhora; perdoai-me.
- No suportarei essa afronta! No, no, antes morrer! - gritou a rainha, na qual se revoltava o sangue imperioso da espanhola e da austraca.
O chanceler fez uma profunda reverncia e depois, com a inteno bem patente de no recuar um passo no cumprimento da comisso de que fora encarregado, e tal como 
faria um ajudante de carrasco na cmara de tortura, aproximou-se de Ana de ustria, dos olhos da qual brotaram imediatamente lgrimas de raiva.
A rainha era, como j dissemos, de uma grande beleza.
A comisso podia portanto ser considerada delicada e com ela o rei acabava,  fora de ter cimes de Buckingham, por no ter cimes de ningum.
Naquele momento, o chanceler Sguier procurou sem dvida com os olhos a corda do famoso sino; mas no a encontrando, decidiu-se e estendeu a mo para o stio onde 
a rainha confessara que se encontrava o papel.
Ana de ustria deu um passo atrs, to plida que dir-se-ia ir morrer; e apoiando-se com a mo esquerda, para no cair, a uma mesa que se encontrava atrs dela, 
tirou com a direita um papel do peito e estendeu-o ao chanceler.
- Tomai, senhor, aqui tendes a carta! - gritou a rainha em voz entrecortada e fremente. - Tomai-a e livrai-me da vossa odiosa presena.
O chanceler, que pela sua parte tremia de comoo fcil de conceber, pegou na carta, inclinou-se at ao cho e retirou-se.
Mal a porta se fechou atrs dele, a rainha caiu meio desmaiada nos braos das suas damas.

166 - 167


O chanceler foi levar a carta ao rei sem ler uma s palavra. O rei pegou-lhe com mo trmula, procurou o endereo, que faltava, empalideceu muito, abriu-a lentamente 
e depois, vendo pelas primeiras palavras que era dirigida ao rei de Espanha, leu-a rapidamente.
Tratava-se de um completo plano de ataque contra o cardeal. A rainha convidava o irmo e o imperador da ustria a fingirem, desgostosos como estavam com a poltica 
de Richelieu, cuja eterna preocupao era o rebaixamento da Casa de ustria, declarar guerra  Frana e a imporem como condio da paz a demisso do cardeal; mas 
de amor no havia uma s palavra em toda a carta.
O rei, muito bem disposto, perguntou se o cardeal ainda estava no Louvre. Responderam-lhe que Sua Eminncia esperava no gabinete de trabalho as ordens de Sua Majestade.
O rei foi imediatamente ter com ele.
- Vede, duque - disse-lhe. - Tnheis razo e eu  que estava errado; toda a intriga  poltica e no h nenhuma palavra de amor nesta carta. Em troca, fala-se muito 
de vs.
O cardeal pegou na carta e leu-a com a maior ateno; e quando chegou ao fim leu-a segunda vez.
- Aqui tem Vossa Majestade at onde vo os meus inimigos: ameaam-vos com duas guerras se me no demitirdes. No vosso lugar, na verdade, Sire. cederia a to poderosas 
instncias, e pela minha parte seria com verdadeiro prazer que me retiraria dos negcios de Estado.
- Que dizeis, duque?
- Digo, Sire que perco a sade nestas lutas excessivas e nestes trabalhos eternos. Digo que muito provavelmente no poderei suportar as fadigas do cerco de La Rochelle 
e que  prefervel que nomeeis para isso ou o Sr. de Cond, ou o Sr. de Bassompierre, ou enfim qualquer homem valente que esteja em condies de dirigir a guerra, 
e no eu que sou homem de Igreja e que me desvio constantemente da minha vocao para me dedicar a coisas para que no tenho nenhuma aptido. Sereis mais feliz no 
interior, Sire, e no duvido que sejais maior no estrangeiro.
- Sr. Duque - respondeu o rei -, compreendo, estai tranquilo; todos os que so mencionados nesta carta sero punidos como merecem, incluindo a prpria rainha.
- Que dizeis, Sire? Deus me defenda de, por minha causa, a rainha experimentar a menor contrariedade! Sempre me tem considerado seu inimigo, Sire, embora Vossa Majestade 
possa atestar que sempre tomei calorosamente o seu partido, at contra vs. Oh, se atraioasse Vossa Majestade na sua honra, seria outra coisa, e eu seria o primeiro 
a dizer: "Nada de compaixo, Sire, nada de compaixo para com a culpada!" Felizmente no  esse o caso, como Vossa Majestade acaba de ter mais uma prova.
-  verdade, Sr. Cardeal - admitiu o rei -, e tnheis razo, como sempre; mas nem por isso a rainha merece menos toda a minha clera.

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- Fostes vs, Sire, que incorrestes na sua; e realmente compreenderia que estivesse muitssimo ofendida com Vossa Majestade. Vossa Majestade tratou-a com uma severidade!...
- Ser assim que tratarei sempre os meus inimigos e os vossos, duque, por mais alto que estejam colocados e seja qual for o perigo que corra procedendo severamente 
para com eles.
- A rainha  minha inimiga, mas no  vossa, Sire; pelo contrrio,  esposa dedicada, submissa e irrepreensvel. Deixai-me portanto, Sire, interceder por ela junto 
de Vossa Majestade.
- Ento que se humilhe e seja a primeira a aproximar-se de mim!
- Pelo contrrio, Sire, dai o exemplo; fostes o primeiro a proceder mal, pois fostes vs que suspeitastes da rainha.
- Eu dar o primeiro passo? Nunca! - exclamou o rei.
- Sire, suplico-vos.
- De resto, como seria o primeiro?
- Fazendo uma coisa que sabeis ser-lhe agradvel.
- Qual?
- Dai um baile; sabeis como a rainha gosta da dana, garanto-vos que o seu rancor no resistir a semelhante ateno.
- Sr. Cardeal, sabeis que no aprecio todos os prazeres mundanos.
- S por isso a rainha vos ficar mais reconhecida, pois sabe como antipatizais com esse prazer. Alis, ser uma oportunidade para usar aquelas belas agulhetas de 
diamantes que lhe destes outro dia, pelo seu aniversrio, e que ainda no teve tempo de mostrar.
- Veremos, Sr. Cardeal, veremos - respondeu o rei, que na sua satisfao de encontrar a rainha culpada de um crime com que pouco se preocupava e inocente numa falta 
que muito temia, estava pronto a reconciliar-se com ela. - Veremos, mas palavra de honra que sois demasiado indulgente.
- Sire - redarguiu o cardeal -, deixai a severidade aos ministros. A indulgncia  virtude real; usai-a e vereis que vos sentireis melhor.
Depois disto, ao ouvir o relgio dar onze horas, o cardeal inclinou-se profundamente, pediu licena ao rei para se retirar e suplicou-lhe que se reconciliasse com 
a rainha.
Ana de ustria, que depois da apreenso da carta esperava alguma censura, ficou admiradssima ao ver no dia seguinte o rei fazer junto dela tentativas de aproximao. 
A sua primeira reaco foi de repulsa; o seu orgulho de mulher e a sua dignidade de rainha tinham sido ambas to cruelmente ofendidas que no podia esquecer sem 
mais nem menos o sucedido. Mas convencida pelo conselho das suas damas, pareceu finalmente comear a esquecer. O rei aproveitou esse primeiro momento de aproximao 
para lhe dizer imediatamente que contava dar uma festa.
Era coisa to rara uma festa para a pobre Ana de ustria que esta, ao ouvir tal coisa, teve a reaco prevista pelo cardeal e os ltimos vestgios de ressentimento 
desapareceram, seno do seu corao, pelo menos do seu rosto. Perguntou em que dia se realizaria a festa, mas o rei respondeu-lhe que tinha de se entender com o 
cardeal a esse respeito.

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Com efeito, todos os dias o rei perguntava ao cardeal em que data se realizaria a festa e todos os dias o cardeal, sob qualquer pretexto, adiava a marcao.
Passaram-se assim dez dias.
No oitavo dia depois da cena que contmos, o cardeal recebeu uma carta com o carimbo de Londres, que continha apenas estas poucas linhas:


Tenho-as, mas no posso sair de Londres por falta de dinheiro. Mandai-me quinhentas pistolas e quatro ou cinco dias depois de as receber estarei em Paris.


No mesmo dia em que o cardeal recebeu esta carta, o rei fez-lhe a pergunta habitual.
Richelieu contou pelos dedos e disse para consigo, baixinho:
- Ela chegar, segundo diz, quatro ou cinco dias depois de receber o dinheiro; so precisos quatro ou cinco dias para o dinheiro ir e outros quatro ou cinco dias 
para ela voltar, ou seja dez dias. Agora levemos em conta ventos contrrios, contratempos, fraquezas de mulher... e aumentemos o prazo para doze dias.
- Ento, Sr. Duque, j acabastes os clculos? - perguntou o rei.
- J, Sire. Estamos hoje a 20 de Setembro; os almotacs da cidade do uma festa em 3 de Outubro. Vem mesmo a calhar, pois assim no tereis o ar de vos aproximardes 
da rainha.
Depois o cardeal acrescentou:
- A propsito, Sire, no vos esqueais de dizer a Sua Majestade, na vspera da festa, que desejais ver como lhe ficam as agulhetas de diamantes.


        XVII - O CASAL BONACIEUX


        Era a segunda vez que o cardeal falava das agulhetas de diamantes ao rei. Lus XIII ficou portanto impressionado com a insistncia e pensou que semelhante 
recomendao ocultava um mistrio.
Mais de uma vez o rei fora humilhado pelo cardeal, cuja polcia, sem ter atingido ainda a perfeio da polcia moderna, era excelente, a ponto de Richelieu saber 
melhor do que o prprio rei o que se passava na sua intimidade. Esperou portanto, numa conversa com Ana de ustria, fazer alguma luz a respeito de tal recomendao 
e voltar em seguida junto de Sua Eminncia com qualquer segredo que o cardeal soubesse ou no soubesse, mas que, tanto num caso como noutro, o salientaria extraordinariamente 
aos olhos do seu ministro.

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Foi pois procurar a rainha e, conforme o seu hbito, abordou-a com novas ameaas contra aqueles que a rodeavam. Ana de ustria baixou a cabea, deixou passar a torrente 
sem responder e esperou que o rei acabasse por se deter. Mas no era isso que pretendia Luis XIII; Lus XIII pretendia uma discusso da qual brotasse qualquer luz, 
convencido como estava de que o cardeal tinha algum pensamento reservado e lhe destinava uma surpresa terrvel, como aquelas em que Sua Eminncia era perito. Alcanou 
tal fim com a persistncia das suas acusaes.
- Ento, Sire - atalhou Ana de ustria, farta daqueles vagos ataques -, por que me no dizeis tudo o que tendes no corao? Que fiz eu? Vejamos, que crime cometi? 
 impossvel que Vossa Majestade faa todo esse barulho por causa de uma carta escrita ao meu irmo.
O rei, atacado por seu turno de forma to directa, no soube que responder; pensou no entanto que chegara o momento de fazer a recomendao que s deveria fazer 
na vspera da festa.
- Senhora - respondeu com majestade -, haver brevemente baile na Cmara Municipal; espero que para honrardes os nossos respeitveis almotacs apareais em traje 
de cerimnia e sobretudo adornada com as agulhetas de diamantes que vos dei no vosso aniversrio.  esta a minha resposta.
A resposta era terrvel. Ana de ustria julgou que Luis XIII sabia tudo e que o cardeal obtivera dele aquela longa dissimulao de sete ou oito dias, que de resto 
estava de acordo com o seu carcter. Tornou-se excessivamente plida, apoiou numa consola a mo de admirvel beleza e que ento parecia de cera, e, fitando o rei 
com olhos apavorados, no proferiu uma s slaba.
- Ouvistes, senhora? - insistiu o rei, que desfrutava aquele embarao em toda a sua extenso, mas sem lhe adivinhar a causa. - Ouvistes?
- Sim, Sire, ouvi - balbuciou a rainha.
- Ireis ao baile? - Irei.
- Com as agulhetas?
- Sim.
A palidez da rainha aumentou ainda mais, se possvel; o rei deu por isso e regozijou-se com a fria crueldade que era um dos maus vezos do seu carcter.
- Ento, est combinado; era tudo o que vos queria dizer.
- Mas em que dia  o baile? - perguntou Ana de ustria.
Lus XIII sentiu instintivamente que no devia responder a tal pergunta, que a rainha formulara em voz quase inaudvel.
- Muito brevemente, senhora; mas no me recordo exactamente do dia, tenho de o perguntar ao cardeal.
- Foi portanto o cardeal quem vos anunciou essa festa? - perguntou a rainha.
- Pois foi, senhora - respondeu o rei, atnito. - Por que perguntais?

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- E foi ele quem vos disse que me convidsseis a aparecer com as agulhetas?
- Quer dizer, senhora...
- Foi ele, Sire, foi ele!
- Bom, que importa que fosse ele ou eu? H algum crime no convite?
- No, Sire.
- Ento, ireis?
- Sim, Sire.
- Muito bem - disse o rei, retirando-se. - Muito bem, conto convosco.
A rainha fez uma reverncia, menos por etiqueta do que por os joelhos se lhe dobrarem debaixo dela. O rei saiu encantado.
- Estou perdida - murmurou a rainha. - Perdida porque o cardeal sabe tudo e foi ele que impeliu o rei, que ainda no sabe nada, mas que em breve saber tudo. Estou 
perdida! Meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Ajoelhou-se numa almofada e orou, com a cabea escondida nos braos palpitantes.
Efectivamente, a situao era terrvel. Buckingham regressara a Londres, a Sr.a de Chevreuse estava em Tours. Mais vigiada do que nunca, a rainha sentia surdamente 
que uma das suas damas a traa, sem saber dizer qual. La Porte no podia sair do Louvre. No tinha uma alma no mundo em quem confiar.
Por isso, perante a desgraa que a ameaava e o abandono em que se via, rompeu em soluos.
- No posso ser til em nada a Vossa Majestade? - perguntou de sbito uma voz cheia de doura e compaixo.
A rainha virou-se vivamente, porque a expresso daquela voz no enganava: era uma amiga que falava assim.
Com efeito, a uma das portas que davam para os aposentos da rainha encontrava-se a bonita Sr.a Bonacieux. Ocupada a arrumar os vestidos e a roupa num gabinete quando 
o rei entrara, no pudera sair e ouvira tudo.
A rainha soltou um grito penetrante ao ver-se surpreendida, pois na sua perturbao no reconheceu de incio a jovem que lhe arranjara La Porte.
- Oh, no temais nada, senhora! - exclamou a jovem, juntando as mos e chorando ela prpria por via das angstias da rainha. - Sou dedicada a Vossa Majestade de 
corpo e alma e por mais longe que esteja de vs, por mais inferior que seja a minha posio, creio que encontrei meio de tirar Vossa Majestade de apuros.
- Vs? Oh, Cus, vs?! - exclamou a rainha. - Mas vejamos, olhai-me de frente. Todos me atraioam, poderei confiar em vs?
- Oh, senhora! - protestou a jovem, caindo de joelhos. - Juro-vos pela minha alma que estou pronta a morrer por Vossa Majestade!
Este grito sara-lhe do mais fundo do corao, e como o primeiro no enganava ningum.
- Sim - continuou a Sr.a Bonacieux -, sim,  traidores aqui; mas pelo santo nome da Virgem juro-vos que ningum  mais dedicado do que eu a Vossa Majestade. As agulhetas 
que o rei exige deste-as ao duque de Buckingham, no  verdade? Essas agulhetas estavam fechadas numa caixinha de pau-rosa que ele levava debaixo do brao? Engano-me? 
 ou no  assim?
- Oh, meu Deus, meu Deus! - murmurou a rainha, que batia os dentes de terror.
- Pois bem, temos de recuperar essas agulhetas - acrescentou a Sr.a Bonacieux.
- Temos, sem dvida - admitiu a rainha. - Mas como? Como consegui-lo?
-  preciso enviar algum ao duque.
- Mas quem?... Quem?... Em quem me fiar?
- Tende confiana em mim, senhora. Concedei-me essa honra, minha rainha, e eu encontrarei o mensageiro!
- Mas  preciso escrever!
- Claro,  indispensvel. Duas palavras do punho de Vossa Majestade e o vosso sinete particular.
- Mas essas duas palavras sero a minha condenao,  o divrcio, o exlio!
- Seria, se cassem em mos infames! Mas eu comprometo-me a que essas duas palavras cheguem ao seu destino.
- Oh, meu Deus! Terei ento de entregar a minha vida, a minha honra, a minha reputao, nas vossas mos?
- Tendes, senhora,  preciso, mas eu resolverei tudo.
- Como? Dizei-me ao menos como?
- O meu marido foi posto em liberdade h dois ou trs dias; ainda no tive tempo de o ver.  um homem bom e honesto, que no tem dio nem amor a ningum. Far o 
que eu quiser: partir a uma ordem minha, sem saber o que leva, e entregar a carta de Vossa Majestade, sem mesmo saber que  de Vossa Majestade, na morada que indicardes.
A rainha pegou nas mos da jovem num impulso apaixonado, olhou-a como se quisesse ler-lhe no fundo do corao e s vendo sinceridade naqueles belos olhos, beijou-a 
ternamente.
- Faz isso e salvar-me-s a vida, salvar-me-s a honra!
- Oh, no exagereis o servio que tenho a honra de vos prestar; no tenho nada a salvar a Vossa Majestade, que  apenas vtima de prfidas conspiraes.
-  verdade,  verdade, minha filha; tens razo.
- Dai-me ento a carta, senhora; o tempo urge.
A rainha correu para uma mesinha em cima da qual se encontravam tinta, papel e penas. Escreveu duas linhas, lacrou a carta com o seu sinete e entregou-a  Sr.a Bonacieux.
- E agora no nos esqueamos de uma coisa indispensvel.

172 - 173


- Qual?
- O dinheiro.
A Sr.a Bonacieux corou.
- Sim,  verdade, e confesso a Vossa Majestade que o meu marido...
- O teu marido no o tem,  o que queres dizer.
- Na realidade, tem, mas  muito avarento;  o seu defeito. No entanto, Vossa Majestade no se preocupe; arranjaremos maneira...
- O caso  que tambm o no tenho - confessou a rainha, e quem leu as Memrias da Sr.a de Motteville no estranhar esta resposta. - Mas espera.
Ana de ustria correu para o seu guarda-jias.
- Toma, aqui tens um anel de grande valor, ao que dizem. Deu-mo o meu irmo, o rei de Espanha, pertence-me e posso dispor dele. Leva este anel, transforma-o em dinheiro 
e o teu marido que parta.
- Dentro de uma hora sereis obedecida.
- Repara no endereo - acrescentou a rainha, falando to baixo que mal se podia ouvir o que dizia. - "A Milorde o Duque de Buckingham, em Londres."
- A carta ser-lhe- entregue pessoalmente.
- Generosa criana! - exclamou Ana de ustria.
A Sr.a Bonacieux beijou as mos da rainha, escondeu a carta no corpete e desapareceu com a ligeireza de um passarinho.
Dez minutos depois estava em casa. Como dissera  rainha, no tornara a ver o marido desde que fora posto em liberdade; ignorava portanto a mudana que se operara 
nele a respeito do cardeal, mudana devida  lisonja e ao dinheiro de Sua Eminncia e corroborada depois por duas ou trs visitas do conde de Rochefort, que se tornara 
o melhor amigo de Bonacieux, a quem convencera sem muita dificuldade que nenhum sentimento culposo o levara a raptar-lhe a mulher, pois se tratara apenas de uma 
precauo poltica.
Encontrou o Sr. Bonacieux sozinho. O pobre homem punha com grande custo ordem na casa, cujos mveis encontrara mais ou menos partidos e os armrios quase vazios, 
dado a justia no pertencer ao nmero das trs coisas que, no dizer do rei Salomo, no deixam sinais da sua passagem. Quanto  criada, fugira aquando da priso 
do amo. O terror apoderara-se da pobre rapariga de tal maneira que a levara a ir a p de Paris  Borgonha, sua terra natal.
O digno retroseiro apressara-se, logo que regressara a casa, a avisar a mulher do feliz acontecimento, e a mulher respondera-lhe felicitando-o e dizendo-lhe que 
o primeiro momento que pudesse roubar aos seus deveres seria inteiramente dedicado a visit-lo.
Esse primeiro momento fizera-se esperar cinco dias, o que, em qualquer outra circunstncia, teria parecido bastante longo a mestre Bonacieux; mas ele tinha, na visita 
que fizera ao cardeal e nas visitas que lhe fazia Rochefort, amplo assunto para reflexo, e como se sabe nada faz passar o tempo como reflectir.
Tanto mais que as reflexes de Bonacieux eram todas cor-de-rosa.
Rochefort chamava-lhe seu amigo, seu caro Bonacieux, e no se cansava de lhe dizer que o cardeal o tinha na mais alta estima. O retroseiro via-se j no caminho das 
honras e da fortuna.
Pelo seu lado, a Sr.a Bonacieux reflectira, mas, convm diz-lo, em coisas muito diferentes da ambio. Mal-grado seu, os seus pensamentos tinham tido como mbil 
constante aquele rapaz to valente e que parecia to apaixonado. Casada aos dezoito anos, a Sr. a Bonacieux vivera sempre no meio dos amigos do marido, pouco susceptveis 
de inspirar qualquer sentimento a uma jovem cujo corao era mais elevado do que a sua posio social. A Sr.a Bonacieux permanecera insensvel s sedues vulgares; 
mas, sobretudo naquela poca, o ttulo de gentil-homem exercia grande influncia sobre a burguesia, e d'Artagnan era gentil-homem; alm disso, usava o uniforme das 
guardas, o qual, depois do uniforme dos mosqueteiros, era o mais apreciado pelas damas. Depois, repetimos, era jovem, belo e aventureiro; falava de amor como um 
homem que ama e tem sede de ser amado; nada mais era preciso para dar volta  cabea de uma mulher de vinte e trs anos, e a Sr.a Bonacieux estava precisamente nesse 
venturoso perodo da vida.
Marido e mulher, embora se no vissem havia mais de oito dias e durante essa semana se tivessem dado com eles graves acontecimentos, encontraram-se com certa preocupao. 
Contudo, o Sr. Bonacieux manifestou uma alegria sincera e avanou para a mulher de braos abertos.
A Sr.a Bonacieux ofereceu-lhe a testa.
- Conversemos um pouco - disse ela.
- Como? - surpreendeu-se Bonacieux.
- Tenho uma coisa da mais alta importncia para vos dizer.
- E eu tambm tenho algumas perguntas bastante srias para vos fazer. Explicai-me resumidamente o vosso rapto, peo-vos.
- Por ora no se trata disso - redarguiu a Sr.a Bonacieux.
- De que se trata ento? Do meu cativeiro?
- Soube da vossa priso no prprio dia, mas como no reis culpado de nenhum crime, nem cmplice de nenhuma intriga, como no sabeis nada, enfim, que vos pudesse 
comprometer, nem vs nem ningum, no liguei ao acontecimento mais importncia do que merecia.
- Falais disso com uma descontraco, senhora! - exclamou Bonacieux, melindrado com o pouco interesse que lhe testemunhava a mulher. - Sabeis que estive enterrado 
um dia e uma noite numa cela da Bastilha?
- Um dia e uma noite depressa passam; deixemos portanto o vosso cativeiro e tratemos do assunto que me traz c.
- Como? Que quereis dizer com isso do assunto que vos traz c? No viestes para tornar a ver um marido de que estivestes separada oito dias? - perguntou o retroseiro, 
ofendidssimo.
- Primeiro isso e depois outra coisa. - Falai!
- Trata-se de uma coisa do mais alto interesse e da qual talvez dependa a nossa futura fortuna.

174 - 175


- A nossa fortuna mudou muito de aspecto desde que vos vi, Sr.a Bonacieux, e no me admiraria nada que daqui a alguns meses causasse inveja a muita gente.
- Sim, sobretudo se quiserdes seguir as instrues que vos vou dar.
- A mim?
- Sim, a vs. H uma boa e santa aco a praticar, senhor, e muito dinheiro a ganhar ao mesmo tempo.
A Sr.a Bonacieux sabia que falando de dinheiro ao marido lhe tocava na corda sensvel.
Mas um homem, mesmo um retroseiro, depois de falar dez minutos com o cardeal de Richelieu j no  o mesmo homem.
- Muito dinheiro a ganhar! - repetiu Bonacieux, esticando os lbios.
- Sim, muito.
- Quanto, mais ou menos?
- Talvez mil pistolas.
- O que me quereis pedir  portanto muito grave?
- .
- Que  preciso fazer?
- Partireis imediatamente, depois de vos entregar uma carta de que no vos separareis sob nenhum pretexto e que entregareis em mo prpria.
- E para onde partirei?
- Para Londres.
- Eu, para Londres?! Vamos, estais a brincar, no tenho nada que fazer em Londres.
- Mas outros necessitam que l vades.
- E quem so esses outros? Previno-vos de que no fao mais nada s cegas e de que quero saber no s ao que me exponho, mas tambm por quem me exponho.
- Uma pessoa ilustre vos envia e uma pessoa ilustre vos espera: a recompensa exceder a vossa expectativa,  tudo o que vos posso prometer.
- Mais intrigas, sempre intrigas! Obrigado, agora j no caio assim na esparrela, pois o Sr. Cardeal esclareceu-me a tal respeito.
- O cardeal! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - Vistes o cardeal?
- Mandou-me chamar - respondeu orgulhosamente o retroseiro.
- E acedestes ao seu convite? Sempre sois muito imprudente!
- Devo dizer que no podia escolher ir ou no ir, pois estava entre dois guardas. Devo tambm dizer que, como no conhecia ento Sua Eminncia, se me tivesse podido 
escusar da visita teria ficado muito encantado.
- Maltratou-vos? Ameaou-vos?
- Estendeu-me a mo e chamou-me seu amigo. Seu amigo! Ouvistes, senhora? Sou amigo do grande cardeal!
- Do grande cardeal?...
- Contestar-lhe-eis porventura este ttulo, senhora?
- No lhe contesto nada, mas digo-vos que a proteco de um ministro  efmera e que s um louco se agarra a um ministro; h poderes acima do seu que no assentam 
no capricho de um homem ou no resultado de um acontecimento.  a esses poderes que nos devemos ligar.
- Lamento, senhora, mas no conheo outro poder alm do do homem que tenho a honra de servir.
- Servis o cardeal?
- Sirvo, senhora, e como seu servidor no permitirei que vos entregueis a conspiraes contra a segurana do Estado e que sirvais as intrigas de uma mulher que no 
 francesa e tem o corao espanhol. Felizmente, o grande cardeal est a e o seu olhar vigilante penetra at ao fundo dos coraes.
Bonacieux repetia palavra por palavra uma frase que ouvira ao conde de Rochefort; mas a pobre mulher, que contara com o marido e que, nessa esperana, respondera 
por ele perante a rainha, no tremia menos do que ela pelo perigo em que estivera quase a cair e pela impotncia em que se encontrava. No entanto, conhecendo a fraqueza 
e sobretudo a cupidez do marido, no desesperava de o conduzir aos seus fins.
- Com que ento sois cardinalista, senhor? E servis o partido daqueles que maltratam a vossa mulher e insultam a vossa rainha!
- Os interesses particulares no so nada perante os interesses de todos. Sou por aqueles que salvam o Estado - redarguiu, com nfase, Bonacieux.
Era outra frase do conde de Rochefort, que fixara e que aproveitava a oportunidade para empregar.
- E sabeis que Estado  esse de que falais? - perguntou a Sr.a Bonacieux, encolhendo os ombros. - Contentai-vos com ser um burgus sem qualquer finura e virai-vos 
para o lado que vos oferece mais vantagens.
- Ora. ora! - exclamou Bonacieux, batendo numa bolsa que parecia bem recheada e que emitiu um som argentino. - Que dizeis a isto, senhora pregadora?
- Donde veio esse dinheiro?
- No adivinhais?
- Do cardeal?
- Dele e do meu amigo o conde de Rochefort.
- O conde de Rochefort! Mas foi ele que me raptou!
-  possvel, senhora.
- E recebeis dinheiro desse homem?
- No dissestes que o rapto fora poltico?
- Disse, mas o rapto tinha por fim levar-me a trair a minha ama, arrancar-me por meio de torturas confisses susceptveis de comprometer a honra e talvez a vida 
da minha augusta ama.
- Senhora - redarguiu Bonacieux -, a vossa augusta ama  uma prfida espanhola e o que o cardeal faz  bem feito.
- Senhor, sabia-vos cobarde, avarento e imbecil, mas no vos sabia infame!

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- Senhora - respondeu Bonacieux, que nunca vira a mulher encolerizada e recuava diante da fria conjugal -, senhora, que dizeis?
- Digo que sois um miservel! - continuou a Sr.a Bonacieux, ao ver que recuperava alguma influncia sobre o marido. - Com que ento agora fazeis poltica... e poltica 
cardinalista, ainda por cima! Com que ento vendeis corpo e alma ao Demnio...
- Ao Demnio, no; ao cardeal.
-  a mesma coisa! - gritou a jovem. - Quem diz Richelieu, diz Satans!
- Calai-vos, senhora, calai-vos que vos podem ouvir!
- Tendes razo e ficaria envergonhada com a vossa cobardia.
- Mas que exigis de mim, afinal de contas?
- J vo-lo disse: que partais imediatamente e vos desempenheis lealmente da comisso de que me digno encarregar-vos. Com esta condio, esquecerei tudo, perdoarei 
e... h mais - acrescentou, estendendo-lhe a mo -, restituo-vos a minha amizade.
Bonacieux era poltro e avaro, mas amava a mulher; enterneceu-se. Um homem de cinquenta anos no conserva por muito tempo rancor a uma mulher de vinte e trs. A 
Sr.a Bonacieux viu-o hesitar.
- Ento, estais decidido?
- Mas, minha querida amiga, reflecti um pouco no que exigis de mim. Londres fica longe de Paris, muito longe, e a comisso de que me encarregais talvez tenha os 
seus perigos.
- Que importa, se os evitais!
- Olhai, Sr.a Bonacieux - disse o retroseiro -, olhai, decididamente recuso. As intrigas metem-me medo. J vi a Bastilha... Brrrr!  medonha, a Bastilha! S de a 
recordar me arrepio todo. Ameaaram-me com a tortura. Sabeis o que  a tortura? Metem-nos cunhas de madeira nas pernas at os ossos estalarem! No, decididamente, 
no vou. Com a breca, por que no ides vs prpria? Porque, na verdade, creio que me enganei a vosso respeito at agora: creio que sois um homem, e dos mais ousados!
- E vs sois uma mulher, uma miservel mulher estpida e embrutecida. Tendes medo! Pois bem, se no partis imediatamente, mando-vos prender por ordem da rainha e 
meter nessa Bastilha que tanto temeis.
Bonacieux caiu numa reflexo profunda; pesou maduramente as duas cleras no crebro, a do cardeal e a da rainha, e a do cardeal levou enorme vantagem.
- Mandai-me prender da parte da rainha e eu apelarei para Sua Eminncia.
Desta feita a Sr.a Bonacieux viu que fora demasiado longe e assustou-se por ter avanado tanto. Contemplou um instante, com terror, aquela figura estpida, de uma 
teimosia obstinada, como a dos tolos medrosos.
- Pois bem, seja! - acabou por dizer. - Talvez, no fim de contas, tenhais razo: um homem entende mais de poltica do que uma mulher, sobretudo vs, Sr. Bonacieux,

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que conversastes com o cardeal. E no entanto  muito duro - acrescentou - que o meu marido, um homem com cuja afeio julgava poder contar, me trate to desagradavelmente 
e no satisfaa o meu capricho.
-  que os vossos caprichos podem levar demasiado longe e desconfio deles - redarguiu Bonacieux, triunfante.
- Pronto, desisto! - exclamou a jovem, suspirando. - No se fala mais disso.
- Se ao menos me disssseis o que iria fazer a Londres - insinuou Bonacieux, que se recordava um pouco tarde que Rochefort lhe recomendara que tentasse surpreender 
os segredos da mulher.
-  intil que o saibais - respondeu a jovem, a quem uma desconfiana instintiva levava agora a recuar. - Tratava-se de uma dessas bagatelas que s vezes as mulheres 
desejam, de uma compra com a qual havia muito a ganhar.
Mas quanto mais a jovem se defendia, tanto mais, pelo contrrio, Bonacieux pensava que o segredo que recusava confiar-lhe era importante. Resolveu portanto correr 
naquele mesmo instante a casa do conde de Rochefort e dizer-lhe que a rainha procurava um mensageiro para ir a Londres.
- Perdoai-me deixar-vos, minha querida Sr.a Bonacieux - disse -, mas como no sabia que me vireis visitar marquei encontro com um dos meus amigos; voltarei imediatamente 
e se quiserdes esperar-me apenas meio minuto logo que falar com o meu amigo virei buscar-vos e como comea a fazer-se tarde acompanhar-vos-ei ao Louvre.
- Obrigada, senhor - respondeu a Sr.a Bonacieux. - No sois suficientemente valente para me serdes de alguma utilidade e por isso regressarei muito bem ao Louvre 
sozinha.
- Como vos aprouver, Sr.a Bonacieux - redarguiu o ex-retroseiro. - Voltareis em breve?
- Sem dvida. Espero que na prxima semana o meu servio me deixe algum tempo livre, que aproveitarei para vir cuidar das nossas coisas, que devem estar um pouco 
precisadas.
-  certo. Esperar-vos-ei. No me quereis mal?
- Eu? Por nada deste mundo.
- At breve, ento?
- At breve.
Bonacieux beijou a mo da mulher e saiu rapidamente.
- Pronto - disse a Sr.a Bonacieux depois de o marido fechar a porta da rua e ficar s -, no me faltava mais nada que este imbecil ser cardinalista! E eu que disse 
 rainha, eu que prometi  minha pobre ama... Ah, meu Deus, meu Deus, vai-me tomar por algum desses miserveis que fervilham no palcio e que colocam junto dela 
para a espiar! Ah, Sr. Bonacieux, nunca vos amei muito, mas agora  bem pior: odeio-vos! E palavra de honra que me pagareis!

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No momento em que proferia estas palavras uma pancada no tecto f-la levantar a cabea, e uma voz que chegou at si atravs do sobrado gritou-lhe:
- Querida Sr.a Bonacieux, abri-me a portinha do passadio que vou descer para ir ter convosco!


        XVIII - O AMANTE E O MARIDO


        - Ah, senhora - disse d'Artagnan entrando pela porta que a jovem lhe abria -, permiti-me que vos diga que tendes um triste marido!
- Ouvistes a nossa conversa? - perguntou vivamente a Sr.a Bonacieux, fitando d'Artagnan com inquietao.
- De fio a pavio.
- Mas como, meu Deus?
- Por um processo meu conhecido e pelo qual ouvi tambm a conversa mais animada que tivestes com os esbirros do cardeal.
- E que compreendestes do que dissemos?
- Mil coisas: primeiro, que o vosso marido  um ingnuo e um estpido, felizmente... Depois, que estveis embaraada, o que muito me agradou, por me dar oportunidade 
de me pr s vossas ordens, e Deus bem sabe que estou pronto a deitar-me ao fogo por vs. Finalmente que faa por ela uma viagem a Londres. Como possuo pelo menos 
duas das trs qualidades precisas, aqui estou.
A Sr.a Bonacieux no respondeu, mas o corao palpitou-lhe de alegria e uma secreta esperana brilhou-lhe nos olhos.
- E que garantia me dareis se consentir em confiar-vos a misso? - perguntou ela.
- O meu amor por vs. Vamos, dizei, ordenai. Que  preciso fazer?
- Meu Deus, meu Deus! - murmurou a jovem. - Deverei confiar-vos semelhante segredo, senhor? Sois quase uma criana!
- Pelos vistos, quereis algum que responda por mim?
- Confesso que isso me tranquilizaria muito.
- Conheceis Athos? -No.
- Porthos? -No.
- Aramis?
- No. Quem so esses cavalheiros?
- Mosqueteiros do rei. Conheceis o Sr. de Trville, o seu capito?
- Oh, esse conheo! No pessoalmente, mas sim por o ter ouvido mais de uma vez falar  rainha como um valente e leal gentil-homem.
- No receareis que ele vos atraioasse pelo cardeal, pois no?
- Oh, no certamente!

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- Ento revelai-lhe o vosso segredo e perguntai-lhe se por mais importante, precioso e terrvel que seja, mo podeis confiar.
- Mas o segredo no me pertence e no posso revel-lo assim.
- eis confi-lo ao Sr. Bonacieux - observou d'Artagnan, despeitado.
- Como se confia uma carta  cavidade de uma rvore,  asa de um pombo ou  coleira de um co.
- E no entanto bem vedes que vos amo.
- Vs o dizeis...
- Sou um homem galante!
- Acredito.
- Sou valente!
- Oh, disso no tenho a certeza!
- Nesse caso, ponde-me  prova.
A Sr.a Bonacieux fitou o jovem, retida por uma derradeira hesitao. Mas havia tal ardor nos seus olhos, tal persuaso na sua voz, que se sentiu tentada a confiar 
nele. De resto, encontrava-se numa dessas circunstncias em que  mister arriscar tudo por tudo. A rainha tanto se poderia perder por excessiva cautela como por 
excessiva confiana. Depois, confessemo-lo, o sentimento involuntrio que experimentava pelo jovem protector decidiu-a a falar.
- Escutai: rendo-me aos vossos protestos e cedo s vossas garantias. Mas juro-vos perante Deus que nos ouve que se me atraioardes e os meus inimigos me perdoarem, 
matar-me-ei e acusar-vos-ei da minha morte.
- E eu juro-vos perante Deus, senhora - disse d'Artagnan -, que se for apanhado no cumprimento das vossas ordens morrerei antes de fazer ou dizer o que quer que 
seja que comprometa algum.
Ento a jovem confiou-lhe o terrvel segredo de que o acaso j lhe revelara uma parte diante da Samaritana. Foi a sua mtua declarao de amor.
D'Artagnan estava radiante de alegria e orgulho. O segredo que possua, a mulher que amava, a confiana e o amor, tornavam-no um gigante.
- Parto - disse ele. - Parto imediatamente.
- Como, partis?! - exclamou a Sr.a Bonacieux. - E o vosso regimento, e o vosso capito?
- Pela minha alma que me haveis feito esquecer tudo isso, querida Constance! Sim, tendes razo, preciso de uma dispensa.
- Mais um obstculo - murmurou a Sr.a Bonacieux, contrariada.
- Oh, esse!... - exclamou d'Artagnan aps um momento de reflexo. - Esse ultrapass-lo-ei, estai tranquila.
- Como?
- Procurarei esta mesma noite o Sr. de Trville e rogar-lhe-ei que pea por mim esse favor ao cunhado, o Sr. dos Essarts.
- Agora outra coisa.

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- O qu? - perguntou d'Artagnan, vendo que a Sr.a Bonacieux hesitava em continuar.
- Talvez no tenhais dinheiro...
- Talvez,  pouco - respondeu d'Artagnan, sorrindo.
- Ento - prosseguiu a Sr.a Bonacieux, abrindo um armrio e tirando a bolsa que meia hora antes o marido acariciava to amorosamente -, tomais esta bolsa.
- A bolsa do cardeal! - exclamou, desatando a rir, d'Artagnan, que, como sabemos, graas aos ladrilhos tirados do cho, no perdera uma slaba da conversa do retroseiro 
com a mulher.
- Sim, a bolsa do cardeal - confirmou a Sr.a Bonacieux. - Como vedes, tem um aspecto bastante respeitvel...
- Por Deus, ser uma coisa duplamente divertida: salvar a rainha com o dinheiro de Sua Eminncia!
- Sois um rapaz amvel e encantador - observou a Sr.a Bonacieux. - Podeis crer que Sua Majestade no ser ingrata.
- Oh, j estou grandemente recompensado! - exclamou d'Artagnan. - Amo-vos e permitis que vo-lo diga;  j mais felicidade do que ousava esperar.
- Silncio! - disse a Sr.a Bonacieux, estremecendo.
- Porqu?
- Ouo falar na rua.
- Esta voz...
-  do meu marido. Sim, reconheo-a! D'Artagnan correu para a porta e fechou-a.
- No entrar antes de eu sair, e depois de eu sair abrir-lha-eis.
- Mas eu tambm j c no devia estar. E o desaparecimento do dinheiro, como justific-lo se c estiver?
- Tendes razo,  preciso sairmos.
- Sairmos como? Ele ver-nos- se sairmos.
- Nesse caso, temos de subir para minha casa.
- Dizeis-me isso num tom que me mete medo! - exclamou a Sr.a Bonacieux.
A jovem pronunciou estas palavras com as lgrimas nos olhos. D'Artagnan viu essas lgrimas e perturbado, comovido, lanou-se-lhe aos ps.
- Em minha casa estareis to em segurana como num templo, dou-vos a minha palavra de gentil-homem.
- Ento vamos. Confio em vs, meu amigo.
D'Artagnan abriu com precauo o ferrolho, e ambos, ligeiros como sombras, esgueiraram-se pela porta interior para o passadio, subiram sem rudo a escada e entraram 
no quarto de d'Artagnan.
Uma vez ali, para maior segurana, o jovem barricou a porta. Aproximaram-se da janela e por uma fenda da persiana viram o Sr. Bonacieux a conversar com um homem 
de capa.
Ao ver o homem de capa, d'Artagnan saltou, desembainhou parcialmente a espada e correu para a porta.

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Era o homem de Meung.
- Que ides fazer? - gritou a Sr.a Bonacieux. - Perdeis-nos!
- Mas jurei matar aquele homem! - protestou d'Artagnan.
- A vossa vida est comprometida, neste momento, e no vos pertence. Em nome da rainha probo-vos de correrdes qualquer perigo estranho  viagem.
- E em vosso nome no ordenais nada?
- Em meu nome - disse a Sr.a Bonacieux com viva emoo -, em meu nome suplico-vos. Mas escutemos, pois parece que falam de mim.
D'Artagnan aproximou-se da janela e apurou o ouvido. O Sr. Bonacieux abrira a porta e ao ver a casa vazia dirigira-se ao homem da capa, que por instantes deixara 
sozinho.
- Foi-se embora, deve ter regressado ao Louvre - disse.
- Tendes a certeza de que no desconfiou das intenes com que sastes?
- No desconfiou de nada - respondeu Bonacieux, com suficincia. -  uma mulher demasiado superficial.
- O cadete das guardas est em casa?
- No creio. Como vedes, tem as persianas fechadas e no se v brilhar nenhuma luz atravs das fendas.
- Em todo o caso, convinha verificar.
- Como?
- Indo bater-lhe  porta.
- Perguntarei ao criado. -Ide.
Bonacieux entrou em sua casa, passou pela mesma porta por onde tinham acabado de sair os dois fugitivos, subiu ao patamar de d'Artagnan e bateu.
Ningum respondeu. Porthos, para fazer maior figura, pedira Planchet emprestado naquela noite. Quanto a d'Artagnan, por nada deste mundo daria sinal de existncia.
No momento em que o dedo de Bonacieux bateu na porta, os dois jovens sentiram o corao saltar-lhes no peito.
- No est ningum em casa - disse Bonacieux.
- No tem importncia; entremos na vossa casa, pois sempre estaremos mais seguros que no limiar da porta.
- Meu Deus - murmurou a Sr.a Bonacieux -, no vamos poder ouvir mais nada!
- Pelo contrrio, ouviremos melhor - redarguiu d'Artagnan. D'Artagnan retirou os trs ou quatro ladrilhos que transformavam
o seu quarto noutro ouvido de Dionsio, estendeu um tapete no cho, ajoelhou-se e fez sinal  Sr.a Bonacieux para se inclinar, como ele fazia, para a abertura.
- Tendes a certeza de que no est c ningum? - insistiu o desconhecido.
- Absoluta - respondeu Bonacieux.
- E pensais que a vossa mulher...

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- Voltou para o Louvre.
- Sem falar a ningum a no ser a vs?
- Com certeza.
-  um pormenor importante, compreendeis?
- Quereis dizer que a notcia que vos levei tem valor?...
- Um valor enorme, meu caro Bonacieux, no vo-lo oculto.
- Ento o cardeal est contente comigo?
- Sem dvida nenhuma.
- O grande cardeal!
- Tendes a certeza de que durante a sua conversa convosco a vossa mulher no pronunciou nomes?
- Creio que no.
- No mencionou nem a Sr.a de Chevreuse, nem o Sr. de Buckingham, nem a Sr.a de Vernet?
- No, s me disse que queria mandar-me a Londres para servir os interesses de uma pessoa ilustre.
- Traidor! - murmurou a Sr.a Bonacieux.
- Silncio! - pediu d'Artagnan, pegando-lhe numa das mos, que ela lhe abandonou sem pensar.
- No importa - continuou o homem da capa. - Fostes um nscio por no terdes fingido aceitar a comisso; tereis agora a carta, o Estado que ameaam estava salvo 
e vs...
- E eu?
- Ora, vs... o cardeal dar-vos-ia cartas de nobreza!
- Foi ele que vo-lo disse?
- Foi. Sei que queria fazer-vos essa surpresa.
- Estai tranquilo - redarguiu Bonacieux. - A minha mulher adora-me e ainda estamos a tempo.
- Grande parvo! - murmurou a Sr.a Bonacieux.
- Silncio! - insistiu d'Artagnan, apertando-lhe a mo com mais fora.
- Como  que ainda estamos a tempo? - perguntou o homem da capa.
- Vou ao Louvre, mando chamar a Sr.a Bonacieux, digo-lhe que reflecti, obtenho a carta e corro para casa do cardeal.
- Ide depressa; em breve virei saber o resultado da vossa diligncia.
O desconhecido sorriu.
- O infame! - disse a Sr.a Bonacieux, dirigindo mais este epteto ao marido.
- Silncio! - repetiu d'Artagnan, apertando-lhe a mo ainda com mais fora.
Um berro terrvel interrompeu ento as reflexes de d'Artagnan e da Sr.a Bonacieux. Era o marido desta, que dera pelo desaparecimento da bolsa e gritava que o tinham 
roubado.
- Oh, meu Deus, vai pr todo o bairro em polvorosa! - gemeu a Sr.a Bonacieux.
Bonacieux gritou durante muito tempo; mas como tais gritos,

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atendendo  sua frequncia, no atraam ningum  Rua dos Fossoyeurs, e alm disso a casa do retroseiro tinha tido h tempo bastante m fama, vendo que ningum aparecia 
o nosso homem continuou a gritar, mas agora a sua voz afastava-se na direco da Rua dos Bas.
- E agora que se foi embora  a vossa vez de irdes - disse a Sr.a Bonacieux. - Coragem, mas sobretudo prudncia, lembrai-vos de que vos deveis j  rainha.
- A ela e a vs! - exclamou d'Artagnan. - Ficai tranquila, bela Constance: voltarei digno do seu reconhecimento; mas voltarei tambm digno do vosso amor?
A jovem respondeu apenas por intermdio do vivo rubor que lhe cobriu as faces. Pouco depois, d'Artagnan saiu, tambm envolto numa grande capa que levantava cavalheirescamente 
a bainha de uma longa espada.
A Sr.a Bonacieux seguiu-o com a vista, com esse longo olhar de amor com que a mulher acompanha o homem que sente amar; mas quando ele desapareceu  esquina da rua, 
caiu de joelhos, juntou as mos e suplicou:
- Meu Deus, protegei a rainha e protegei-me!


                              Fim do Primeiro Volume
